Mauricio Kus
O SHOW DA NOITE CONTINUA ORFÃO SEM A PRESENÇA DE ABELARDO FIGUEIREDO


Por Mauricio Kus, 28/04/2010 às 10:21

Domingo fui assistir “O rei e eu”, espetáculo de Jorge Takla, uma superprodução musical, obediente ao original da Broadway produzido pelos músicos Richard Rogers e Oscar Hammerstein II, com base no romance de Margaret Land, “Ana e o Rei do Sião”, que já´teve três versões cinematográficas, a mais famosa e clássica com Yul Bryner, que representou o rei por duas décadas nos palcos da Broadway.

Agradável surpresa. Por acharmos eu, meu filho e nora, que minhas netinhas Bruna e Alessandra (4 e 5 anos) eram muito pequenas para enfrentar sentadinhas e quietinhas, um espetáculo de três horas, não as levamos ao Teatro Alfa. Assim que voltamos para casa, colocamos na TV o DVD do filme com Yul Bryner, para que elas assistissem. Fizemos um bolsa de apostas e os índices de desistência variavam de 5 a 40 minutos. Deu tudo errado, acumulou! Elas assistiram quietinhas e interessadas até o fim. Adoraram.

Vamos levá-las ao Teatro Alfa para ver “O rei e eu” ao vivo.

Enquanto assistia à peça, com todo aquele luxo, elegância, cenários, magníficos figurinos, elenco entrosado e cantores afinados, veio à minha mente uma comparação: Jorge Takla faz no palco de um grande teatro o que Abelardo Figueiredo fazia em palcos minúsculos de casas noturnas. Talvez conseqüência de encontrar na platéia minha amiga Helô Machado, que participara de um livro sobre a vida de Abelardo. Enquanto o público espera, com certeza, que Jorge Takla fará novos e ousados empreendimentos, os fãs dos shows de Abelardo Figueiredo se sentem órfãos, pois não apareceu no show business brasileiro um outro produtor com sua estirpe, arrojo e talento, para continuar sua saga nos pocket shows que fizeram a fama do Urso Branco, do Beco, do Palladium, onde se podia jantar, dançar e assistir ao show, como se São Paulo fosse uma extensão de Nova York ou Londres.

Quando de seu falecimento, os jornais publicaram que havia morrido o rei da noite. Eu, como muitos de seus amigos sabíamos que estava mal, mas fomos surpreendidos com a noticia. Estava dirigindo em direção ao meu escritório, quando ouvi a noticia pelo rádio. Desviei do caminho e fui levar meu abraço a Mônica Figueiredo no Hospital Sírio Libanês. Fiquei apenas alguns minutos, não consegui ficar ali, vendo aquele corpo inerte, no caixão em cima da mesa do necrotério do hospital. Sempre conheci Abelardo Figueiredo como um mosquitinho elétrico, sempre se movimentando, agitado, falando de seus projetos, espetáculos futuros, dirigindo ensaios e orientando seus comandados para preparar um show perfeito, merecedor dos aplausos que nunca faltaram às suas realizações artísticas, nos palcos ou na televisão.

Não queria ter como última impressão, sua figura inerte, preferindo guardar a lembrança de um ensaio com Rachel Welch, em que ela (sempre enchendo o saco de todo mundo com estrelismos sem causa), estava criando problemas e queria modificar a participação dos artistas nacionais contratados para aquele show. Abelardo interrompeu o ensaio e disse para a estrela: “Por favor, siga o roteiro do show, dance e cante conforme a música, senão suspendo o espetáculo”. E mesmo com casa totalmente vendida, chamou o empresário Waldomiro Saad para que ele explicasse à Miss Welch que não estava brincando. Ela obedeceu, entrou no conjunto e o show foi um sucesso.

O lendário Oscar Ornstein, durante 40 anos diretor artístico do Copacabana Palace (que veio a São Paulo especialmente para ver o show), foi um dos primeiros a ir aos bastidores, cumprimentar Abelardo e a grande estrela da noite. Rachel Welch ficou uma semana hospedada no Hotel Hilton, onde eu era relações públicas e ela incomodou mais que a segurança do Presidente Garrastazu Médici, que quando lá hospedado, espalhava seus homens por todas as dependências do hotel, influindo na rotina dos serviços do dia a dia. Tinha até dois seguranças na porta dos banheiros. Só faltava perguntarem para quem entrasse – “O que o senhor veio fazer aqui?”. Vamos recuar um pouco no tempo. Abelardo, nasceu em Niterói em 1931 e faleceu em São Paulo em 13 de fevereiro de 2009, aos 77 anos. Ao se mudar para São Paulo, fundou o Teatro de Alumínio com a atriz Nicete Bruno e produziu o espetáculo “Skindô”, nos moldes dos espetáculos de Las Vegas, revolucionando o show business brasileiro.

Foi quando o conheci, numa amizade que durou 40 anos. Nos anos 80, 90, quando eu organizava pelo menos uma vez por semana, uma pré estréia no cinema ou exibição privada em cabine, Abelardo Figueiredo sempre comparecia.. Adorava cinema. Quando não podia vir, ocupado com algum espetáculo ou viajando, Laurinha, sua fiel escudeira e esposa se fazia presente. Se tivesse nascido nos Estados Unidos, hoje sería nome de teatro, teria vários tributos organizados em sua homenagem, seria lembrado nos Prêmios Tony (O Oscar dos teatros americanos). Como viveu no Brasil - um país sem memória - a atual geração de jovens não o conhece e sua lembrança se perde nas brumas do tempo.

Como ser nome de teatro, se hoje os teatros tem nome de bancos, empresas e corporações que mantém suas atividades com injeções financeiras em troca do nome nas marquises?

Só para os jovens que estão lendo esta crônica: Abelardo Figueiredo, nos palcos e na televisão, lançou e trabalhou com uma infinidade de grande artistas da música e do teatro, como Elis Regina, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Wilson Simonal, Elizeth Cardoso, Maria Alcina, Pery Ribeiro, Fernanda Montenegro, Nicette Bruno, Beatriz Segal, Maysa e Mielle. Lançou como cantoras vedetes Rosemary e - acreditem - Suzana Vieira - com direito a cantar e dançar com pernas de fora num maillot de vedete, bem cavadinho.

As festas e comemorações do IV Centenário de São Paulo não podiam acontecer sem o expertise de Abelardo Figueiredo. Em janeiro de 1954 fazia parte da comissão organizadora dos festejos, coordenando os setores de música e balé, que teve cenários criados por artistas como Candido Portinari e Di Cavalcanti e assumiu também a direção do Ballet do IV Centenário.

Na televisão foi introdutor de grandes shows nas emissoras Tupi, Excelsior, Record e Bandeirantes. Trabalhou para a telinha durante 20 anos, realizando shows inesquecíveis como Noites de Gala, com Tom Jobim, Chico Anísio e Rubem Braga na equipe de música e texto. Estudou televisão e técnica e produção de espetáculos nos Estados Unidos, onde foi assistente de Jerome Robbins em “West Side Story”. Em 2008 lançou o livro O Show não pode parar, organizado por sua filha Mônica Figueiredo, com a jornalista Helô Machado.

Não deixa de ser um reconhecimento, mas como neste país sem história, pouco se lê, o show business brasileiro ainda deve a Abelardo Figueiredo um grande espetáculo em sua memória, o seu tributo...

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