Mauricio Kus
O ANO EM QUE GRANDES ESTRELAS DE HOLLYWOOD INVADIRAM SÃO PAULO


Por Mauricio Kus, 07/08/2009 às 10:33

1954, ano do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1º Festival Internacional de Cinema de São Paulo, organizado para comemorar a data.

O governo gastou 20 milhões de cruzeiros para organizar a festa, por muitos considerado um custo exagerado, mas a verdade é que o evento colocou São Paulo no mapa.

Hollywood se mudou para Praça Ramos de Azevedo, atrás do Teatro Municipal, onde havia um clube judaico, o Circulo Israelita, que até hoje ainda existe na Av. Angélica. Ali, no antigo Palácio Trocadero, hoje uma loja de eletro domésticos se instalaram a séde e secretáría do festival, local estratégico, inclusive pela proximidade do Cine Marrocos, onde foram exibidos os filmes oficiais da mostra.

Barbara Rush

Uma constelação de astros e estrelas invadiu São Paulo: Walter Pidgeon, Erich Von Stroheim, Jeannete McDonald, Gene Raymond, June Haver, Fred McMurray, Rhonda Fleming, Edward G.Robinson, Mervin Leroy, Glenn Ford, Errol Flynn, Jane Powell, Robert Cummings, Cuquita Carballo, Joan Fontaine, Ann Miller, Bárbara Rush e seu jovem marido, Jeffrey Hunter, que depois viveria o papel de Jesus em um filme épico sobre a história do Cristianismo. Jesus de olhos azuis deu muito que falar na época.

Durou uma semana o festival e as festas se sucediam a toda hora, com presença dos visitantes e alguns artistas brasileiros, principalmente os remanescentes da Cia.Cinematográfica Vera Cruz, que já começava a mostrar sintomas de declínio.

A maior festa foi oferecida pela Condessa Yolanda Penteado em sua Fazenda Empiryo, evento reservado para poucos, pois incluía estadia e a viagem se fez por trem. Durou dois dias.

Dezenas,centenas de atores brasileiros se queixavam de que estavam sendo discriminados e não recebiam convites para as exibições de gala. O que levou o critico Luiz Carlos Bresser Pereira, no finado jornal O Tempo, onde tinha uma coluna, a comentar:” já imaginaram? se fossem convidados todos artistas e técnicos franceses para as exibições do Festival de Cannes, não sobraria um lugar na platéia”.

Havia uma delegação brasileira convidada para todas as exibições e quem se dispusesse ir à secretaria do festival, declinando sua profissão, acabaria ganhando um convite, mas poucos resolveram tomar esta iniciativa.

Luiz Carlos Brasser é economista, tem uma brilhante carreira acadêmica, foi Ministro da Fazenda no Governo Sarney e militou muitos anos no Grupo Pão de Açúcar, mas não perde um cineminha.

Coisas divertidas aconteceram no festival que revelou um jovem diretor de 24 anos, Walter Hugo Khouri, que ali estreou seu primeiro filme, "Gigante de Pedra".

Os visitantes ficaram hospedados no Hotel Jaraguá, onde a imprensa fazia plantão em busca de entrevistas.

Francisco Gothilf, tinha um programa de rádio dedicado à comunidade israelita. O programa chamado “Mosaico” existe até hoje e é o mais longevo programa de radio e televisão do Brasil. Gothilf queria entrevistar Edward G.Robinson, ator sabidamente judeu e me chamou para ajudá-lo como intérprete, já que eu falava inglês. Quando explicamos a Robinson o que era o programa, ele, chamado na vida real Emmanuel Goldenberg, foi enfático. Falo em ydish mesmo e se quiserem chamo o Mervin Leroy, que ele também dá a entrevista em ydish.

Ambos deram a entrevista e Gothilf lavrou um tento com a comunidade judaica.

O mais engraçado é que Leroy ficou famoso por dirigir Quo Vadis, a maior apologia do nascimento do cristianismo feita por Hollywood e Robinson foi dirigido por LeRoy em "O pequeno César", fazendo o papel de um mafioso italiano. Inaugurou a fase dos gangsters durões, seguido por James Cagney e Humphrey Bogart.

Paulo Sá Pinto aproveitou o festival para inaugurar no cine Republica (3.000 lugares) as exibições em Cinemascope no Brasil, lançando "Como casar com um milionário", com Betty Grable, Marilyn Monroe e Laureen Bacall.

Para a geração de hoje, que assiste filmes numa sala de 200 lugares num Cinemark da vida, é impensável acreditar que num cinema de rua com 3.000 lugares houvesse fila de espera.

Num coquetel no Clube Harmonia, Errol Flynn tomou umas e muitas outras e, impecavelmente vestido, num terno de 3 mil dólares, rodopiou na beira da piscina e se projetou para dentro dágua, de copo na mão.

Quem esperava um festival “de arte” se desapontou: o filme inaugural foi "Musicas e lágrimas - The Glenn Miller Story" e o ponto alto foi o encanto e a graça de Audrey Hepburn em “A princeza e o plebeu”.

Mas houve compensações, como por exemplo, "O Salário do Medo” com Yves Montand e a estréia do sistema 3D com “Hondo", um filme medíocre com John Wayne.

Que oportunidades Caras e outras revistas de fofoca perderam por terem chegado depois..

Maurício Kus

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