Mauricio Kus
HUGO SCHLESINGER GOSTAVA DE CONSTRUIR CINEMAS E ESCREVER LIVROS


Por Mauricio Kus, 20/09/2009 às 15:28

No inicio dos anos 60 fui convidado a visitar uma pequena distribuidora especializada em importar produções européias, em sua maioria, filmes de arte, que as grandes distribuidoras americanas não tinham interesse econômico/financeiro em exibir.

Ali tive o prazer de conhecer um casal maravilhoso: Hugo e Janina Schlesinger.

Ele, tranquilo, de fala mansa, expunha em voz baixa os valores dos filmes que estavam me entregando para cuidar da promoção e divulgação do lançamento nos cinemas.

Ela, mais agitada, cuidava da parte administrativa e financeira da empresa. Trazia tatuado no braço um número, cruel invenção nazista para identificar os prisioneiros judeus dos campos de concentração e derrubar sua moral e auto estima.

Eram judeus, como eu, e após o fim da guerra, não encontraram ambiente para viver na Polônia. Emigraram para o Brasil onde recomeçaram a vida.

Sua distribuidora tenha problemas para lançar seus filmes, pois as grandes redes não arriscavam exibir filmes de arte, além do que os cinemas da época, todos de rua, variavam, o menor, de 500 lugares a 4.000 os três maiores (Republica, Universo e Piratininga). Não havia casas pequenas para o pequeno número de cinéfilos interessados em suas produções.

Hugo resolveu então construir cinemas. Procurava terrenos pequenos, no entorno da Cinelandia e construiu – não há registros – por volta de dez casas de espetáculos que fizeram a alegria da intelectualizada turma que gostava dos filmes que os exibidores chamavam de “filme cabeça”.

O avassalador avanço dos shoppings, dotados de cinemas tipo estádio, começaram a tornar obsoletos os cinemas de rua, que se transformaram em estacionamento, demolidos para construção de grandes torres residenciais ou comerciais e, outros em igreja evangélica.

Dos cinemas de Schlesinger, creio que sobram dois hoje, transformados em teatros, o Augusta e o Bijou.

Hugo escrevia livros na Polônia, em polonês, e retornou à literatura, em português.

No começo escreveu livros sobre economia e negócios, com títulos, como “Geografia industrial do Brasil” e “Pequeno dicionário do comércio exterior”. Depois – era um grande pensador – partiu para ensaios sobre religião, cristianismo, judaísmo, união fraterna entre as duas religiões e em conjunto com Janina, descrição dos preceitos judaicos de Rosh Hashaná e Yon Kipur.

Escreveu mais de 20 livros, alguns em parceria com o Padre Humberto Porto, capelão do Colégio Sion. É um dos fundadores, no Brasil, da Fraternidade Cristão Judaica, instituição que nasceu na Europa logo após o fim de 2ª Guerra Mundial. Já existiam, anteriormente, na Europa, iniciativas que tentavam aproximar cristãos e judeus, separados historicamente e socialmente, desde o triunfo de Constantino, na Roma dos anos 300.

Fundada em 1961, no Colégio Mackensie, a instituição depois se estendeu ao Rio de Janeiro, com o Rabino Henrique Lemle, o bispo Dom Castro Pinto, o pastor Anselmo Chaves e as irmãs de Sion.

Grande frasista, Hugo Schlesinger deixou belos ensinamentos. Destacamos algumas, entre as centenas que cunhou em seus livros e escritos.

“Só com respeito pode-se exigir respeito. É uma regra sem exceções”; A mentirua é uma arma perigosa. Pode, facilmente, machucar aquele que a usa; A vingança nunca solucionou problemas. Somente abre novas feridas e causa novas tristezas”; Se olharmos mais para cima e menos para baixo, a nossa vida parecerá mais azul e será mais fácil; O maior fracasso é não acreditar em nossa própria capacidade; Quem não sonha com os olhos abertos, não vê as belezas do universo”; “Quem sabe renunciar, vive melhor” e “A melhor proteção contra nossa tristeza é querer ser feliz”.

Hugo Schlesinger não podia ficar imune ao cinema, e como diretor, realizou dois documentários versando sobre o esporte. Em 1971, juntou-se à euforia nacional pela conquista da Copa de 70 e filmou “Parabéns aos Gigantes da Copa” e em 1975 realizou “Esse maravilhoso mundo dos esportes”, focalizando várias modalidades esportivas.

Era religiosa e freqüentava a CIP- Congregação Israelita Paulista, principalmente nos Shabats e nas Grandes Festas. Ele e Janina levavam seu neto Michel, que desde cedo mostrou sua vocaçãop religiosa. Michel Schlesinger se formou bacharel em direito na Universidade de São Paulo, mas não seguiu o caminho da lei dos homens no direito, preferindo pregar a lei de Deus nas prédicas da sinagoga.

Acompanhou o legado do avô no amor pelo judaísmo e pelas normas éticas e humanas de sua religião, além da fraternidade cristã-judaica. Como herança de seu avô, continua membro do International Council of Christian and Jews.

Recebeu ordenação rabínica diante de um Bet Din (Tribunal Rabínico) em Jerusalém, tendo sido concedido a ele o titulo de mestrado em Talmud e Halachá.

Hoje, Michel é rabino na CIP.

mkus@uol.com.br

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