Mauricio Kus
O TEATRO DE REVISTA COMEMORA 150 ANOS. PORQUE COMEMORAR? O TEATRO DE REVISTA MORREU...


Por Mauricio Kus, 29/10/2009 às 16:57

O TEATRO DE REVISTA COMEMORA 150 ANOS. PORQUE COMEMORAR? O TEATRO DE REVISTA MORREU...

O teatro de revista brasileiro surgiu em 1859, no Teatro Ginástico do Rio de Janeiro, portanto está comemorando 150 anos. Uma data para festejar, mas como fazer festa, se o teatro de revista morreu no final dos anos 60? Cole, Zilco Ribeiro, Silva Filho, Abelardo Figueiredo, e vários outros-produtores tentaram manter vivo o gênero teatral popular, mas não adiantou. Só passaram o atestado de óbito em suas representações finais. Causa mortis? Uns atribuem à falta de renovação, outros à televisão que além de roubar os principais atores do gênero, “inventaram” programas com todos os ingredientes do teatro de revista, outros à falta de bons autores e a derrubada dos grandes teatros com palcos apropriados para as grandes escadarias e cenários gigantes que o gênero usava. Caso do Cassino Antarctica, no Vale do Anhangabaú e do Teatro Santana, na Rua 24 de Maio, engolidos pela expansão da cidade. Em seus terrenos construíram edifícios e galerias. O último deles, o Teatro Paramount, pegou fogo e após várias utilizações, inclusive malograda tentativa de transformar em cinema, Hoje é o Teatro Abril que apresenta espetáculos musicais montados na Broadway.

A primeira revista de que se tem noticia chamava-se “As surpresas do Sr. José da Piedade”, de Justiniano de Figueiredo Novaes. A revista vem de um modelo francês chamado vaudeville. Genero que ficou famoso nos Estados Unidos no final do século 19 e meados do século 20. A revista tinha pouco enredo e quadros que se alternavam entre diálogos, piadistas e comediantes, e esplendorosos números musicais, com bailarinas altas, semi despidas e terminava sempre com o elenco inteiro no palco e as moças descendo uma escadaria sob altos acordes da orquestra e coral. A música tinha muita importância no teatro de revista, tanto que o produtor Walter Pinto tinha sob contrato permanente, o compositor e maestro Vicente Paiva, que compunha novas musicas para cada novo espetáculo. Muitas se tornaram grande sucesso, como por exemplo “Ave Maria no Morro”, um clássico da música popular brasileira.

As vedetes eram um capitulo à parte. Cobertas de plumas e lantejoulas,deixavam suas formas bem à vista. Todas eram altas, muito bonitas, elegantes e charmosas. Walter Pinto importava as vedetes e bailarinas da Argentina e muitas aqui ficavam fazendo carreira no Brasil. A mais notória foi a falecida Irmã Alvarez, que chegou a fazer novelas na Globo e realmente começou sua carreira como “chorus girl” de Walter Pinto. Uma frase pronunciada por um assíduo freqüentador da fila do gargarejo (a primeira fila) ficou famosa: “As vedetes são tão bonitas, tem mais curvas que o autódromo de Interlagos”.

Provavelmente, pelos padrões de hoje, seriam gordinhas.

As vedetes eram o que hoje poderíamos chamar de celebridades. O termo vem de origem italiana (vedétta), na França (vedette), que acabou pegando no Brasil.

A maior de todas foi Carmem Miranda, as mais ousadas, Luz Del Fuego e suas cobras e Elvira Pagã. Virginia Lane entrou na história por seu suposto romance com o Presidente Getulio Vargas, mas foi a mais famosa de todas, e a mais sensual, apesar de ter apenas 1,58 de altura. Teve carreira longa e se destacava por um número solo onde cantava de forma brejeira, maliciosa e coquete (termo que se usava muito nos anos 50, época em que o francês dominava a cultura brasileira), uma canção que exaltava as virtudes do amendoim. E terminava com um refrão: Graças ao amendoim, Getulio conseguiu ficar 15 anos com a dita...dura!!!

Virginia Lane ainda está viva e mora, reclusa, no interior do Estado do Rio de Janeiro.

150 anos de história tem muita estrada, portanto vamos nos limitar a três produtores de teatro de revista, cuja história de vida dá um panorama do teatro rebolado no Brasil. Um mega empresário, um autor de pocket shows e uma companhia média, mas ousada.

Zilco Ribeiro, morou nos Estados Unidos durante a guerra, antes de se transferir para o Rio de Janeiro em 1949. Neste ano, montou com dois sócios italianos, três musicais com Dercy Gonçalves, à frente dos três espetáculos. Nos elencos, Renata Fronzi, Oscarito, Dalva de Oliveira, um cantor italiano de nome Rabalete. Conseguiu levar para o teatro Marlene, a Rainha do Rádio. Em 1952, foi para o Teatro Follies, em Copacabana, montou sua própria companhia e inaugurou a fase do teatro de bolso,que revelou grandes talentos, entre outros os então casados, Agildo Ribeiro e Consuelo Leandro.

Era um autentico gentleman, fino, elegante, 1,85 de altura, magérrimo, culto e estudioso de teatro. Veio para São Paulo em 1956, fez vários espetáculos no Teatro Natal (Praça Julio Mesquita) e saiu de cena para morar em Parati, onde faleceu em 1992.

Não tinha herdeiros e deixou devidamente organizados, imensa coleção de fotos, programas, textos de peças, recortes de jornais, uma documentação não inventariada, confiada à Professora Neyde de Castro Veneziana Monteiro, que está organizando o acervo com a ajuda da FAEP/UNICAMP. A tradição de pocket show, marca registrada de Zilco Ribeiro, foi mantida por Abelardo Figueiredo no O Beco e posteriormente no Palladium, onde o teatro de revista tradicional deu os últimos suspiros em São Paulo.

Walter Pinto foi um empresário à americana, um autentico homem de negócios. Reinou nos anos 50/60 com teatro próprio, o Recreio na Praça Tiradentes do Rio de Janeiro. Investia muito, contratava bailarinos em Buenos Aires, ia todo ano a Paris e trazia do Follies Bergère novidades para seu próximo espetáculo. Ali comprava as plumas e penas de avestruz que enfeitavam as vedetes. Fazia um show por ano e tinha Oscarito, Grande Otelo, Virginia Lane e ocasionalmente a atriz portuguêsa Beatriz Costa à frente do elenco. Muitos anos depois, quando estive em Lisboa, hospedado no Hotel Tivoli, uma velha dama passava as tardes sentada no hall do hotel. O concièrge me informou que era uma atriz famosa também no Brasil. Beatriz Costa, morava no hotél, pois não tinha família. Fui cumprimentá-la e ela se sentiu radiante de felicidade ao se ver reconhecida, depois de tantos anos, por um brasileiro que a vira representar em nosso país. Falava com carinho de Oscarito.

Walter Pinto foi casado com Íris Bruzzi. Era um homem muito vaidoso e mesmo tendo Oscarito e Grande Otelo (os maiores astros do cinema brasileiro) em seu elenco, sempre anunciava seus espetáculos com “Walter Pinto apresenta...”, sem mais nomes. Ele era o espetáculo. Convivi com um casal de empresários, formando sólida amizade: César Ladeira e Renata Fronzi. Ela estrelou vários filmes de Herbert Richers e eu cuidava da promoção e divulgação em São Paulo. Quando estreava um filme, trazíamos alguns atores do Rio de Janeiro e eles eram entrevistados, não só pelos jornais, mas principalmente por programas pioneiros na linha de talk shows, como Ana Maria Braga, Maria Tereza Gregory, Walter Forster, Xênia, Clarice Amaral, e a grande atração, Bibi Ferreira, comandando programa na TV Excelsior, com produção de Manoel Carlos, este mesmo, o Maneco das novelas da Globo. Era o Bibi 60,61,62 e assim por diante.

Surgiu daí, uma boa parceria. Nós dávamos a atração sem cachê e eles em troca faziam entrevistas laudatórias para o filme e nos ajudavam em sua divulgação. Permuta legal.

César Ladeira teve figura destacada na Revolução Constitucionalista de 1932 quando foi considerado o locutor oficial da insurreição. Em 1933 transferiu-se para o Rio de Janeiro, e brilhou como locutor e diretor artístico. Nasceu em Campinas, onde é nome de rua, mas fez carreira na Cidade Maravilhosa. Morreu em 1967.

Renata Fronzi nasceu em Rosário, na Argentina, mas a família mudou para São Paulo, onde começou como bailarina no Teatro Municipal. Mudou-se para o Rio, casou com César Ladeira e fez carreira no cinema. Mas, o grande destaque de sua vida artística foi A Família Trapo ,na TV Record, ao lado de Jô Soares, Golias, Zeloni, Cidinha Campos e Ricardo Corte Real.

No final dos anos 60, quando passamos uns dias no Rio, eu e Sarinha, minha esposa, fomos jantar no apartamento de Renata Fronzi, em companhia dos filhos adolescentes César Ladeira Filho e Renato Ladeira; O apartamento fica no Posto 6, na Rua Mem de Sá, uma rua de prédios luxuosos, tortuosa e íngreme, em direção a um morro, na linha de tiro do tráfico. Nada aconteceu com Renata e sua família, mas numa madrugada de 1992, o ator Oldei Cazarré estava dormindo em seu apartamento, quando, durante uma briga entre traficantes, um projétil atravessou a janela de seu quarto, e foi se alojar em seu peito. Morreu a caminho do hospital.

César e Renata montaram no Teatro Alumínio de São Paulo o mais renovador espetáculo de teatro de revista de que se tem noticia. Chamava-se Brasil 3000 e ficou quase um ano em cartaz, de terça a domingo e não apenas de 6ª, sábado e domingo, como acontece hoje. Só parava às seundas-feiras, para descanço da companhia.

Era um espetáculo político, que revelou grandes nomes como Sonia Mamede, Lílian Fernandes, Luiz Delfino, Lílian Fernandes, e abordava “o petróleo é nosso”, e outros assuntos candentes de um imaginário Brasil rico e de Primeiro Mundo.

Neste aniversário um tributo ás grandes vedetes que enfeitavam os palcos com espetáculos cheios de humor, alegria e malicia.

Louvores a Dercy Gonçalves, Bibi Ferreira, Virginia Lane, Nelia Paula, Dorinha Duval, Sonia Mamede,Renata Fronzi, Carmem Veronica, Íris Bruzzi, Anilza Leoni, Maria Pompeu,Célia Coutinho,Paulete Silva, Consuelo Leandro, Wilza Carla, Angelita Martinez, Brigitte Blair, Eloina, Elvira Pagã, Luz Del Fuego, Rose Rondelli, Mara Rubia, Esther Tarcitano, Marly Marley, Yara Cortes, Iza Rodrigues, Nanci Montez, Elizabeth Gasper, Norma Bengel e até Betty Faria.

A maioria já está em outra dimensão. Espero que lá consigam fôlego para apagar 150 velinhas...

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