Mauricio Kus
MEU NOME É TAUFIK JACOB. MAS PODEM ME CHAMAR DIONISIO AZEVEDO


Por Mauricio Kus, 13/01/2011 às 15:0

Em 6 de outubro de 1973, a população de Israel se preparava para as orações do Yon Kipur, a data religiosa sagrada das hebreus, quando jejuavam e ficavam em orações e reflexões durante 24 horas, nas sinagogas de todo o país.

Sem prévio aviso, tropas sírio-egipcias atacaram os israelenses dando início ao que foi chamado a Guerra do Kipur. Nos primeiros dias, os invasores levaram nítida vantagem, mas as tropas israelenses se recuperaram da surpresa, reagiram e rechaçaram o ataque. Houve inúmeras baixas de lado a lado.

O mundo se mobilizou para que o conflito tivesse fim. Em São Paulo, um grupo de ativistas, estudantes, jornalistas, intelectuais e artistas se organizou num movimento chamado “Noite da paz” que reuniu 8.000 pessoas num ginásio da capital.

Vários oradores e artistas se alternaram no palco, defendendo a paz mundial, a união entre os povos e o fim dos conflitos.

Fiz parte da comissão organizadora, que tinha, entre outros nomes de prestigio, Marcos Furer, Salomão Schwartzman, Samuel Szwarc, Jacob Klintowicz, Henrique Veltman, Saul Schnaider, Saul Libman. Fui encarregado de convidar dois nomes de grande prestigio na televisão e no cinema, dois amigos de coração, com quem tinha sólida amizade de muitos anos de convivência não só profissional, como de relacionamento pessoal.

E eles compareceram e falaram ao microfone, apelando para a união árabe-israelense e pedindo o fim do conflito, em nome da paz mundial.

Quando o primeiro nome foi anunciado, fez-se um silencio total e sentia-se o espanto daquelas 8.000 pessoas ouvindo o nome do convidado: Taufic Jacob.

Entra no palco a figura conhecida e querida de todos, Dionísio Azevedo, e após o susto inicial, uma salva de palmas. O público em pé, aplaudiu aquela maravilhosa figura de cabelos brancos, imponente e majestoso como sempre aparecia na televisão.

Com aquele vozeirão forte, imponente, mas suave, Dionísio falou:

"Sim amigos meu nome é Taufic Jacob, nome artístico Dionísio Azevedo. Somos irmãos, judeus e árabes, e queremos que no Oriente Médio nossos irmãos de sangue acabem com as guerras e iniciem um clima de paz, alegria, progresso e entendimento", assim começou o seu discurso, o mais aplaudido da noite.

O segundo foi Walter Hugo Khouri, não tão conhecido ou popular, por ser diretor e não aparecer frente às câmaras, mas num depoimento justo e ponderado conclamou a que todos os povos do mundo, principalmente árabes e judeus, se unissem para o progresso da humanidade contra a guerra e conflitos e - numa mesa de negociações – resolvessem suas pendências, e pudessem viver e conviver em harmonia como acontece aqui no Brasil.

Já naquela manhã, o falecido Kalil Filho fizera uma grande reportagem na extinta TV Excelsior, nas Ruas José Paulino e 25 de Março, entrevistando árabes e judeus radicados no Brasil, e mostrando como ambas as comunidades convivem bem, fazem negócios e se integram na vida brasileira.

Este foi o homem, o amigo, o querido Dionizio Azevedo, fala mansa como bom mineiro (nasceu em Conceição da Aparecida, Minas Gerais a 4 de abril de 1922 e lá morreu aos 72 anos em 11 de dezembro de 1994).

Falamos agora do artista Dionizio Azevedo, homem culto, gentil, bom amigo, companheirão durante quatro décadas. Trabalhou no rádio, cinema, televisão, teatro e eu tive a honra e o privilégio de - como homem de marketing e divulgador – cuidar da comunicação da maioria dos filmes e peças em que atuou.

Aos 16 anos, após fazer os estudos primários em Muzambinho, veio para São Paulo, com a finalidade de se tornar artista. Sempre que ia ao cinema de sua cidade, dizia que logo todos iriam ver seu nome na tela. Em São Paulo freqüentou, ao lado dos avós, a Igreja Presbiteriana do Brás, em cujo palco fez suas primeiras apresentações. Procurando gente ligada ao cinema, foi ao Instituto Nacional de Cinema, onde conheceu Lima Barreto, cineasta de “O Cangaceiro”, que adotou o jovem e mostrou a ele os rudimentos da arte, do roteiro e da interpretação. Apresentado a Oswaldo Moles, começou a carreira de radioator. Sua voz era forte, grande, ótima e as radionovelas eram tão famosas como as telenovelas de hoje.,

Chegando à TV Tupi, em 1950, aliou-se a Cassiano Gabus Mendes e Walter George Durst. Com eles, escreveu roteiros, dirigiu teleteatros e interpretou grandes papéis. Durante os primeiros anos da televisão ao vivo, foi um dos maiores nomes, assinando o primeiro TV de Vanguarda, “O julgamento de João Ninguém”. Destaca-se neste período, “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de Guimarães Rosa, que /Dionísio adaptou para a televisão,numa busca ousada do uso da linguagem do grande escritor, na interpretação de Lima Duarte.

Trabalhou na TV Tupi, TV Excelsior,TV Record e TV Globo, sempre em papéis de destaque e forte interpretação. Até hoje todos lembram da imponente figura de Salomão Hayalla, de “O Astro”, novela de Janete Clair, cujo suspense sobre quem matou se repete agora em “Passione”, de Silvio de Abreu.

Em 1957, dirigiu a primeira versão de “Chão Bruto” e como ator participou de 24 novelas, entre 1975 e 1984.

Seus papéis no cinema, incluem, entre outros “O pagador de promessas”,”Independência ou morte”,”Lampião, rei do cangaço”,”O Santo Milagroso”,”O caçador de esmeraldas”.

Foi casado com a atriz Flora Geny, sua companheira em várias novelas, filmes e peças de teatro. O casamento de 30 anos foi interrompido em 1991, com a morte de Flora. Tiveram dois filhos, um dos quais morreu jovem num acidente de bicicleta na Av. Sumaré.

Quando noticiaram que Dionísio foi acometido de um câncer no cérebro, a consternação foi geral. Morreu a 11 de dezembro de 1994, não sem antes receber o titulo de “Cidadão Paulistano”, na Câmara dos Vereadores de São Paulo, um reconhecimento a tudo que fizera por São Paulo em mais de 50 anos de carreira artística.

mkus@uol.com.br

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