Mauricio Kus
HÁ QUARENTA ANOS ATRÁS O HOMEM PISOU NA LUA E HEBE PISOU NA BOCA DO LIXO


Por Mauricio Kus, 26/07/2009 às 20:42

Enquanto em milhares de lares paulistanos as pessoas se concentravam em torno de toscos aparelhos de televisão, em sua maioria com imagem em branco e preto, para ver o desembarque dos astronautas na lua, um grupo de amigos, ao mesmo tempo, chegava à um endereço suspeito na Boca do Lixo, em São Paulo, para assistir a um filme. Quarenta anos se passaram desde que o homem chegou à lua e também estreou “Easy Rider” (Sem Destino), um filme que mudou muitos parâmetros cinematográficos e marcou a estréia de um jovem ator que atende pelo nome de Jack Nicholson.

Naquela noite, o homem pisou na lua e Hebe pisou na boca do lixo. Não só ela, mas todos os outros convidados de Sarah e Mauricio Kus : Lolita e Ayrton Rodrigues, Ruben Ewald Filho, Fernando de Barros, Davi Cardoso, Samuel Vainer, Joanna Fonn, Póla Vartuk, Agnaldo Rayol, Flora Geni e Dionísio Azevedo.

Era como chamávamos sessão cabine para jornalistas, amigos, formadores de opinião e cineastas, que eu e Sarah, como divulgadores dos distribuidores, organizávamos para promover filmes.

Ainda não existiam cinemas em shopping, nem locais mais adequados àquelas sessões, que se realizavam em duas cabines (pequenas salas com 15 a 20 cadeiras) em plena Boca do Lixo, hoje chamada Cracolandia, uma na Rua Vitoria, outra na Rua dos Gusmões,

Ambos endereços eram centro de prostituição de baixo nível, com hotelecos sujos e escuros em prédios velhos e decadentes. O sexo à venda nas ruas era o comércio noturno da região.

Obviamente a chegada de alguns carros do ano e pessoas famosas e bem vestidas se dirigindo àqueles endereços provocava um choque visual e cultural total.

Mas, não se sentia o perigo da delinqüência ou violência. As mulheres rodavam as bolsinhas em busca de parcos ganhos em programas rapidinhos e os homens iam atrás do sexo que elas ofereciam, sem incomodar quem estava fora deste contexto.

Não havia necessidade de segurança nem pedir à Radio Patrulha (assim se chamava na época o carro da Policia Militar) para fazer uma ronda pelo local.

Existia uma convivência pacifica e respeito mutuo pela posição de cada um. Não havia assédio, pedido de autografo, ou alguém que tentasse se aproximar para ver uma celebridade de perto. Aliás, nem havia este excessivo culto à celebridade que vemos hoje em dia.

Durante anos fizemos estas cabines, sempre mostrando filmes inéditos e próximos lançamentos.

Havia algumas sessões especiais, muito disputadas no tempo da ditadura: exibição de filme que iriam sofrer corte, proibição ou mesmo banimento, como por exemplo,Calígula, Ultimo tango em Paris, Salô, Emmanuelle, Laranja Mecânica.

Na exibição de Calígula tivemos 60 pessoas, a maioria sentada no chão.

Porque na Boca do Lixo? Naquela época não havia internet, celular, a telefonia era precária, o fax estava nascendo.

Os filmes eram exibidos no Brasil, pelo menos, seis meses depois de sua estréia nos Estados Unidos.

E a negociação com os exibidores e a marcação dos filmes eram feitos pessoalmente – vis a vis – por falta de melhores meios de comunicação. Os filmes estreavam nas capitais em poucos cinemas, depois iam para os bairros, interior, estados menores e assim cumpriam seu destino.

Voltamos à pergunta: porque na Boca do Lixo?

A maioria das empresas cinematográficas tinham seus escritórios nas ruas e entorno da Boca do Lixo, por serem próximas às estações de trem, Sorocabana e Luz.

Os proprietários de cinema do interior chegavam de trem e iam diretamente para os escritórios das distribuidoras. Também era prático e mais próximo para o despacho das cópias, por trem, para os cinemas do interior.

Hoje, com os Cinemarks da vida, comunicações imediatas tudo mudou. Exibições simultâneas no mundo inteiro, marcação antecipada, com às vezes até dois anos antes da estréia, 3D e exibição digital, são a tônica do negócio do cinema.

Ver filmes na Boca do Lixo não inspirava temores. Era muito mais divertido que o grande medo da cinematografia hoje, a pirataria, que naquele tempo só existia em Capitão Blood e as bravatas de Errol Flynn.

MAURICIO kUS




Leia também:

OSCAR 2010: JAMES CAMERON FOI DERROTADO COM “AVATAR” MAS LEVA TODA GRANA DO MUNDO NAS BILHETERIAS E RECEITAS PARALELAS
11/03/2010 - 23:35
James Cameron, aclamado como o Rei de Hollywood pelo caminhão de dinheiro que produziu o filme 'Titanic', pisou no tapete vermelho do Kodak Theatre no últ...


INTIMIDADES NO TEATRO EVA HERZ
27/08/2013 - 11:20
Como disse Bruce na primeira leitura, trabalhar nessa peça é como olhar pelo buraco da fechadura onde podemos ver flashes da vida desse casal, um homem e ...


OSCAR 2010: ESQUECERAM DE MIM
12/03/2010 - 0:8
Como sempre a cerimônia de Oscar transcorreu impecável, com timing perfeito, controle sobre os enfadonhos discursos relacionando agradecimento a toda famíl...


CATEDRAL METROPOLITANA DE SOROCABA INSTALA SOM DIGITAL EVOLUTONE LANDO
01/10/2015 - 11:46
Importado da Alemanha e representado com exclusividade no Brasil pela Lando, que também detém a capacitação necessária para projeto, instalação e manutençã...


KIRK DOUGLAS, O ÚLTIMO GRANDE ICONE DE HOLLYWOOD
21/05/2012 - 16:17
Quando o maestro indiano Zubin Mehta inaugurou sua estrela na Calçada da Fama em Hollywood, um venerando senhor de cabelos brancos, voz hesitante (mas com ...


JANTANDO COM UM MITO DO CINEMA: WILLIAM WYLLER
31/03/2010 - 2:49
Se o Data Folha ou o Ibope resolverem fazer uma pesquisa nas longas filas que se formam nos cinemas que exibem “Avatar”, para ver quem conhece ou ouviu fal...


PASSAMOS UMA SEMANA DE VIDA DE ONASSIS SEM POR A MÃO NO BOLSO
31/07/2009 - 12:00
A frase é do irônico e brilhante jornalista, cronista, repórter e colunista social Gilberto Di Piero, o conhecido Giba Um. Definiu a semana que passamos j...


TNT fará cobertura exclusiva do 86º OSCAR® em versão multiplataforma
18/02/2014 - 11:31
Marcado para domingo de Carnaval, 2 de março, a partir das 20h30*, premiação ganha 'segunda tela' no site da TNT, com direito a comentários de Rafael Cort...


MEU NOME É TAUFIK JACOB. MAS PODEM ME CHAMAR DIONISIO AZEVEDO
13/01/2011 - 15:0
Em 6 de outubro de 1973, a população de Israel se preparava para as orações do Yon Kipur, a data religiosa sagrada das hebreus, quando jejuavam e ficavam ...