Mauricio Kus
LYBA FRIDMAN, UMA JORNALISTA


Por Mauricio Kus, 28/09/2010 às 10:18

O mês de setembro marcou dois episódios importantes envolvendo a figura de Lyba Fridman, uma corajosa, valente e competente jornalista que escrevia sobre celebridades, gente de rádio, cinema e televisão, sem o frou frou comum à maioria dos jornalistas que hoje atuam nesta área.

Pioneira no jornalismo televisivo, vinha do rádio, onde foi figura de proa na redação da “Radiolandia”, e por vários anos assinou reportagens sobre televisão, teatro e cinema, sem se envolver em relatar escândalos, casamentos de ocasião, namorados de plantão, férias em recantos paradisíacos, casas de famosos, ou outras pautas fúteis que povoam as revistas de celebridades de hoje.

No dia 15 de setembro de 2003, Lyba Fridman falecia, vitima de um câncer.  Morreu com dignidade e discrição como sempre viveu.

Inclusive os amigos só vieram a saber alguns das depois, pois faleceu cercada de seu único filho e familiares, somente.

 Nunca carteirou para entrar em lugar nenhum, nunca se fez notar como personalidade da imprensa, sempre trabalhou na sombra, levantando grandes histórias e revelando assuntos de interesse para o leitor, sem fofocas, nem insinuações ou exposição intrometida na vida alheia, respeitando a privacidade pessoal dos entrevistados.

Outro episódio de setembro,foi a festa dos 60 anos da televisão, realizada no dia 18.  Quando foram relacionadas as personalidades que participaram ativamente da história da televisão brasileira, que já se foram  - como diz minha netinha sobre sua avó, Sarinha, minha esposa,

“viraram uma estrelinha no céu” - o nome de Lyba Fridman foi esquecido, mesmo sendo ela (ao lado de Ayrton Rodrigues) a primeira repórter a focar a antiga TV3- Televisão Tupi, acompanhando seus passos e atividades muito antes de sua imagem entrar no ar, mostrando em várias reportagens os preparativos para trazer ao Brasil aquele maravilhoso invento que já funcionava nos Estados Unidos, e em alguns paises europeus e no Japão.




Lyba Fridman foi uma excelente repórter, amiga e companheira dos colegas, verdadeira nas matérias e coerente com suas convicções éticas, o que lhe causou vários desafetos em face de sua conduta irredutível na defesa de seus pensamentos ou pontos de vista.

Lyba Fridman, uma repórter, foi das primeiras pessoas a prestar depoimento para o Museu Virtual da Televisão Brasileira, que Vida Alves ainda está tentando concretizar, para que as gerações atuais e futuras saibam como foi escrita a história do pioneirismo da televisão brasileira.

Um resumo de seu depoimento feito em 23 de outubro de 1998, define bem a sua trajetória no jornalismo brasileiro.

Lyba Fridman nasceu em 21 de outubro de 1926, em uma pequena cidade da Polônia, filha de Saul Malamud e Sara Fridman.  O pai era romeno e a mãe polonesa.  Eram comunistas e judeus.  Com isso tiveram dificuldades, perseguições e optaram pela vinda à “América   

Lyba era pouco mais que um bebê quando chegou ao Brasil. Foi ela que, aprendendo a falar, foi ensinando português à mãe que tinha formação universitária, mas que tinha que trabalhar muito para manter-se e à filha nos primeiros tempos, pois estava sozinha na cidade de Santos. O pai veio depois para o Brasil e logo se separou de Sara, a esposa.  Mas mesmo no Brasil, Sara ligou-se à Aliança Nacional Libertadora, que era dirigida por Luiz Carlos Prestes, principal líder comunista do Brasil. Sara usava o codinome de Sofia.  Um dia Sofia foi procurada pela policia. Mas, já prevendo a prisão, ela fugiu com a filha Lyba para o Uruguai, de onde voltou tempos depois.  Essas dificuldades fizeram com que Lyba não pudesse obter formação regular.  Foi uma autodidata, mas gostava tanto de ler, que bem jovem tornou-se uma garota muito culta e inteligente.  Começou a escrever e mais tardo tornou-se jornalista.  Muito jovem,foi operária, bordadeira de máquina industrial.  Nas horas vagas, estudava e aprendeu datilografia, o que lhe foi útil quando aos 20 anos, saiu de casa e veio para a capital paulista.  Pensou em ser médica, após concluir o curso de madureza.  Chegou a entrar, mas desistiu ao ver umas “coisinhas” dentro de uns vasos.  Eram pedaços do corpo humano. Desistiu de tudo e resolveu ser jornalista.  Ligou-se a um grupo de jovens judeus e ali colaborou para a feitura da revista “Reflexo. Foi o começo.  Gostava também de cinema, freqüentava o Clubinho (clube de cinema no prédio dos Diarios Associados, na Rua 7 de Abril), quando conheceu Silas Roberg, com quem veio a se casar, e teve um filho. Silas trabalhava no TV Tupi, era um grande roteirista e diretor de programas, mas faleceu prematuramente, após longa enfermidade.

Viúva, Lyba se dedicou intensamente ao jornalismo, sendo uma das primeiras mulheres repórteres brasileiras, já que naquele tempo as redações eram totalmente dominadas pelos homens.

Especializou-se em televisão, trabalhando no jornal “Ultima Hora”,de Samuel Wainer, “O Tempo”, “Diário da Noite”.  Foi para a revista “Radiolandia”, onde ficou responsável pelo caderno de televisão.

Seu trabalho era estar nas emissoras da época, que eram a TV Tupi, TV Paulista e TV Record e escrever sobre os acontecimentos.  Com isto, foi aos poucos, se inteirando de tudo o que acontecei na televisão, criando amizade e empatia com todos os profissionais, não só os artistas, mas também toda a turma da técnica, por detrás das câmaras.

Da “Radiolandia” passou a escrever para a Revista “7 Dias naTV”, ao lado de Roberto de Almeida Rodrigues.

Foi também para a “Revista do Rádio”, e depois para o jornal “Shopping News”, onde ficou por dez anos, sempre fazendo uma coluna e critica televisiva também.  Trabalhou ainda na revista “O Cruzeiro”, e na TV Tupi, na TV Bandeirantes, na TV Manchete, jornal “A Gazeta” e no “Diário Popular”.  Na verdade, chegou a ter seis empregos simultaneamente.

Tinha muitas obrigações, pois havia se divorciado do Silas Roberg, e tinha um filho para criar.  Mas tarde foi trabalhar no SESI, ao lado de Alda Marco Antonio, Secretária do Menor. Lyba gostava muito dela.  Esse acúmulo de empregos acontecia porque, segundo ela, sempre ganhou pouco em cada lugar, pois quase sempre atuou como freelancer.

Depois, afastada do jornalismo, Lyba Fridman queria preparar um livro sobre televisão, após a experiência de quarenta anos de sua vida dentro das emissoras de TV, junto a todas as pessoas que trabalhavam na indústria televisiva.   Quotidianamente analisava as mudanças havidas nesse veiculo que modificou o século, as pessoas, seus costumes, seus hábitos.  Pena que o tempo foi curto para que Lyba colocasse no prelo sua visão da história da televisão brasileira.

Vamos corrigir a programação da comemoração dos 60 anos da televisão brasileira – dizem que o roteiro foi muito mal alinhavado por um dos mais experientes e antigos profissionais da televisão, Nilton Travesso – e resgatar a omissão havida naquela noite, deixando aqui uma lágrima de saudade por Lyba Fridman, uma jornalista.

 

mkus@uol.com.br

 



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