Mauricio Kus
QUEM MATOU O CINEMA DE RUA?


Por Mauricio Kus, 07/11/2009 às 13:53

Esta é uma charada que nem Sherlock Holmes conseguiria decifrar. São tantas as causas que acabaram com o cinema de rua, que um cirurgião diria que o paciente morreu de infecção generalizada.

Há os que pregam que o carro acabou com o habito de ir ao cinema com mais freqüência.  Quando Juscelino Kubischek instalou a indústria automobilística e os primeiros Volkswagen e DKW começaram a aparecer nas garages da classe média, as pessoas descobriram outras alternativas para o entretenimento, além do cinema. As famílias passaram a admirar os encantos das cidades da Grande São Paulo, faziam passeios de carro, almoçavam fora, visitavam mais os parentes e amigos (nem que fosse para exibir o carro novo) e as bilheterias foram definhando.

Outros afirmavam que a televisão matou o cinema, principalmente o cinema nacional.  Exibindo filmes dublados, conquistava uma grande maioria de não alfabetizados ou semi-alfabetizados que viam dificuldade em acompanhar as legendas, enquanto os diálogos se desenvolviam.  Porém, o maior prejuízo que a televisão trouxe ao cinema, foi justamente para o filme brasileiro. Contratando os grandes astros do cinema e lançando programas de shows e variedades com o mesmo desenvolvimento humorístico das tradicionais chanchadas do cinema nacional da época, a televisão fez os cinemeiros migrarem para a televisão, deixando de ir ao cinema.  A chanchada acabou e a Atlantida, do produtor e exibidor Luiz Severiano Ribeiro, submergiu naquele chafariz que era a sua marca registrada.

Mazzaroppi resistiu com firmeza ao canto da sereia da televisão e continuou produzindo seus próprios filmes, que eram sucesso de bilheteria.  Todo dia 25 de janeiro lançava o filme do ano e recusava convites para entrevistas de televisão nos talk shows da época. Dizia: “Porque vou dar de graça, o que o público paga para ver nos cinemas?”

Morreu milionário, seus herdeiros delapidaram sua fortuna, seu acervo de filmes sumiu, mas permanece como um ícone do cinema brasileiro.  Se o México tem Cantinflas; a Itália, Totó; a França Jacques Tati; a Inglaterra, Mr Beans, cultuados pelo público e pela crítica, porque nossos críticos são tão esnobes? Nunca reconheceram e não reconhecem até hoje, o valor de Mazzaroppi, negando o destaque merecido no cinema nacional.  Será porque fazia filmes para as classes D e E, as mesmas cobiçadas hoje por dez entre dez proprietários de supermercados?

Luiz Severiano Ribeiro fez uma adaptação do bordão do mercado americano “Cinema é a melhor diversão”, mas não colou, as bilheterias rodavam ladeira abaixo e os cinemas de rua, nos bairros, iam fechando.

Outro argumento poderoso que matou os cinemas de rua foi a segurança.  As pessoas começaram a ficar com medo de sair à rua, à noite.   Mesmo indo de carro, havia o problema de estacionamento, que os shoppings resolveram, abrigando cinema, espectador e carro sob o mesmo teto.. Tradução, mais cinemas de rua fechando.

Depois vieram, a especulação imobiliária, a pirataria, as igrejas evangélicas e a fase Cinemark, com cinemas tipo estádio, que devolveram a alegria de ir ao cinema. Introduziu-se a pipoca combo, coca cola, lanchonete, poltronas confortáveis, ar condicionado, projeção e som perfeitos e outras benesses que fizeram o cinema voltar a ser programa, inclusive poltronas numeradas e compra de ingressos pela internet, sem fila.

O público encolheu e os preços subiram, já que as 206 salas hoje existentes, suprem um déficit de aproximadamente 1000 cinemas de rua existentes na Grande São Paulo.

O cinema nunca vai morrer.  Seus entornos de comercialização, marketing e merchandising evoluem constantemente, seja exibição em TV aberta, TV paga, licenciamento de produtos de consumo, DVDs ou CDs.

Porém, para movimentar todo este universo de rentabilidade, tem que haver o filme.  Sem o set de filmagem, sem produzir um filme, nada disto acontece, nem que surjam outras mil formas de exibição e comercialização.

Por isto, uma boa história, um roteiro bem feito, um bom diretor e um elenco de talento ainda são a melhor diversão, enfatizando a frase espalhada por Luiz Severiano Ribeiro.

Os cinemas de rua tinham particularidades interessantes.  O  Brás, como era um bairro de maior densidade demográfica, tinha maior número de salas.. O Universo e o Piratininga tinham acima de 3.000 lugares cada, e como ar condicionado era um luxo, o Universo tinha o teto retrátil que abria nas noites de calor. Além destes dois, o Brás contabilizava o Roxy e o Colombo. Este último terminou de forma trágica. Numa matinèe de domingo, durante um combate aéreo na tela, alguém gritou “Fogo!”;  O cinema tinha 500 pessoas que se levantaram em pânico, houve pisoteamentos, quase 300 feridos e mais de 100 mortos. Não tinha fogo nenhum, só tristeza, lágrimas e uma cidade traumatizada.

No bairro da Liberdade existiam três cinemas, Niterói, da Toei; o Nippon, da Shoshiku e o Nikatsu que exibiam as mais recentes produções japonesas dos estúdios que levavam o nome do cinema.

O cinema poeira ficava no centro velho de São Paulo.  Eram o Alhambra, Cairo, São Bento, Santa Helena e Pedro II, que exibiam filmes em programa duplo desde as 10 horas da manhã. Contrariamente aos outros cinemas, suas piores bilheterias eram no sábado e domingo, quando os escritórios e o comércio fechavam.

Seus freqüentadores eram office boys, oficiais de justiça, vendedores, pessoal dos escritórios que davam uma esticadinha no horário do almoço, e colegiais de uniforme e pasta de livros na mão, que cabulavam a aula.

 Passavam filmes de muita ação, cuja duração não passava de 80-minutos, em sua maioria westerns estrelados por Tom Mix, Gene Autry, Roy Rogers, Hopalong Cassidy e os grandes astros Joel McCrea e Randolph Scott.  Muitos juravam que os dois machões dos bang bang eram amantes, mas naquele tempo o segredo de ser gay era mais bem guardado que a fórmula da Coca Cola.

Alguns cinemas de rua permanecem, mas adotaram nomes de empresas patrocinadoras para agüentar os elevados alugueis ou preservar o espaço da cobiça das incorporadoras que adorariam vê-los transformados em espigões.

São o Belas Artes HSBC, UOL, IG.

Outros foram transformados em teatro, como o Gazeta, o Bijou, a Sala São Pedro e o Teatro Augusta.

O Cine Astor,- que bom - hoje é a mega Livraria Cultura, que tem até um teatro funcionando regularmente, em meio a milhres de livros.

Dois cinemas tradicionais, o Windsor e o Jussara, depois D.José, foram forçados a adotar uma programação “adulta” para não fechar, mas há comentários no mercado, que seus responsáveis pretendem uma revitalização das salas, voltando à programaçaõ normal, como sua contribuição para a rehabilitação da velha Broadway paulistana.

O Cine Metro, o primeiro a ter ar condicionado do Brasil, hoje é a sede de uma igreja evangélica que ocupa o vizinho cine Oásis como estúdio para a elaboração e gravação dos programas.

Em 1942, numa época em que os filmes ficavam de duas três semanas no máximo em exibição, o cine Trianon, parte do terreno onde hoje é o Belas Artes HSBC ficou um ano em cartaz com o filme “Sempre em meu coração”, estrelado por Kay Francis, cantora de muito sucesso nos Estados Unidos, onde brilhava no teatro, rádio e cinema. Fez mais de 50 filmes, mas o sucesso brasileiro foi  um acontecimento inesperado para os estúdios de Hollywood.

O cine Arlequim funcionou um temo como auditório da Rede Bandeirantes, mas hoje é uma igreja evangélica. A maioria dos cinemas de rua foram demolidos e hoje não se reconhece sua localização exata, cercados de altos edifícios de escritório ou residenciais. 

Alguns como o Rio Branco, que tinha 70 mms e exibia os blockbusters da época,  viraram estacionamento.

O Marrocos, o mais luxuoso cinema de São Paulo, sede do Festival Internacional de Cinema do IV Centenário de São Paulo, exigia uso de gravata de seus espectadores.  Lembro que um dos porteiros “alugava” as gravatas para quem estivesse só de paletó, sem este acessório e as mantinha guardadas na chapelaria. Sim, o Marrocos tinha chapelaria. Seu proprietário Lucydio Ceravolo, foi um dos útimos gentlemen de sua época.

Tivemos dois cinemas especiais: o Cinerama que exiia o filme em três faixas, dando uma impressão de terceira dimensão e o Cinespacial, um cinema circular com três telas exibindo o mesmo filme, e com visão boa de qualquer lugar.  Não vingaram.

O Nacional, na Lapa, depois virou casa de shows e mantinha nos andares superiores do prédio os escritórios da Cia.Cinematográfica Serrador.

Como esquecer o meu primeiro cinema?     

 Bons tempos aqueles, em que eu, aos doze anos de idade, saía do Cine Lux, dez e meia da noite, andava o pé pela Rua José Paulino e atravessava (incólume) o que hoje é a cracolandia e chegava em casa, tratando de dormir logo, pois no dia seguinte tinha aula cedinho da manhã...

mkus@uol.com.br



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