Mauricio Kus
Aula Magna com Stálin no CCBB SP - direção de William Pereira


Por Mauricio Kus, 26/05/2015 às 15:41

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Em cena, os personagens Stálin, Jhdanov, Prokofiev e Shostakovich. A peça tem direção de William Pereira e estreia dia 21 de maio no CCBB SP

Um espetáculo em dois atos. O primeiro, denso e dramático, carregado de opressão e violência. O segundo, uma sátira ao universo político e musical da União Soviética no ano de 1948. Ambientada no inverno russo, “Aula Magna com Stálin” ocorre em torno de cálices de vodca. Em cena, quatro personagens: Stálin, Jhdanov, Prokofiev e Shostakovich, interpretados por Jairo Mattos, Luiz Damasceno, Carlos Palma e Felipe Folgosi. A “orquestração” de toda a montagem é do diretor William Pereira em Aula Magna com Stálin, espetáculo inédito que estreia dia 21 de maio de 2015 no CCBB (Rua Álvares Penteado, 112 - Centro, São Paulo- SP). A temporada vai até dia 3 de julho.

Aula Magna com Stálin (Masterclass no original), do premiado romancista e dramaturgo britânico David Pownall – ambos inéditos no Brasil – foi escrito em 1983 e ganhou tradução de William Pereira em 1996, que desde então guarda o desejo de realizar a montagem no Brasil.

David Pownall, nascido em 19 de maio de 1938, é um dramaturgo, autor de romances e contos britânico - e também fundador da companhia de teatro Paines Plough - e assim como o diretor William Pereira, deu à música um lugar de destaque em sua carreira. Autor de outras dramaturgias focadas em compositores importantes do cenário musical mundial (sobre Edward Elgar, Elgar’s Rondo, e sobre Carlo Gesualdo, Music to murder by), Pownall tem em Aula Magna com Stálin uma de suas obras de maior sucesso, montada em vários paises – a ponto de render um livro do autor, “Writign Master Class” (Oberon Books, 2013), dedicado exclusivamente a descrever o processo de criação dessa peça.

Após anos dirigindo óperas nos principais palcos líricos do país, o diretor William Pereira retorna ao teatro, onde iniciou sua carreira de encenador, dirigindo um espetáculo onde a música é o principal assunto. “Se na ópera desvenda-se a teatralidade da música, em Aula Magna com Stálin o caminho é o oposto: buscar a musicalidade do teatro, do texto, das palavras da peça do dramaturgo britânico David Pownall, autor que é encenado pela primeira vez no Brasil”, diz o diretor. William inicia com este espetáculo uma trilogia teatral com textos sobre música e compositores. Aqui se discute a vida e obra de dois dos mais importantes compositores do século XX, Prokofiev e Shostakovich

Sinopse
Em Moscou de 1948, Andrei Jhdanov, o secretário do ditador Josef Stalin, líder máximo da URSS, convocam uma reunião com os compositores Prokofiev e Shostakovich para definição dos novos rumos da arte soviética conforme os interesses do Estado. A tragicomédia, do inglês David Pownall, discute a relação entre a arte e a política, bem como o papel do artista na sociedade.

Aula Magna com Stálin
“Aula Magna com Stálin” é ambientada em janeiro de 1948, na véspera da realização do Primeiro Congresso de Compositores da URSS. O encontro entre o ditador soviético, seu encarregado de política cultural, Andrei Jdánov, e os compositores Serguei Prokófiev e Dmitri Chostakóvitch aconteceu apenas na imaginação de Pownall. Tal imaginação, porém, foi solidamente amparada, nutrida e informada pelo contexto histórico da época.

Para o dramaturgo britânico, o que parecia atrair, desde o início, além dos conflitos entre arte e poder, era a simultaneidade de humor e horror presente na transcrição das atas do congresso de compositores da URSS: “Por um lado, aquelas atas eram de gelar o sangue, mas também faziam rir (...). Havia uma certa mistura de terror e zombaria... e eu imediatamente soube que queria escrever uma peça a respeito”, afirmou Pownall em entrevistas sobre seu texto de maior sucesso.

A encenação, por William Pereira
O espetáculo Aula Magna com Stálin de David Pownall é uma tragicomédia, e essa diferença de “tonalidade” entre os dois atos estará acentuada, destacando toda a dramaticidade do primeiro ato e a comicidade do segundo

A ação se desenvolve em um dos salões do Kremlin com um grande piano de cauda. Nessa encenação, o espaço cênico será uma espécie de repartição pública, bunker e almoxarifado de um Departamento de Propaganda e Agitação – tão comuns em regimes totalitários – será pano de fundo para uma grande discussão sobre os rumos da Arte, as ligações entre Arte e Política, engajamento, militância, a individualidade do artista confrontada com os deveres de Estado.

A linguagem realista do texto será mantida, assim como a caracterização dos atores, para que se aproximem das figuras históricas retratadas: Stálin, Zhdanov, Prokofiev e Shostakovitch. A trilha sonora será composta por trechos das obras dos compositorespersonagens, e música especialmente composta, utilizando-se procedimentos e características das obras de Prokofiev e Shostakovitch.

A trilha sonora será composta por trechos das obras dos compositorespersonagens, e música especialmente composta, utilizando-se procedimentos e características das obras de Prokofiev e Shostakovitch.

O autor David Pownall, por Irineu Franco Perpétuo
Nascido em Liverpool, em 1983, Pownall teve uma trajetória inicialmente ligada ao mundo corporativo, trabalhando na Ford Motor Company, na Inglaterra, e na companhia de mineração Anglo American PLC, em Zâmbia (África), na década de 1960. De volta ao Reino Unido, nos anos 1970, resolveu dedicar-se integralmente ao teatro, fundando a companhia itinerante Plaines Plough, e criando peças premiadas como “Music to Murder By” (1976) e “Richard III, Part Two” (1977), dentre outras. “Stálin e Prokófiev debatendo o futuro da música russa pode não parecer muito uma ideia para uma peça”, escreveu o crítico Dan Sullivan, do Los Angeles Times, em 1987, sobre uma produção do espetáculo. O artigo prosseguia: “Mas espere até você ver o que o dramaturgo britânico David Pownall faz com ela em 'Aula Magna com Stálin'.”

A mescla de informação histórica, humor e drama fez de 'Aula Magna com Stálin' (Master Class, 1983) uma das obras de maior sucesso de Pownall – a ponto de render um livro do autor, “Writign Master Class” (Oberon Books, 2013), dedicado exclusivamente a descrever o processo de criação da peça.

Em entrevista ao jornal “The Seattle Star”, em 2012, Pownall conta que a gênese da peça ocorreu também em meio a muito álcool: “Na verdade, ela começou com um homem chamado a Julian Lee, que chegou a Lancashire, vindo do Canadá. Em suas próprias palavras, ele era 'um ex-compositor de sucesso'. Era um homem que bebia muito, bastante, bastante inteligente, mas que virava a cara para qualquer ideia de sucesso. Ele decidiu que ia me educar em música. Era um músico muito bom. Então a gente se sentava com uma bebida e ele me ensinava música. Eu estava usando muita música naquela época, no teatro, mas isso era novo. Julian estava sempre por lá e sempre assistindo, uma pessoa muito construtiva. Ele me deu um livro que tinha a ver com Gesualdo, chamado 'Carlo Gesualdo: Músico e Assassino'. Um tesouro que ele conservava há muito tempo, e que me deu com a finalidade expressa de que eu escrevesse uma peça. Foi o que fiz, e funcionou. Daí ele me deu um segundo livro, o relato de um correspondente da BBC da conferência dos músicos na União Soviética, em 1948, em Moscou, com as minutas do encontro. Um livro bem fino. Ele calculava que eu também seria sensível a ele, que nesse livro, assim como no outro, havia algo a que eu poderia corresponder. Foi assim que começou. Levei muitos anos, porque estava fazendo outras coisas. Tive que ir à Rússia, em 1978, como parte disso. Muitas aventuras! Eventualmente me levou a muitos lugares diferentes pelo mundo, pois se tornou parte de um grande movimento político, durante o colapso do império soviético. Muitos grupos queriam fazer a peça, por causa da história que contava, mas também pelo elemento cômico. É muito popular em todos os países escandinavos, Estônia, Hungria, Tchecoslováquia... Todos aqueles lugares que estavam se libertando, enquanto, alguns anos antes, sob os regimes anteriores, estariam fora de questão”.

As bebedeiras com Lee renderam, assim, várias peças com temática musical – além de Gesualdo, Prokófiev e Shostakóvitch, Pownall também dramatizaria a existência do ícone britânico Edward Elgar (1857-1934). O autor também é um dos devotos mais apaixonados e criadores de drama de rádio nos últimos 50 anos, tendo escrito mais de oitenta e três peças para o rádio.

SERVIÇO

AULA MAGNA COM STÁLIN - de David Pownall
Tradução de William Pereira
Direção e cenografia:
William Pereira
Diretora Assistente: Ângela Barros
Direção Musical e composições: Miguel Briamonte
Figurinos: Fábio Namatame
Iluminação: Caetano Vilela

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