Mauricio Kus
NO TEMPO EM QUE ERA CHIC FAZER AVANT PREMIÉRE NO CINEMA


Por Mauricio Kus, 10/08/2009 às 20:29

Até o final do século passado (falar em século passado dá a impressão de que somos umas múmias, quando estamos nos referindo apenas aos anos 70 a 90), avant première em cinema era sustentáculo forte dos cofres de entidades filantrópicas que faziam reuniões chics nos cinemões de rua, praticamente extintos, para exibir as grandes produções em avant première.

Os filmes eram realmente inéditos (não tinha camelô na esquina vendendo cópias piratinhas, ainda antes da estréia nos cinemas.

Não tinha também as promoters com fartos e generosos mailings, mandando convite até por e-mail, para eventos boca livre.

Quem ia a avant première de filmes pagava um preço alto pelo ingresso, com uma estratégia de vendas muito parecida entre todas as entidades beneficiadas. Juntava-se um grupo de patronaises, e uma delas, organizava um chá em sua casa e as amigas convidadas levavam dez ou vinte ingressos cada uma, que eram vendidos para as amigas, as amigas das amigas e assim por diante.

Geralmente as avant premières eram sugeridas pelas distribuidoras em parceria com os exibidores. Ambos doavam a sua parte, o que aumentava o cofrinho das entidades, que ficava com o montante total das vendas, já que não tinha custo de aluguel de filme e cinema. Geralmente cobrava-se cinco vezes o valor do preço normal de bilheteria e era chic comparecer, assim como era bem em reuniões de amigos, dizer que já viu o filme em avant première.

Naquele tempo os filmes americanos chegavam ao Brasil com meses, às vezes ano de atrazo em relação ao lançamento nos Estados Unidos e Europa. A média de ingressos vendidos chegava a mil e nossos “clientes” eram, entre outros, Carmem Prudente e o Hospital do Câncer; Jô Clemente e a APAE; Anna Schwartzman e a CIAM, e praticamente as primeiras damas, em vários governos, que lideravam o Fundo de Solidariedade do Palácio do Governo.

As entidades ficavam com o bruto arrecadado e os distribuidores/exibidores (para quem organizávamos a avant première e cuidávamos do marketing do evento) nada cobravam, nem nós, mas como não há almoço grátis, a promoção e divulgação em torno do filme compensava o trabalho.

Citamos dois exemplos:

AMADEUS, de Milos Foreman, filme de 1985. Avant première no cine Gazeta, 900 lugares totalmente tomados. Todos muito elegante, homens engravatados, mulheres com grifes ou o melhor do prèt-a-porter.

Programação: Orquestra Sinfônica Municipal regida pelo Maestro Julio Medaglia e solista o violinista Nathan Schwartzman, tocando músicas de Mozart.

Raul Cortez recitando um trecho da fala de Saliero, que interpretou na peça teatral apresentada no Rio e em São Paulo. A seguir, o filme.

A repercussão foi tamanha, que o filme “Amadeus” foi assunto de capa da revista Veja naquela semana e um dos campeões de bilheteria do ano.

Tom Hulce, que vivia o papel titulo do filme veio ao Brasil, mas ficou somente um dia, pois tinha compromissos de filmagens em Hollywood e não ficou nem para a sessão de gala. Almoçou com a imprensa no Hotel Maksoud, o que deixou Roberto Maksou, que ofereceu o almoço, bastante feliz com a mídia alcançada para o filme e para o hotel naquele dia.
E acreditem, nenhuma das grandes distribuidoras americanas trouxe o filme para o Brasil, que veio para nossas telas através da distribuidora independente Condor Filmes.
Joyce Kus, MauricioKus e Tom Hulce

EXEMPLO DOIS:

INFERNO NA TORRE Consultamos o Corpo de Bombeiros, oferecendo uma avant première do filme, através do Coronel Balough, do alto comanda da corporação em São Paulo, no ano de 1975, estréia do filme no Brasil. Afinal o filme era todo baseado num incêndio e o heroísmo dos bombeiros em apagar o fogo era parte de seu tema central.

Descobrimos que não era possível fazer a sessão em favor do Corpo de Bombeiros, pois a corporção, por lei, não pode receber ajuda em dinheiro. Combinamos com Da. Lyla Byington, esposa do Governador Paulo Egydio Martins tocar o projeto e com o dinheiro arrecadado comprar brinquedos que foram doados para o Natal dos Filhos dos Bombeiros.

Na noite de avant première, o Corpo de Bombeiros iluminou com canhões de luz a fachada do extinto Cine Majestic; duas escadas Magirus fizeram um “V” na Rua Augusta, em frente ao cinema, e os carros passavam por baixo. São Paulo viveu uma noite de Hollywood, com glamour, bom gosto e elegância. Que hoje não mais existem no cinema, onde a moçada vai ao cinema de bermuda e chinelo de dedo. Críticos assistem os filmes em sessões/cabines que provocam controvérsias (uma turma diz que os convidados nem críticos ou repórteres são, outros dizem que se o jornal tal for, o meu não vai).

Ver o filme antecipadamente, hoje, é privilégio do fornecedor de DVDs piratas e dos camelôs que formam o centro de distribuição desse produto.

E o lucro deles nunca irá para financiar o tratamento gratuito de câncer de um doente carente ou a fisioterapia de uma criança com problemas de locomoção.

Muitos garantem que este lucro vai para o crime organizado...




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