Mauricio Kus
Jornalismo e emoção sobre Leila Diniz no site de Marcelo Pestana Carlos Cirne


Por Mauricio Kus, 09/05/2014 às 0:31

Jornalismo e emoção sobre Leila Diniz

Mauricio Kus fala com categoria, informação, jornalismo e emoção sobre Leila Diniz no site de Marcelo Pestana Carlos Cirne...alô alô estudantes de jornalismo. ( Ovadia Saadia, citação no Facebook )

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Londres, junho de 1972, 12 horas, domingo de sol na velha Albion, talvez o único domingo de sol daquele verão londrino. Éramos um grupo brasileiro alegre, feliz, se preparando para voltar para casa naquela noite. Malas feitas, reservas confirmadas no vôo da British Caledonian, nosso anfitrião. Íamos almoçar, dar uma volta pela região de Trafalgar Square até tomar as vãs que nos levariam ao aeroporto de Gatwick.

Londres, na volta, era a última etapa de uma viagem à Escócia, nos Highlands, na cidade de Duftwon, sede da famosa destilaria da Grant’s Whisky. Estivemos uma semana em Duftwon, e em Aberdeen, tomando whisky na fonte. Como diretor de relações públicas da British Caldeonian, fui encarregado de convidar e liderar um grupo de jornalistas e formadores de opinião para visitar a destilaria e fazer um tour turístico pela Escócia, uma terra maravilhosa, rodeada de verde e árvores.

Alguém do grupo definiu bem: “A Escócia é uma bela e grande fazenda”. Fria, muito fria, chegamos no final da primavera, inicio iminente do verão e nós desembarcamos do ônibus tremendo de frio, encolhidos em grossas malhas e casacos, quando deparamos, na saída de um pub, com um gigantesco escocês, de quase dois metros de altura, de camiseta regata, peito estufado, sorrindo alegre com as bochechas vermelhas, muito vermelhas, regadas a whisky 365 dias por ano, 24 horas por dia. Ao ver o grupo, confraternizou naquele sotaque carregado escocês: “What a lovely Summer day” (Que delicia de dia de verão). Estava 5º de temperatura fora do ônibus, e nossa percepção térmica não passava de 3º.

Éramos um grupo muito animado. Jornalistas do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, pontos de embarque e desembarque da British Caledonian no Brasil e uma mélange de pessoas interessantes que hoje chamam de “celebridades”, “famosos” ou “top”, sejam eles iniciantes, figurinhas fáceis ou difíceis nas páginas de Caras e outras revistas de celebridades instantâneas.

Dos jornalistas destacamos: Fernando de Barros, da Abril: Alik Kostakis, da Última Hora, Wladymir Soares, do Grupo Estado; João Alberto, do Diário de Pernambuco, do Recife; e Carlos Leonam, de O Globo, além de Raul Cortez, Davi Cardoso e Robert Telfer, presidente do Britsh Travel Authority no Brasil.

Em praça pública, em 1972, em Londres, o único jeito de se comunicar com o Brasil eram as famosas cabines telefônicas vermelhas, que junto aos ônibus de dois andares, são ícones da capital londrina.

Fernando de Barros foi telefonar para avisar o Fernandinho que estava voltando para casa, e pouco depois chegou junto ao grupo, esbaforido, com um misto de tristeza e espanto e jogou o balde de água fria na turma: "Leila Diniz morreu". Era o dia 14 de junho de 1972, meio dia em Trafalgar Square, um dos raros dias de um covarde sol inglês e ficamos todos estarrecidos.

De volta de um festival de cinema na Austrália, sobrevoando Nova Delhi, na Índia, caiu o avião do vôo JAL 471, da Japan Airlines, vitimando Leila Diniz e uma centena de passageiros. Seu cunhado, que foi a Nova Delhi, local do desastre, para trazer os restos mortais para o Brasil, acabou encontrando um diário onde continha diversas anotações e uma última frase, que provavelmente estava se referindo ao acidente: Está acontecendo uma coisa muito esp...

Com apenas 27 anos de idade, Leila Diniz morria, saindo de cena e deixando uma vida repleta de momentos insólitos e audaciosos, momentos que marcaram toda uma geração de jovens que não aceitavam a “nova ordem” imposta aos brasileiros por uma revolução impopular e brutal.

Quem foi Leila Diniz? Perguntei ontem a um grupo de jovens universitários e o índice de reconhecimento de 1 a 10, atingiu parcos 2 pontos. Eles não sabiam que Leila Diniz trabalhou em 12 novelas de televisão, de 1965 a 1970; fez 15 filmes, de 1967 a 1977; e revolucionou o moribundo teatro de revista em 1967, com a peça tropicalista “Tem Banana na Banda”, improvisando a partir de textos escritos por Millôr Fernandes, Luiz Carlos Maciel, José Wilker e Oduvaldo Viana Filho. No Carnaval de 1971, foi a Rainha da Banda de Ipanema, bairro com o qual se identificou, sendo conhecida como a Mulher Símbolo de Ipanema, defensora do amor livre e do prazer sexual, sempre lembrada como símbolo da revolução feminina, que rompeu conceitos e tabus por meio de suas idéias e atitudes.

Leila Diniz desfilando na Banda de Ipanema. Eterna musa
Leila Diniz desfilando na Banda de Ipanema. Eterna musa - Blog Astros Em Revista

Foi uma pedra no sapato nos militares, durante a primeira década de ditadura que se implantou em 1964, quebrando tabus de uma época em que a repressão dominava o país; escandalizou ao exibir sua gravidez de biquini na praia, e chocou o país inteiro com uma entrevista bomba ao Pasquim, em 1969. a edição mais vendida no pouco tempo em que os militares permitiram a publicação daquele tablóide de resistência aos desmandos da ditadura, principalmente nas investidas contra a imprensa livre.

Leila Diniz minou a ditadura sem entrar na guerra armada, sem se tornar guerrilheira, sem portar metralhadora e sem explodir pobres recrutas refugiados na guaritas dos quartéis. Fez mais para desmoralizar o regime por meios pacíficos, através de seu amor pela vida, sua irreverência, sua arte e o deboche à sociedade machista das décadas de 1960 e 1970, o que não impedia que fosse malvista pela direita opressora, difamada pela esquerda ultra-radical e tida como vulgar pelas mulheres conservadoras daqueles tempos.

Seu arsenal de resistência à ditadura não tinha metralhadoras nem granadas de mão. A exemplo de Ghandi (na luta contra os opressores Ingleses), usava a ternura de sua adolescência (aos dezesseis anos formou-se professora de jardim de infância, no subúrbio carioca) e virou atriz em função do casamento com Domingos de Oliveira, aos 17 anos, numa união que durou três anos. Casou depois com Ruy Guerra, cineasta moçambicano com quem teve uma filha, Janaina, entregue - após sua morte - aos cuidados de sua amiga, a atriz Marieta Severo e o compositor e cantor Chico Buarque de Hollanda, que cuidaram dela até que o pai da criança teve condições de assumir sua filha.

Leila Diniz desfilando na Banda de Ipanema. Eterna musa
Leila Diniz em 1970 no show Tem Banana na Banda - Blog Astros Em Revista

Foi uma mulher avançada para o seu tempo e tirava o sono dos militares, que finalmente, se vingaram da entrevista ao Pasquim, utilizando este acontecimento para justificar a censura prévia à imprensa, que ficou mais conhecida como o "Decreto Leila Diniz".

Não por acaso o destino reservou para ela os últimos momentos de sua vida sobre o solo onde Gandhi pregava a resistência pacifica e a luta silenciosa - sem armas - para destruir a opressão, o ódio e a brutal violência dos dominantes do poder.

Leila Diniz desfilando na Banda de Ipanema. Eterna musa
Leila Diniz numa foto publicada na revista Manchete - Blog Astros Em Revista

Leila, quando perseguida, se refugiou no sítio do colega Flavio Cavalcanti, e tornou-se jurada do seu programa. A TV Globo, do Rio de Janeiro, não renovou o seu contrato, pois Janete Clair informou à direção da emissora que não haveria papel de prostituta na próxima novela da emissora.

Em 1987 foi lembrada com um longa biográfico dirigido por Luiz Carlos Lacerda e interpretado com muito carinho e amor por Louise Cardoso, que arrancou lágrimas de tristeza e saudade das platéias brasileiras que conviveram com Leila Diniz, ou conheceram a sua história de vida.

O elenco do filme - pela qualidade de seus integrantes - deve ter sido escolhido mais na base da homenagem do que no casting: Paulo César Grande, Diogo Vilela, Marcos Palmeira, Carlos Alberto Riccelli, Marieta Severo, Tony Ramos, Antônio Fagundes, Yara Amaral, Rômulo Arantes, Otávio Augusto, Pedro Bial, Sérgio Cabral, Denis Carvalho, Hugo Carvana, Chacrinha, Tarso de Castro, Mariana Moraes, Danuza Leão e Oswaldo Loureiro. Um “all star” pouco visto no cinema brasileiro, com várias personagens da vida carioca, fazendo questão de aparecer como “eles mesmos”.

Leila Diniz passou duas temporadas em São Paulo, a convite do produtor Oswlado Massaini, para protagonizar dois filmes de sua produtora, ambos dirigidos por Carlos Coimbra. Fez em 1968 "A Madona de Cedro" e, em 1969, "Corisco, o Diabo Loiro", um daqueles filmes de cangaço rodados em Itu, cujos morros tinham a mesma semelhança geográfica que os morros do Nordeste, e faziam os filmes em locação ficar muito baratos, sem perder a autenticidade. O falecido montador e diretor Carlos Coimbra, mestre em filmes de cangaço, realizou vários deles em Itu.

Eu e Sarinha, minha esposa, fomos contemplados com uma vivência mais próxima e cultivamos amizade com Leila, uma doce criatura, sempre alegre, feliz e exuberante. Carinhosa com meus filhos, ainda crianças, recebia sempre nossa visita nos fins de semana, quando íamos acompanhar as filmagens. Assim, como estes filmes, todas as produções de Massaini tinham minha assinatura (na tela) como responsável pela divulgação, promoção e publicidade.

Ao lembrar de Leila Diniz só tenho duas coisas a deplorar: que tenha tido uma vida tão curta e que os jovens de hoje tenham uma visão tão curta dos acontecimentos que envolveram seu país e seus ícones, ao contrário - por exemplo - dos Estados Unidos que ensinam sua história aos jovens, mostram o que foi a Guerra da Independência, seus feitos heróicos (e por vezes até desastrados) e cultivam seus artistas e seus ídolos com filmes, romances, peças teatrais e até temas de aulas na vida acadêmica.

Mauricio Kus / 11-98169-8181 / mkus@uol.com.br

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