Mauricio Kus
GEORGE JONAS, O GUERRILHEIRO DO BEM


Por Mauricio Kus, 01/12/2009 às 11:49

GEORGE JONAS, O GUERRILHEIRO DO BEM

 

Recebo um e-mail do meu amigo Carlos Brickmann.  O velho Brickmann, figuraço!  Sempre alegre e sorridente, com sua figura gigantesca, jornalista de texto brilhante, circula com desenvoltura pelos mais fechados gabinetes de Brasília e do Estado de São Paulo.

Dono de grande generosidade, é,, por décadas, doador voluntário de sangue no Hospital Albert Einstein, e nunca fez alarde deste seu gesto..

 Descobri, por acaso, quando estava fazendo, no Einstein,  uma reportagem com atores e atrizes de cinema e televisão, com a finalidade de incentivar as pessoas a doarem sangue, num período em que os hospitais de sangue estavam em baixa com seus estoques.

O e-mail é longo, é melhor reproduzir do que explicar.  Direitos autorais à parte, eis o texto completo::

 

UM LIVRO QUE VALE A PENA (E O DVD PROIBIDO)

Ele lutou na Hungria, como partisan, contra os nazistas.  Terminada a guerra, fugiu das tropas comunistas para a Itália. Lá, estabeleceu-se e teve domicilio por algum tempo nas ruínas do Coliseu.

Nas ruínas da Europa pós guerra, vagueou por algum tempo e estudou Química na Alemanha.  Resolveu então tentar a vida na América Latina,na Bolívia.

Quando chegou ao Brasil? “Não se sabe” diz ele, com seu sotaque húngaro praticamente intacto depois de tantos anos.  Ele se perdeu nas selvas da Bolívia no fim de um ano e foi localizado no inicio do outro ano às margens do rio Guaporé, no Brasil.

Ficou por aqui e fundou duas empresas de grande sucesso, a Líder, o primeiro laboratório cinematográfico do país e a Espiral, produtora de filmes e audiovisuais, um marco no mercado publicitário brasileiro.

Produziu e dirigiu um filme, “A Compadecida”, baseado na obra de Ariano Suassuna, com Regina Duarte e Zózimo Bulbul.  Conseguiu o milagre de desagradar a todos: ao regime militar (que proibiu o filme) e a uma ala da Igreja Católica, que não se conformava com um Cristo negro; à esquerda que fazia oposição aos militares, reunida no Cinema Novo, porque Cinema Novo, A Compadecida não era.

Este é um breve perfil de George Jonas, o húngaro mais brasileiro do Brasi, judeu pela Lei Judaica, como filho de mãe judia, e orgulhoso de sua origem.

Na próxima quinta-feira, lança A Cor da Vida, o livro contendo todas as histórias aqui lembradas e muitas outras mais.  Estarei lá, e acho que quem puder ir à Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, SP, na Av. Paulista, a partir das 18h30, guardará na memória uma pessoa que merece ser conhecida e cuja conversa é fascinante.  Terá oportunidade de levar o DVD com A compadecida, o filme que esquerda e direita abominaram.  E poderá, lendo uma despretensiosa autobiografia lançada pela Editora de Cultura, acompanhar a história de nossos tempos, da Segunda Guerra até hoje.

 

A Compadecida foi distribuida pela Cinedistri, de Oswaldo Massaini, também um dos produtores do filme.

Fui contratado para fazer a divulgação e promoção do filme, e se o DVD mantiver intacto os letreiros de créditos do filme, meu nome está lá na tela, (ou na telinha, já que o DVD vai ser mostrado nos aparelhos de televisão).

Conheci George Jonas na Espiral Filmes, fiquei deslumbrado com o aparato técnico de sua empresa, a organização impecável do equipamento e a disciplina com que as filmagens eram realizadas.

Sempre tranqüilo em meio à conturbada confusão de um plateau de filmagens, fala mansa, muito educado e compenetrado, tinha como clientes, as maiores agencias de publicidade daquela época (falo de 1969, o ano em que o filme foi lançado), que finalizou comerciais inesquecíveis que entraram para a história da publicidade brasileira.

Falo de “O primeiro Soutien”, o cachorrinho da Cofap, Guaraná, Fiat 147, Bombril e o lançamento do Scort XR 3, com a participação de Ayrton Senna.  Precisa mais?

Tive longas conversas de briefing com George Jonas e numa dela deparei com um jovem publicitário que estava em vias de deixar a agencia em que trabalhava, instado por um cliente preparado para ser o número um de sua nova agencia.

Chamava-se Âgnelo Pacheco e foi entusiasmado por George Jonas a tocar a vida solo.  Topou e convenceu Marcelo Gutglas, presidente do Playcenter a me  contratar para cuidar da assessoria de imprensa do parque.

Tive no Playcenter momentos maravilhosos, como a loucura de fazer a atriz Jéssica Lange, atriz de King Kong sentar nas mãos de um gigantesco gorila, de 15 metros de altura, construído pelo departamento de engenharia do parque.  Jéssica sentou-se na mão do gorila (como no filme), numa noite que levou ao extase, um público de mais de 18.000 pessoas.

Osmar Santos, então na Jovem Pan, foi o mestre de cerimônias e descrevia os lances de Jéssica subindo as escadas e levantando a claque com o mesmo entusiasmo de quem comemora um gol de placa.

Também levei para o Playcenter José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que abrilhantava as famosas Noites do Terror, marca registrada do parque, até hoje.

O e-mail de Brickmann me fez recordar de uma pessoa gentil, carinhosa com os amigos, educadíssima e inteligente, a avó mais bonita do Brasil, Regina Duarte, com quem eu e, Sarinha (minha falecida esposa) curtimos bons momentos.

Quando a conhecemos, nas andanças promocionais de A Compadecida, estava casada há poucos anos com um engenheiro de Campinas, Marcos Cunha Franco, pai da também atriz Gabriela.  Moravam num apartamento modesto na Av. Rangel Pestana, esquina com Parque D. Pedro II e quando as coisas melhoraram para os dois, mudaram-se para Higienópolis.

Era a queridinha do Brasil, até hoje o maior ibope que a televisão já apresentou, , mas adorava teatro. Fez uma menina peralta em “Black out”, com Eva Wilma e outra Duarte, a Débora, que não era sua parente e teve a coragem de – em plena ascenção como a namoradinha do Brasil – fazer o papel de uma prostituta na peça “Reveillon”.

Mesmo antes de conhecer Regina pessoalmente, ela sempre foi assunto de nossas conversas, na British Caledonian, empresa aérea da qual fui gerente de comunicações e relacionamento com a imprensa para o Brasil, durante dez anos, sem prejuízo de minhas atividades como divulgador de cinema, que era o trabalho que eu amava.

Regina, nasceu em Franca, mas foi criada em Campinas, onde casou com Marcos, irmão da encarregada dos check-in dos vôos no Aeroporto Internacional de Viracopos, Bastava nossa funcionária chegar no escritório, para Regina ser o assunto das conversas.  Eu já a conhecia bastante, antes de conhece-la pessoalmente apresentada por George Jonas.

Ficamos amigos por muito tempo, mas os caminhos que a gente segue, acaba separando as pessoas. A última vez que a vimos, já era vovó, na festa de ani versárfio dos  60 anos de Irene Ravache, em casa de Leilah Assumpção, Ela chegou junto com Gabriela. Pareciam duas irmãs.

O e-mail de Brickmann me encaminhou para o George Jonas que conheci, e não vejo há anos. Um George Jonas que pensei conhecer de verdade.

Sempre pensei que na juventude tivesse tentado ser um cineasta ou trabalhado em alguns dos estúdios húngaros de pré guerra, mas parece que entrou para o cinema via química, cuidando do laboratório. Vamos conferir a partir do dia 3, quando vjamos ler o livro.

 Aquele homem pacato e metódico, não dava a impressão de que foi um combatente bélico, um  partisan.  Lembrei do filme de Tarantino, “Bastardos inglórios”, em que judeus matam nazistas.

Nunca poderia imaginar George Jonas deixando de empunhar uma câmara ou girando uma moviola, para empunhar um rifle ou girar uma metralhadora para enfrentar e lutar contra os diabólicos nazistas, eliminando alguns daqueles tenebrosos SS que matavam as pessoas com a naturalidade que a gente come um pastel de feira.

 

mkus@uol.com.br

 



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