Mauricio Kus
PAÍS SEM HISTÓRIA ABRE MUITOS ESTACIONAMENTOS OU TEM PRÉDIOS ABANDONADOS.


Por Mauricio Kus, 24/11/2009 às 16:3

Um país como o Brasil que não tem história, não cultua seu heróis, acaba sendo um país de pátios de estacionamento ou prédios antigos, alguns de alto valor histórico, inteiramente abandonados ou em ruínas. Cultura, então, nem pensar.

Tal reflexão vem à baila numa leitura rápida dos jornais hoje de manhã.  A Folha de São Paulo informa que a última casa em que Charles Chaplin, diretor de filmes como “O grande ditador” e “O Garoto”, viveu Suíça, será transformado em museu, conforme informou um de seus onze filhos, Michael Chaplin.  O orçamento inicial é de US$50 milhões, previsão de abertura para o público em 2011.

O Diário do Comércio fala do fechamento do Hotel Ca Doro, um dos mais tradicionais e sofisticados hotéis da capital, quase centenário, administrado nos moldes das grandes cadeias européias, como a Rede Excelsior, na Itália, ou Claridge, na Inglaterra.

Junta-se ao Othon, Hollyday Inn, Caesar Park e Hilton, que fecharam no centro, e viraram prédios fantasmas, “hospedaria” de sem tetos, viciados e alcoólatras, que fazem ponto debaixo de seus desertos tapumes.

Não fecharam por má gestão, mas engolfados pela desídia das autoridades, que deixaram o centro virar o paraíso do lumperat, degradação ambiental e ponto de circulação de desocupados e marginais, que só faziam assustar os hospedes daquele hotel, que migraram para estabelecimentos mais seguros e mais bem localizados.

Como dizia o patriarca dos Guzzoni, família proprietária do Ca Doro: “Quem, faz os hotéis são os hospedes. Quem fecha os hotéis é a falta de hospedes”.

O Ca Doro tinha um restaurante clássico (era obrigatório gravata), com uma comida especial, na maioria com receitas caseiras trazidas por chefs escolhidos a dedo na Itália. Seu bolito – um prato com uma grande variedade de carnes bovina e suína -‘ trazido à mesa dentro de uma estufa especialmente desenhada para este serviço, era a grande atração dos almoços de domingo.

Minha esposa adorava o bolito e íamos almoçar aos domingos, no Ca Doro, com uma certa freqüência.  A estufa era destampada  em frente à mesa, o cliente escolhia os pedaços de carne cozidos,  que eram cortados e, sua presemã, e servidos sempre pelo mesmo maitre, o mais antigo da casa.

Felizmente, o Fazano levou o bolito, a estufa e o maitre para seu restaurante e a tradição do bolito está  se mantendo.

Outro artigo fala do último apartamento monde moraram duas grandes figuras de cultura brasileira: o escritor Monteiro Lobato e o pintor Di Cavalcanti.

Di Cavalcanti, carioca, gostava muito de São Paulo, se encantou aqui com o Edifício Esther, considerado o primeiro prédio moderno do país. Fica na Praça da Republica, esquina da Rua 7 de abril e ali, no último andar morou Di Cavalcanti nos anos 40.  Hoje é o escritório de uma advogada, que quando o comprou encontrou uma desolação só,   Vidros quebrados, paredes manchadas,,muita sujeira, tacos soltos.

Ela declarou ao Diário do Comércio: “Hoje o lugar faz juz à memória de Di. É gostoso, tem um clima tão harmonioso. Alguma energia a gente sente no ar.”

Quando Di morou no Edifício Esther, no sub solo da Rua 7 
de Abrill exisitia a legendária Boite Oásis, freqüentada pelos ricaços da cidade e por artistas e intelectuais.  Ali estreou Maysa em São Paulo. Seus pais, o casal Monjardim, tinham mesa cativa na Boite Oásis.  Lá foi o berço do Masp, pois seu mentor o jornalista Assis Chateaubriand era um dos freqüentadores mais assíduos do lugar.  Chamava-se o Clubinho e o poeta Paulo Bonfim garante que a Boite Oásis foi sua primeira sede.

Depois foi para o segundo andar  do prédio  dos Diários Associados e, finalmente se instalou no vão livre da Av. Paulista.

O Edifício Esther, felizmente, não vai se transformar em estacionamento, pois é tombado pelo Condephaat, pelo seu valor histórico.  Por dentro (obra dos moradores) está um brinco, mas por fora está um horror, como dizem os proprietários.

É que há um decreto da prefeitura tornou o prédio de utilidade pública e agora os moradores estão na corda bamba: não sabem se ficam ou se saem e em que condições.

O apartamento em que Monteiro Lobato morou e morreu, em julho de 1948, continúa do jeito que ele deixou, mas 60 anos de abandono transformou tudo em ruínas e um depósito de pó, detritos e mau cheiro.

É na Barão de Itapetininga, no número 93, Prédio Jaraguá. No térreo ficava a Livraria Brasiliense de Caio Prado Jr, então proprietário do prédio que ofereceu a moradia para o escritor do Jeca Tatu.

Existem mais casos de abandono de edifícios, casas ou apartamentos com valor histórico, que se perderam em meio à indiferença dos poderes públicos, especulação imobiliária ou descaso pela arte e cultura.

Exemplo típico é o antigo Palácio Trocadero, que já foi sede do clube judaica Circulo Israelita de São Paulo. . Situado na Praça Ramos de Azevedo, nos fundos do Teatro Municipal, tinha, de um lado a sede da Votorantin (que já foi um luxuoso hotel) e do outro lado, na Rua Conselheiro Crispiniano, o prédio do Cine Marrocos.  

Foi justamente escolhido por isto, para ser a sede do I Festival Internacional de Cinema, comemorativo do 4º Centenário da cidade de São Paulo, em 1954.

Grandes astros do cinema da época, como Walter Pidgeon, Jeannete McDonald, Fred McMurray, Edward G. Robinson, Ann Miller, Jane Powell, Joan Fontaine, davam suas entrevistas no Palácio Trocadero, depois iam a pé até o Marrocos para apresentar os filmes do festival.

O clube era freqüentado por um grupo de sócios que se dedicavam ao carteado, durante as noites da semana, tardes de sábados e domingos.

Realizava  atividades culturais à noite.:    Ali assisti um monolgo do grande Procópio Ferreira, “Esta noite choveu prata”, e vários filmes clássicos exibidos em 16 mms, no salão nobre do clube, que era também alugado para bar mitzvás, casamentos e mantinha as domingueiras para a garotada, filhos dos sócios dançar os ritmos da época.

Como o salão ficava desocupado durante a semana, a diretoria bolou uma forma de fazer receita, dentro de um plano cultural.

Al´se estabeleceu a Professora Maria Olenewa, com sua escola de ballet, de onde saíram Eva Wilma (depois a grande estrela da televisão que é hoje) e o Ballet do IV Centenário.

O Maestro Leon Kaniefsky usou o salão como local de ensaios para a Orquestra Sinfornica Municipal num tempo em que o Teatro Municipal estava em reformas. Procópio Ferreira, com sua companhia teatral, ensaiou ali uma peça que ia para o Teatro Santana, quase em frente, mas cujo palco não  pôde ser usado para ensaios.,  pois os cenários da revista em cartaz, não podiam ser montados e desmonstados diariamente. No elenco Abel Pêra e Dinorah Marzulo, que levavam para os ensaios sua filha pequena, hoje a grande Marilia Pêra.

Nada disso foi levado em conta quando uma grande imobiliária botou olho gordo no terreno.

O Palácio Trocadero  foi derrubado, o clube instado a se mudar para um prédio na Av. Angélica.  Onde existiu o Palácio Trocadero, construíram uma loja de eletro-domésticos.

A residência do velho Conde Francisco Mattarazzo, na Av. Paulista, foi desapropriado pela insana fobia popularesca da Prefeita Erundina e seus muros e parte do prédio demolidos a picareta. Iria ser o Museu do Trabalhador, hoje é imenso pátio de estacionamento, caro e mal conservado, uma nodoa na avenida mais famosa de São Paulo.

Na falta de monumentos à cultura ou as artes (onde está hoje o monumento a Ramos de Azevedo, que existia na Av.Tiradentes?) quem se habilita a fazer um monumento para o automóvel, a grande prioridade dos prefeitos brasileiros?.

O carro é fonte de renda também:Tente estacionar em lugar proibido, fazer ultrapassagens pela direita ou varar o sinal vermelho, para ver como vai doer no  seu bolso....

 

mkus@uol.com.br

 



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