Mauricio Kus
O ENTERRO DA CAFETINA


Por Mauricio Kus, 01/10/2009 às 20:15

Você, prezado leitor, já se imaginou passando pela rua, a trabalho ou fazendo uma caminhada, quando à sua frente passa um cotejo fúnebre, com o carro funerário e os demais veículos acompanhando o féretro, com faixas em torno dos carros convidando para o enterro da cafetina? E um monte de meninas bonitas, em carro aberto, distribuindo folhetos?

Tem que se beliscar para ver se não está sonhando!!!

Mas isto aconteceu de verdade, no final dos anos 70.

Aconteceu como? Vamos contar.


Jece ValadãoJece Valadão
, que foi ator de cinema, teatro e televisão, também produziu a maioria dos filmes em que atuou.

Comprou dois roteiros de Marcos Rey, “O enterro da cafetina” e “A filha de Madame Bettina”.  Ficou só na produção do primeiro,  e entregou a direção do filme para o competente Alberto Pieralisi, italiano radicado no Rio de Janeiro, onde morou e faleceu.

Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato, vem de uma família de escritores, e era irmão de Mario Donato.  Escreveu vários programas de televisão, inclusive participação no roteiro de “Vila Sezamo” e “Sitio do Picapáu amarelo”.

Foi tradutor de livros, autor infantil e roteirista de vários filmes da boca do lixo, o que mostra o quanto era profícuo e um verdadeiro camaleão em assuntos artísticos e literários.

Na década de 1990 foi colunista da revista Veja São Paulo, até a sua morte em 1999, por complicações de uma cirurgia. Gostava tanto de São Paulo, que deixou condições expressas: um mês após sua morte, sua esposa sobrevoou de helicóptero o centro de São Paulo, espalhando suas cinzas pela cidade.

Quando lançou o filme, Jece Valadão veio a São Paulo e como acontecia com todos os seus filmes, nós cuidavamos da divulgação. Como despertar interesse no enterro de uma cafetina? Realizando o enterro da cafetina, ora...

No projeto e na viabilização da idéia, procurei o Serviço Funerário da Prefeitura Municipal de São Paulo – um lugar lúgubre em baixo de um viaduto do centro da cidade. Para falar com o administrador tivemos que atravessar uma marcenaria onde se fabricavam os caixões.

Nosso intuito era fazer um desfile pela cidade, como se fosse um cotejo fúnebre. Queríamos alugar um carro fúnebre, com um caixão dentro (vazio, é claro). Recusaram e nada se podia fazer, pois todo serviço funerário da capital é monopólio da Prefeitura e do Serviço Funerário da Prefeitura Municipal de São Paulo.

Estivemos a ponto de desistir, quando lembrei: monopólio municipal morre nos limites da cidade.  E Osasco, Cotia, Guarulhos? Guarulhos topou e uma funerária local nos alugou um carro funerário dos antigos, colocou um caixão vazio dentro e forneceu o motorista da empresa, que conduziu o veículo para São Paulo.

Pagamos por hora e por quilometro rodado. Fizemos o desfile no dia da estréia. Graças ao ator Davi Cardoso e seus amigos, reunimos vários carros antigos, alguns jeeps e dezenas de starlets e modeletes, com mini-mini saias e maxi-maxi decotes, subiram nos carros e acompanharam o séqüito pelas ruas centrais da cidade.  Em cada veiculo, uma faixa contendo os dizeres “Assista o enterro da cafetina”.  Milhares de panfletos foram distribuídos pelas meninas com o nome do filme, ficha técnica e reprodução do cartaz publicitário, cinemas e horários onde estava sendo exibido.

O desfile durou uma tarde inteira, e à noite tivemos um coquetel a caráter.

Consultamos vários proprietários de casas noturnas da Boca do Luxo, nos arredores da Rua Major Sertorio, procurando achar alguem disposto a fazer um coquetel para a imprensa e convidados selecionados entre o que chamamos hoje de célebres, famosos e formadores de opinião.

A simples presença de Jece Valadão com o elenco, formado por Eva Christian, Elza Gomes, Elizangela, Paulo Fortes, já era um chamariz.  Justamente por isto, ninguém queria topar, pois os donos de inferninhos tinham medo de chamar atenção para suas atividades e não queriam ligar sua casa a uma cafetina.

Finalmente conseguimos um inferninho na Rua Bento Freitas, cuja proprietária, por acaso era parente de uma atriz (de renome) de teatro e topou, impondo condições.

O coquetel teria que começar as 19 horas e terminaria definitivamente as 21 horas, hora em que as meninas da casa começavam a chegar para o trabalho.

Os fotógrafos tinham que tirar fotos sem identificar a casa, seus espelhos ou lustres, usando fundo neutro, e tinha que haver forte controle sobre as bebidas para evitar que alguém exagerasse na dose e criasse problemas para a casa.]

No fim, deu tudo ao contrário.  A imprensa se animou com uma coletiva e lançamento de filme em inferninho e compareceu em número nunca antes imaginado neste país.  Os socialites que chegavam a esnobar até coqueteis no Regine’s ou Gallery (as casas top da época), compareceram em massa, animados para viver o clima de “bas fond”, numa casa que não ousariam freqüentar habitualmente.

As meninas da casa que foram avisadas para só chegar após as 21 horas, chegaram durante o coquetel para curtir os “artistas”.  O clima foi de muito respeito, civilidade, todo mundo se divertiu.

A dona da casa ficou tão entusiasmada, que mandou sua cozinheira preparar os bolinhos de bacalhau (petisco pelo qual a casa era célebre) fora do contratado, para servir os convidados.

E o enterro da cafetina foi o assunto mais comentado da cidade naquela semana, e deu a maior  visibilidade em espaço  na mídia.

O que redundou em um campeão de bilheteria, batendo o recorde de faturamento do ano, tanto para o filme, quanto para a dona da casa noturna.

Só não teve missa de sétimo dia.

Sobrou expectativa para o filme seguinte de Jece Valadão, “A filha de Madame Bettina”, outro grande sucesso de público, estreado alguns meses depois.

 

mkus@uol.com.br

 



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