Mauricio Kus
O DIA EM QUE A DEUSA DO SEXO INVADIU O CONGRESSO NACIONAL EM BRASILIA


Por Mauricio Kus, 14/09/2009 às 05:47

Quando esteve no Brasil, em 1977, para promover um filme estrelado por ela, Sylvia Kristel, conhecida como “A Deusa do Sexo”, por suas atuações e situações absolutamente liberais, foi convidada a visitar Brasília por um poderoso empresário da indústria de exibição no país. Ele conhecia pessoalmente quase todos os congressistas, e distribuía generosamente, ingressos permanentes de seus cinemas, para os integrantes da Câmara dos Deputados.

Por isto, não hesitou em levá-la ao plenário, onde foi recebida com festas pela Mesa Diretora. Alguns deputados mais velhinhos arregalaram os olhos e mal acreditavam estar em presença da famosa “Emmanuelle”, cujas sessões secretas de seus filmes, eram disputadas a tapa, no tempo em que a censura vetou sua exibição comercial.

Sylvia Kristel vestia um ridículo chapéu, misto de Carmem Miranda, Indiana Jones e o australiano Caçador Crocodilo Dundee. Declarou que era uma homenagem ao Brasil, Brasil que só ela mesmo entendia.

O que não impediu de ser a foto mais publicada nos principais jornais do país e nos telejornais do dia, virando o assunto mais comentado de sua visita de seis dias no Brasil, e o mais ruidoso dos eventos em que ela foi protagonista em sua estada entre nós.

Voltemos uma semana no tempo para contar as aventuras de Sylvia Kristel, desde a sua chegada. Combinamos com a Manchete uma exclusiva e por isto, quando ela desembarcou no Hotel Hilton já encontrou a equipe da revista a postos, com repórter, produtora e fotografo.

Mandaram subir as malas e La Kristel ficou no saguão, ao lado do bar, combinando os detalhes das fotos para depois dar a entrevista. A produtora trouxe uma camisa molhada do Corinthians e sugeriu subir com a atriz para sua suíte, para que ela trocasse de roupa. A idéia era vestir a camisa bem apertada (com alfinetes de fraldas às costas), para que na foto os seios fossem delineados, dando uma impressão de nudez. Tinha chance de ser capa e foi.

La Kristel não se fez de rogada e ali mesmo, na frente de todo mundo tirou sua blusa. Não tinha nada por baixo e pediu a camisa molhada para vestir. Um grupo de americanos que estava no bar, ao vê-la de topless, em pleno saguão de um hotel 5 estrelas, vibrou intensamente e aplaudiu freneticamente. Um deles se levantou, acercou-se do grupo, levantou o copo de caipirinha que tinha na mão, acenou vitorioso para a estrela e entornou o copo de um só gole, voltando para a rodada de bebidinhas no bar, em companhia dos amigos.

A foto ficou ótima e o truque ficou muito manjado, sendo utilizado várias vezes nas visitas que as Bond Girls faziam ao Brasil cada vez que um filme da franquia 007 era lançado.

Até Hugh Jackman, o astro de Wolverine entrou na onda, em sua visita ao Brasil, meses atrás, quando vestiu a camisa de Ronaldo Fenômeno, do Corinthians em São Paulo e a do Flamengo no Rio de Janeiro.

Sylvia Kristhel - Emanuelle
Foto: www.cdandlp.com

A convite de Salomão Schwartzman, La Kristel almoçou na Casa da Manchete, participou de entrevista coletiva à imprensa, esteve presente em uma exibição especial do filme para críticos e um seleto grupo de convidados e frequentou casas noturnas, Chegava ao hotel por volta das 4 da matina e seu dia não podia começar antes das 13 horas, criando alguns problemas de agenda para os organizadores de sua visita.

Ela pediu para ver um cinema onde seu filme estivesse sendo exibido. Estava no Marabá, na Av. Ipiranga, a 300 metros do hotel. Combinamos buscá-la às 13 horas, em companhia de diretores da Empresa Sul, seu gerente de publicidade e um cinegrafista de TV. Ao saber que o cinema ficava na mesma avenida, há apenas 300 metros, preferiu seguir a pé, declinando do carro colocado à sua disposição. Caminhamos livremente pela avenida, ninguém se apercebeu de sua presença, e chegamos à porta do Marabá. Naquele tempo, os cinemas de rua tinham imensas marquises pintadas e um estande publicitário nas portas de saída. O departamento de publicidade da empresa mandou pintar La Kristel ampliada, semi-nua, uma peça de propaganda muito apelativa.

Office boys, vendedores, estudantes cabulando aula, bancários, funcionários dos milhares de escritórios dos prédios do entorno, e mesmo alguns turistas (dois hotéis funcionavam ali, o Excelsior e o Marabá), ficavam olhando o estande, formando pequenos grupos que chegavam a cobrir todo o espaço da calçada. La Kristel se insinuou entre o grupo para ver o estande mais de perto, quando alguém gritou: “É ela, a boazuda da foto”. Foi o estopim para que todos a cercassem e ficamos com medo de sua integridade física. O gerente do cinema acudiu e pediu que saíssemos pelo outro lado, temendo uma invasão e mesmo depredação da sala, caso ela entrasse e fosse seguida pela turba. O recurso foi caminhar pelo lado inverso, contornar a esquina e usar como refugio o Bar da Brahma, que estava terminando de servir o almoço.

Sylvia Kristhel - Emanuelle
Foto: lionsgatepublicity.com

Seus proprietários percebendo a situação, mandaram baixar a porta de aço e chamaram a policia. Chegou uma viatura e saímos de lá protegidos pelos policiais militares. Entramos na viatura. Eles saíram do local a toda velocidade, queimando pneus, ligaram a sirene, contornaram a Praça da Republica e nos deixaram são e salvos na porta do Hilton.

O filme foi um sucesso e sem a presença de Sylvia Kristel e suas badalações repercutindo na imprensa, seria um fiasco, pois cá entre nós, era muito ruim.

Antes de voltar a Paris, ela aceitou convite da Rede Globo para participar numa cena da novela de Lauro César Muniz, “Espelho Mágico”, em que contracenou com Carlos Eduardo Dolabella.

Sylvia Kristel que vai completar 57 anos no dia 28 de setembro, não soube usufruir de sua popularidade e do prestigio de seus filmes, alguns com sexo explicito, outros na linha do sexo soft core. A Deusa do Sexo, no cenário econômico de hoje, teria faturado bastante em comerciais de TV, e provavelmente, teria licenciado Emanuelle ou mesmo a Deusa do Sexo para produtos de consumo como lingèrie e roupas intimas.

Os produtores, no entanto, ganharam muito dinheiro e houve muita picaretagem em torno do nome Emmanuelle. Mais de 30 filmes genéricos foram produzidos, eliminando um dos “m” do nome para evitar processos por direitos autorais. Os filmes tinham como protagonistas atrizes pornôs ou ilustres desconhecidas, eram mal feitos, quase artesanais e tinham titulo bizarros, como Negra Emanuelle, Amores de Emanuelle, Emmanuelle no Inferno, Emmanuelle e os últimos canibais, Emmanuelle em Tóquio, Emanuele e os prazeres sexuais. Teve até um Emanuelle no Rio, produzido em 2003.

Acreditem, um cineminha poeira na famosa avenida parisiense Champs Elisées, exibiu durante 15 anos seguidos, filmes da série, anunciando apenas Emmanuelle, o que bastava para encher a sala.

Em 2007 Sylvia Kristel participou de um documentário sobre sua vida, mostrando uma senhora precocemente envelhecida, com sua beleza impar devastada pelo álcool, cocaína, exploração, luxos, casamentos e a luta desgastante contra um câncer.

Escreveu um livro biográfico (não traduzido para o português) que relata todos os lances de sua conturbada vida como atriz, o que lhe rende alguns dólares de direitos autorais todos os meses.

Sylvia Kristhel - Emanuelle
Foto: www.mujerhoy.com

Ela vive modestamente, quase incógnita, em Amsterdam, Holanda, seu país natal, onde se dedica a pintar quadros.

mkus@uol.com.br

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