Mauricio Kus
NELSON SARDELLI – NOSSO HOMEM EM LAS VEGAS


Por Mauricio Kus, 04/03/2010 às 0:1

NELSON SARDELLI – NOSSO HOMEM EM LAS VEGAS

Quando falam em Las Vegas e dos shows milionários de seus deslumbrantes cassinos, lembramos os nomes de ícones norte-americanos, como Frank Sinatra, Dean Martin, Liberace, Tony Bennet, Bing Crosby, Dionne Warwick e centenas de outros que brilham ou brilharam nos palcos americanos. No entanto, nenhum deles é campeão recordista em número de shows apresentados na capital mundial do jogo, nem circulou tanto pelo mundo com apresentação “one man show”, com intenso sucesso,

Ele conhece todos os bons clubes dos Estados Unidos e já se apresentou no Carnegie Hall, em Nova York, no Aslrodome, de Houston, no Palmer House e no Drake Hotel, em Chicago; em San Diego, Califórnia; Fort Lauderdale, em Miami, e mais, muito mais, na terra de Tio Sam, viajando costa leste à costa oeste, colhendo aplausos em todo lugar onde passou.

Seu passaporte, como profissional, tem carimbos para Austrália, Canadá, Londres, Irlanda, Bermuda, Nassau (Bahamas), Aruba, Porto Rico, México, Curaçao, Turquia, Hong Kong, Indonésia, Cingapura, Tailândia e, finalmente Itália, sua querida Itália. Como turista tem um só carimbo em seu passaporte: Brasil.

Sim, estamos falando de um artista brasileiro Nelson Sardelli, paulistano do bairro do Ipiranga, que em 1956 foi aos Estados Unidos tentar a sorte no cinema e realizar uma carreira de cantor. Ele conta como começou esta aventura.  Por uma brincadeira: “Eu trabalhava na General Motors, em São Caetano. Um colega, Roberto Pedroso, estava sendo mandado para os Estados Unidos, e eu de gozação, disse: Se você me mandar uma carta de chamada,eu vou”.Sim, estamos falando de um artista brasileiro Nelson Sardelli, paulistano do bairro do Ipiranga, que em 1956 foi aos Estados Unidos tentar a sorte no cinema e realizar uma carreira de cantor. Ele conta como começou esta aventura. Por uma brincadeira: “Eu trabalhava na General Motors, em São Caetano. Um colega, Roberto Pedroso, estava sendo mandado para os Estados Unidos, e eu de gozação, disse: Se você me mandar uma carta de chamada,eu vou”.

A carta de chamada veio e ele foi, falando um perfeito good morning, how are you? E só. Era tudo que sabia da língua de Shakespeare, quando embarcou para os States, com a cara e a coragem. Estava deterrminado a seguir carreira no cinema, sonhando em ser um ator famoso. Depois de muito ralar, conseguiu alguns papéis menores em filmes maiores, como “Os profissionais”, com Burt Lancaster, Robert Ryan e Claudia Cardinale:” Myra Brackenrige”, com Mae West e John Houston e “Fake out”, com Telly Savallas.

Aplicado e estudioso, conseguiu em poucos meses dominar o inglês e tentou a carreira de cantor.Afinal, naqueles tempos todo filho de italiano sonhava ser cantor e Sardelli chegou até a tomar aulas de bel canto com Benito Mariesca, mas concluiu que era muito difícil virar um Pavaroti das margens plácidas do Ipiranga, o que exigia muito estudo, sacrifício e despreendimento.

“Quando muito”, brincava, “em opera, quem não leva a coisa muito a sério (principalmente no Brasil) acaba segurando lança no fundo do palco pelo resto da vida”.

Preferiu partir para o popular, decorando o repertório de Frank Sinatra, Bing Crosby, Tony Bennet, Tito Schipa, Domenico Modugno, Carlos Gardel, Francisco Alves, Dick Farney, Amália Rodrigues, Pixinguinha e seu grande ídolo de juventude, Adoniran Barbosa. Sua carreira deslanchou no Estado de Michigan, onde namorou uma garota belíssima, que foi Miss Michigan. Esperando por ela num restaurante na cidade de Waterford, naquele estado, resolveu cantar no karaokê para fazer hora.

Agradou, encantou e quando terminou algumas canções,foi abordado pelo dono do local, chamado Louis Dormann que lhe ofereceu um contrato para entreter seus clientes, acompanhado ao piano por Irene Barderera, dona de vasto repertório que foi ensinando para o novo colega. Sardelli deu sorte, dizia que foi a mão de Deus que fez a fugaz namorada se atrasar e também fazer com que um conhecido agente fosse jantar lá alguns meses depois.

O agente o encaminhou em sua carreira, que culminou em Las Vegas, onde Sardelli fixou residência, conheceu e casou em outubro de 1965 com Fledia Fay,do Estado de Oklahoma e até hoje vivem casados e felizes, numa cidade onde, pela leis do Estado de Nevada, um divórcio pode ser conseguido em 24 horas e é visitada diariamente por milhares de casais em busca do fim oficial de seu casamento. Deste casamento resultaram três filhas. Venetia Carmela Antonia Elizabeta Fay, falecida aos 42 anos em outubro de 2001.

Giovanna Franciesca Maria Amélia Fay leciona na Universidade de NovaYork, dirige peças teatrais (off Broadway) e recebeu o troféu “Joe A Calloway Awards como melhor diretora da temporada. Pietra Domenica Isolina Graziella Fay se formou em cinematografia na Universidade de Las Vegas, Nevada, e se dedica a marketing e organização de eventos.

O casal Sardelli tem ainda uma neta Indrani Michaela Francesca Domenica Fledia Felice. Semi aposentado, seu nome é venerado em Las Vegas, onde atuou em praticamente todos os cassinos da cidade. Sua carreira no cinema terminou quando resolveu virar cantor e o sucesso só veio por acaso, quando deu uma virada em sua atuação artística, transformando-se em entertainer, montando um show solo de duas horas onde cantava, fazia malabarismos com um revolver (à moda dos cow boys dos filmes de bang bang). Com este show conquistou os Estados Unidos e o mundo, ficou rico e ganhou fama nos cinco continentes, menos no Brasil onde não pode se apresentar pois as piadas, músicas e gags são todas em inglês.

Numa de suas visitas ao Brasil, para ver a família e amigos, fez uma rápida aparição no show de Flavio Cavalcanti, atendendo a um pedido do falecido Marcos Lazaro (o maior empresário de cantores que o Brasil já teve, revelando Roberto Carlos, entre outros). Conheci Sardelli em Londres, nos anos 70, quando retornava de uma viagem à Escócia, à convite da Grant’s Whisky, que fez uma promoção conjunta com a British Caledonian (empresa aérea britânica,da qual eu era diretor de relações públicas no Brasil). Liderei um grupo de jornalistas e formadores de opinião e ficamos três dias em Duftown, norte da Escócia, sede da distilaria.

Na volta,viemos de ônibus de Glasgow a Londres, onde ficamos três dias antes de tomar o avião de volta ao Brasil. Entre nossos convidados estavam Fernando de Barros, Alik Kostakis,Raul Cortez, Davi Cardoso.

Passeando pelo West End deparamos com um cartaz na famosa casa de shows, hoje desativada, The Talk of the Town, anunciando o show man italo-americano Nelson Sardelli.

Davi Cardoso alertouj que este cara é brasileiro, eu o vi em Nova York, o cara é ótimo. Resolvemos assistir o show e foi legal. Fomos visitá-lo no camarim e ele convidou todo mundo para tomar um whisky no apartamento que alugou a uma quadra dali. .Saímos as 9 da manhã, depois de 3 litros de whisky e uma chorosa hora da saudade do Brasil.

Trocamos cartões e meses depois comecei a receber cartões postais da Austrália, Cingapura, Hong Kong,Tóquio, Tailândia, Atlantic City, Bahamas, Indonésia, Canadá, e até de sua querida Itália. Eram relatos de turnês pelo mundo. Com o advento da internet, consolidamos uma amizade que já dura 40 anos, apesar de uma divergência muito séria: ele é republicano e eu, se morasse nos Estados Unidos. votaria com os democratas.

Trocamos e-mails quase diariamente e ele manda saborosas histórias (muitas de humor judaico).

Ligado a atividades filantrópicas, não recusa a fazer shows para angariar fundos para entidades como a Associação de Combate ao Diabetes Juvenil, Sociedade de Ajuda aos menores mentalmente incapacitados, além de ajudar vários hospitais e asilos, inclusive o Hospital São Judas, fundado por Dannt Thomas, que atuou como ator em vários musicais da fase áurea da Metro.Este hospital atende gratuitamente pessoas carentes. O pai de Sardelli foi primeiro sargento na Guarda Civil de São Paulo (depois desativada para a formação da atual Policia Militar Estadual),

Quando foi fazer um show beneficente em Biloxi, Mississipi, em 1963, o xerife local colocou um carro da policia para seu deslocamento na cidade. Ao contar que era filho de policial, ganhou de presente, um badge (distintivo de pano que os policiais levam costurado na manga da camisa), um revolver de ar comprimido, um cinturão de balas e cartucheira de cowboy.

Duas coisas aconteceram a partir dái: treinou e introduziu no show os malabarismos com o gatilho do revolver, saque rápido, como o público se acostumou a ver nos westerns, famosos na época.

Depois, resolveu colecionar itens policiais e hoje é dono de uma coleção de mais de 5.000 cartucheiras, 400 badges, dos Estados Unidos e da maioria das cidades e paises que visitou pelo mundo, além de quépis, bonés e algemas.

Hoje, semi aposentado, faz vários shows mensais em beneficio de instituições necessitadas de fundos, porém faz uma exigência. Tem aversão à moda atual de música eletrônica acompanhando o show ou “bandas” com três ou quatro figuras para economizar no cachê. O último espetáculo em que participou foi acompanhado por uma orquestra completa, regida pelo maestro Vince Falcone, que acompanhou Frank Sinatra por mais de dez anos. Era em beneficio das vitimas de um terremoto na Itália.

Na Copa do Mundo, Sardelli reune os brasileiros que moram em Las Vegas, convida-os para assistir ao jogos em sua home theatre e desfralda a bandeira brasileira na entrada de sua casa.

Nelson Sardelli, um brasileiro em Las Vegas, que quando o chamam de italo-americano desdenha e reclama: Isto é coisa dos gringos que inventam afro-americano, hispano-americano, etc.

“Eu sou é brasileiro mesmo”, diz com orgulho, batendo com o punho no peito.

mkus@uol.com.br

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