Mauricio Kus
AS BOND GIRLS AGITARAM SÃO PAULO NOS ANOS 80/90


Por Mauricio Kus, 24/10/2009 às 2:2

AS BOND GIRLS AGITARAM SÃO PAULO NOS ANOS 80/90

A primeira vez que eu e Sarinha, minha esposa, fomos para Roma foi em meados dos anos 60. Na primeira noite, no saguão do Cavalieri Hilton, onde estavamos hospedados, encontramos Celso Faria, ator brasileiro que morava na cidade e estava em companhia de amigos.

Celso Faria fez quase 20 filmes no Brasil, era alto, elegante, pinta de galã, mas nunca foi reconhecido como tal pelos produtores e diretores que  só o contratavam para papéis secundários.

Como era parecido (quase um sósia) de Lee Van Cleef, um ator americano que fazia sucesso nos western spaguetti italianos, ao lado de um Clint Eastwood em inicio de carreira,  se mandou para a Cidade Eterna a fim de conseguir um lugar ao sól naquele deserto ficticio onde se filmavam centenas de westerns genéricos que invadiam as telas do mundo inteiro.

Chegou a participar de alguns bang bang made in Italy, da série Django, mas igualmente em papéis secundários.  Desiludido com o "velho oeste de mentirinha" e sem ter o fisico sarado dos halterofilistas que viviam os papéis de Macistes, Hercules e outros heróis másculos da fase "histórica" do cinema italiano, resolveu voltar para o Brasil, onde fez um papel menor no filme de Hugo Carvana, "Vai trabalhar vagabundo" e saiu de cena.

Celso nos convidou para dar uma volta pelo centro de Roma no dia seguinte. Nos encontramos na Via Cavour, perto da Piazza di Spagna. Estavamos flanando pela chiquérrima rua, quando um mulherão se aproxima e cumprmenta Celso Faria, puxando papo. Ele nos apresentou, surgiu o tradicional muito prazer e percebemos que era Ursula Andress. Ambos se conheciam dos sets e corredores de Cinecittá. Depois de um papo de amenidades, ela seguiu em frente, parando de vitrine em vitrine e provocando torcicolos em todos os homens que cruzavam com ela, lembrando - com nostalgia - aquele figura maravilhosa de O fantastico Dr. No", que saia do mar, vestindo um audacioso biquini, com um cinturão que segurava um facão para combater seus inimigos.

Hoje, Ursula, que tem uma casa na Suiça, seu país natal, é uma veneranda senhora de 73 anos, mãe de um filho de 30 anos, que trabalha ocasionalmente em séries e comédias feitas para a televisão. Ainda conserva o porte, a elegância e a beleza inconfundivel daquela tarde dos anos 60, no centro da moda da capital da Italia.

Foi nosso primeiro corpo a corpo com alguém da equipe de 007-James Bond.  E que corpo!!!

No lançamento de "007 contra Goldfinger", Alberto Broccoli, o produtor da série, resolveu mandar a atriz Honor Blackman, super famosa na Inglaterra, estrela de inúmeros seriados para TV britânica, com destaque em papéis no teatro e no cinema.

Fez várias entrevistas para televisão, jornais e revista. Lucydio Ceravolo, proprietário do Cine Marrocos, um "gentleman" daqueles que não se fabricam mais, sugeriu que fossemos ao Palácio dos Bandeirantes, onde havia uma reunião para homenagear o governador pelo seu aniversário. Era uma chance boa de confrontar muita midia e atender à sugestão de Lucydio, que tinha livre trânsito em todos os ministérios e gabinetes do Estado de São Paulo e Brasilia.  Nunca esperavamos encontrar um beija-mão, com mais de 2.000 pessoas se aglomerando no saguão, num empurra para chegar mais perto do governador. Demos meia volta e nos mandamos.

Honor Blackman nao era uma Bond Girl, mas protagonista do filme, no papél de Pussy Galore. É a mais velha de todas as namoradass de James Bond, escolhida em função de seu prestigio no show business inglês.  Em 1981, estivemos em Londres e fomos assistir no Apollo Victoria Theatre o musical "A noviça rebelde" e vimos Honor Blackman no palco, vivendo o papél da Condessa, interpretado no filme de Roberrt Wise por Eleanor Parker.  No papél da noviça, que foi interpretado no filme por Julie Andrews,, Petula Clark, campeão insuperada até hoje na venda de discons na Grã Bretanha, com incursões pelo teatro e cinema. Alguns lembram dela no filme "Adeus Mr. Chips" ao lado de Peter O'Toole.

Julie Andrews e Petula Clark, ambas inglêsas, são da mesma geração e durante a guerra, fizeram vários shows nas bases britânicas, para entreter os soldados que lutavam contra o nazismo.

Em 1981 Albert Broccoli começou a vir ao Brasil, numa rotina que se repetia a cada dois anos, na época do lançamento do novo filmes do 007. Trazia ocasionalmente algum protagonista de primeira linha, mas sempre vinha acompanhado de duas ou tres Bond Girls, modelos que faziam pontas nos filmes e que serviam para brilhar junto ao público nas pré estréias, levando-as para os lugares mais frequentados de São Paulo para provocar boca-a-boca e curiosidade do público.

Sabendo que a comunidade japonesa era grande em São Paulo, Broccoli sempre trazia uma jovem oriental em sua comitiva.

Acabavam ganhando primeira página dos jornais, com fótos de sua presença em lugares mais dispares para apresentá-las à opinião pública, inclusive com um jantar panorâmico no Terraço Italia.

O Parque São Jorge tremeu quando as levamos para assistir a um treino do Corinthians. Socrates, como o único jogador que falava inglês, recepcionou Ann Peyn, Jean Pierre Roy e  a chinesa Cristine Hui, que bateram bola com ele, entraram em todos os noticiários de TV e esportes naquela noite e foram fóto em práticamente todos os jornais do país.  Ainda não contavamos com a difusão rápida de fótos e noticias via internet.

À noite, a convite da falecido presidente do Jockey Club, Hernaani de Azevedp e Silva, jantamos ao seu lado na tribuna do Hipodromo Paulistano, acopanhando as corridas.  A maioria dos binóculos daqueles sizudos senhores turfistas se voltava mais para a nossa mesa do que para pista onde corriam os cavalos.  Alguns, menos timidos, se aproximavam para cumprimentar o presidente, e naturalmente ganhar uma apresentação às jovens Bond Girls.

Quando do lançamento de "Somente para seus olhos", participamo de uma festa com mais de 3.000 pessoas na finada casa noturna Aquarius, "A noite das Bond Girls". A United mandou imprimir camisetas que fornecemos práticamente para todos os convidados.

Antes de ir ao Aquarius, demos uma parada no programa do Chacrinha, então na Bandeirantes.  As três Bond Girls deram uma entrevista para o engraçado apresentador, numa conversa de surdos. Ele não falava inglês, elas não entendiam patavina de português.  Por fim, Chacrinha colocou-as ao lado de Agnaldo Rayol, que ajudou a fazer um merchandising do filme e cantou uma canção cercado por elas.



Ficamos nos bastidores, nós e um grupo de amigos que foram conosco, quando se aproximou Leleco, filho do Chacrinha, que ao ver todos com a mesma camiseta, perguntou: "De que banda voces são? O que vão tocar?.  Era diretor de palco e entre os amigos (todos casais) tinha um industrial, um advogado, um cirurgião plástico e um oftalmologista.

A vinda de Richard Kiel, um ator tão simpático quanto grande (tinha 2,18 de altura), que interpretava o vilão Jaws(dentes de aço) em dois filmes "O espião que me amava" e "Moonraker"), foi hilária.  Ele veio com a esposa e uma filinha de 1 ano de idade. A esposa tinha 1,60 de altura e quando ele pegava a filinha no colo, a menina cabia na palma de sua mão.

A noite levamos o grupo para ver um show de samba no Oba Oba, uma casa noturna que Sargentelli mantinha na Av. Paulista.  Um fotografo pediu a Richard Kiel que posasse entre duas mulatas (1,80 cada uma).  Ele abriu os braços, como se fosse o Cristo Redentor, e as duas se penduraram em seus braços, uma de cada lado.  Ele as ergueu até 40 cms. acima do solo. Foi foto de primeira página no jornal Ultima Hora, no dia seguinte.

O ator Desmond Llewelyn, o Q da série, o irascivel gênio inventor da agência de espionagem MI-6 e fornecedor dos brinquedos tecnologicoa que faziam James Bond escapar de todas armadilhas inventadas por seus inimigos, deixou saudades pela simpatia e carinho de "bom velhinho" com que tratava as pessoas.

Pouco tempo depois soubemos que faleceu num acidente de automóvel no fim de 1999. Foi o ator que mais participou dos filmes da franquia. Esteve em todos, com excessão de "Dr.No" e "Live and Let Die".

A passagem de Topol por São Paulo, também foi marcante. Chaim Topol, nascido em Tel Aviv durante o periodo do Mandato Britânico na Palestina, veio em companhia da esposa Galia.

Começou no teatro em Tel Aviv, colaborou para a fundação do Teatro Municipal da cidade, se notabilisou por sua atuação no cinema em "O violinista no telhado", que depois virou seu carro chefe até hoje em milhares de representações nos palcos britânicos e na Broadway, em vários paises de lingua inglêsa, inclusive na Austrália.

Mora oficialmente em Londres, mas é coronel da reserva do Exercito de Israel.  Quando tem uma crise ou iminência de guerra, tira o uniforme do armário e em poucas horas se apresenta ao Alto Comando israelense para se integrar às forças armadas do país.

Socialmente o ponto alto da visita dos dois a São Paulo foi um jantar na Boite Regine's a convite do colunista Ovadia Saadia, que colocou a nata do colunismo social da época no salão para clicarem sua passagem pelo local.  Foram páginas e páginas de noticias, graças ao relacionamento do Ovadia.

Estavamos em Nova York e Topol fez um "revival" de "Violinista no telhado", numa rápida temporada de um mês.  Tivemos o azar de chegar na vespera do último dia de espetáculo e "sold out" (casa lotada) foi a expressão que mais ouvimos na bilheria do teatro, nas casas de cambio e balcão de venda de espetáculos do hotél.

Era uma pena. Tinhamos assistido,anos atrás, além do filme com Topol, Zero Mostel e Hershel Bernardi no teatro. Nunca com Topol no palco.

Resolvi dar uma de "brasileiro". Era sábado e fui ao teatro no fim da tarde, entre a matinèe e o espetáculo da noite. Me apresentei na entrada de artistas, o porteiro falou com Topol por telefone, explicou quem eu era, ele mandou subir. Cheguei ao terceiro andar,um camarim suntuoso, 60 metros quadrados, ele de cueca, sem camisa, fazendo um lanche e descançando para a próxima performance.

Nos cumprimentamos efusivamente, ele lembrou de São Paulo, impressionado pela grande metropole e falou que sua esposa sempre comenta o jantar do Regine's e as gentilezas do Sr. Saadia. com quem bateu longos papos em hebraico, sua lingua natal.

Expliquei que haviamos visto O violinista com Zero Mostel e Hershel Bernardi no palco, mas nunca vimos Topol e não sabiamos do revival até chegar a Nova York.  Hoje, antes de viajarmos para algum lugar, abrimos a internet, mas naquele tempo....

Expliquei que não estava pedindo cortesia, pedia só sua interferência para que pudessemos experimentar a sensação de ve-lo no palco.  Ele comentou que, os produtores só lhe dão quatro ingressos por espetáculo, que éle já havia distribuido para amigos americanos. Mas tentou ajudar. Pegou o telefone, ligou para o diretor do palco, o gerente do teatro, a secretária do produtor, o dirtor finânceiro que controla a entrada dos ingressos e nada. Tudo lotado mesmo. Cadeira extra, nem a pedido da estrela do espetáculo.´

Lá o teatro é muito profissional, tudo está escrito e sacramentado no contrato e nem para a estrela do espetáculo existem excessões.  Amargamos a decepção de não ve-lo no palco.

Não sei se vai ter a próxima vez, porque Topol anunciou  em janeiro um tournèe de despedida do papél de Tevye e suas filhas ou Tevye, o leiteiro, e deixará suas representações para um ator mais jovem que queira se apresentar no musical que o consagrou.

Inúmeras Bond Girls se tornaram estrelas, algumas como Hale Berry até ganharam um Oscar. Citamos, Carole Bouquet, Barbara Bach, Britt Ekland, Jane Seymour, Lois Chiles e Corinne Clery.

As Bond Girls continuam a enfeitar a tela e servem de colirio entre as cenas de luta do agente secreto, principalmente agora que o novo James Bond é o ator James Craig, um tipo menos sofisticado que todos os outros e mais afeito a resolver as coisas na porrada.

Pena que desde a morte de Broccoli, elas não vieram mais ao Brasil...

mkus@uol.com.br

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