Mauricio Kus
QUEM PODE PERDOAR MARIA DELLA COSTA POR SEU EXILIO VOLUNTÁRIO DO TEATRO?


Por Mauricio Kus, 19/05/2010 às 10:16

QUEM PODE PERDOAR MARIA DELLA COSTA POR SEU EXILIO VOLUNTÁRIO DO TEATRO?

Quando vi Fernanda Montenegro e Cleyde Yaconis em plena atividade no primeiro capitulo de “Passione”, a nova novela da Globo, escrita pelo mestre Silvio de Abreu, lembrei-me de Maria Della Costa.

Com idades aproximadas e praticamente se iniciando no teatro em curtos períodos diferentes, ficou a tristeza de ver Maria Della Costa abandonar os palcos para se firmar como empresária de hotelaria em Paraty, onde é proprietária e dirige a Pousada Coxixo.



Deixou a cena em 1992 e se recolheu em exílio voluntário ao lado de Sandro Polloni, seu segundo marido, sócio, mentor e administrador de sua carreira.

Ambos passaram a dividir o tempo entre administrar a pousada e o teatro, com aparições esporádicas da grande atriz.

Mas, em 1995, o destino mudou o enredo de sua vida e como um trágico presente de Natal, Sandro Poloni veio a falecer no dia 23 de dezembro daquele ano. Maria não mais voltou a representar e vive em seu refugio de Paraty, deixando muita tristeza aos que a viram trabalhar em quase 50 anos de carreira, derrubando o mito da mulher loira, bonita e graciosa para se mostrar uma atriz talentosa, que sempre brilhou em papéis dramáticos ou comédias.

Chegou até a aceitar um papel de vedete (quem poderia dizer não a Abelardo Figueiredo, o mestre do show business?) e fez uma linda aparição num show dedicado a São Paulo no extinto Palladium, onde Abelardo foi diretor artístico. Gentile Maria Marchioro, nascida em 1926 em Flores da Cunha, no Rio Grande do Sul foi descoberta pelo jornalista Justino Martins da Revista Manchete, aos 14 anos de idade, que a lançou na carreira de modelo. Aquela bela filha de agricultores originários de Veneza, arrasou nas passarelas e não demorou muito para desembarcar no Rio de Janeiro, então a méca da cultura brasileira.

Estreou no teatro, como atriz, em “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, ainda adolescente, em 1944, sob a direção de Bibi Ferreira. Mas, para a conta bater no fim do mês, atuou em shows de cassinos e em desfiles de moda, orientada pelo saudoso Fernando de Barros, seu primeiro marido, que a mandou estudar teatro em Portugal, no Conservatório Dramático de Lisboa, onde ficou durante três anos.

De volta ao Brasil, uniu-se ao grupo “Os comediantes”, com quem montou espetáculos como “Terra do sem fim”, “Inês de Castro" e "Vestido de noiva". Em 1948, já com o companheiro Sandro Polloni, criou a Companhia Teatral Popular de Arte, que ficou mais famosa como a Companhia Maria Della Costa.

Ziembinski, recém chegado da Polônia foi o diretor dos primeiros espetáculos da companhia, que nasceu com vocação para espetáculos polêmicos e ambiciosos, levando para os palcos Jorge Amado e Nelson Rodrigues.

Na seqüência de espetáculos, o público começa a perceber naquela linda jovem protagonista e dona da companhia, um progressivo amadurecimento de sua arte, procurando superar a imagem de beleza que sempre a acompanhou em todas atividades, na passarela, no teatro, no cinema e na televisão.



Em 1951, fez uma pequena passagem pelo Teatro Brasileiro de Comédia, o famoso TBC, na peça “Ralé”, de Massimo Gorki, ocasião em que deram o tiro de partida para construção de seu teatro próprio, numa época em que São Paulo era muito pobre em casas de espetáculos.

O empresário Otavio Frias de Oliveira, proprietário da Folha de São Paulo, facilitou o financiamento pelo extinto Banco Nacional para a construção do prédio projetado por Lucio Costa e Oscar Niemeyer.

O teatro foi inaugurado em outubro de 1954, batizado de Teatro Maria Della Costa, com a peça “O canto da cotovia”, de Jean Anouhil, dirigido por Gianni Ratto, especialmente contratado na Itália para dirigir o espetáculo. Ratto gostou tanto do Brasil que aqui ficou até sua morte, participando de centenas de espetáculos como diretor, cenógrafo e figurinista.

Obrigado, Sandro e Maria por nos terem dado o grande Gianni Ratto.

Como Joanna D’Arc em “O canto da cotovia”, Maria atinge o ápice de sua carreira, numa interpretação comovente, num espetáculo de extremo requinte e beleza plástica. Vitor Brecheret imortalizou o personagem, numa estatua de bronze, de Maria Della Costa, em tamanho natural, estatua esta que hoje está na pousada de Paraty.

Maria Della Costa e Sandro Polloni sempre foram avançados para seu tempo e colocaram em cena, Federico Garcia Lorca, Tennesse Williams, Bertold Brecht, Ionescu, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Marcos Rey, Helena Silveira, Jorge Andrade, Antonio Bivar, entre outros.

Arthur Miller, após a morte de Marilyn Monroe, com quem fora casado, escreveu a peça “Depois da queda”, que Maria Della Costa bancou, chamando para o elenco Paulo Autran. A peça foi dirigida por Flávio Rangel, que Sandro e Maria descobriram anos antes para dirigir a montagem de "Gimba", de Gianfrancisco Guarnieri.



Convidados pelos organizadores levaram “Gimba” para Paris, no Festival de Teatro nas Nações, onde conquistaram o prêmio destinado ao melhor trabalho folclórico (coisas de europeu). “Gimba” abriu as portas do Velho Mundo para sua companhia e a viagem se esticou até Roma, Madri e Lisboa.

Maria foi muito ativa nos movimentos de resistência de artistas e mulheres contra a ditadura militar.

Fez algumas novelas, com destaque para “Beto Rockfeller”. Mas não se sentia confortável trabalhando na televisão, nutrindo sempre sua paixão pelo teatro.

O final de sua fase mais intensa em teatro foi “Bodas de sangue” de Federico Garcia Lorca, numa encenação de Antunes Filho.

Daí para a frente, seu trabalho passou a ser mais espaçado, ocupando seu tempo entre o teatro e administração da pousada que fundaram em Paraty, situação que se agravou com a crise econômica. Em 1978, resolveram vender o teatro que construíram com tanto esforço para a Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo.

A beleza de Maria Della Costa sempre encantou os artistas plásticos.

Além de duas esculturas de Brecheret, tem na parede seu retrato por Djanira e Di Cavalcanti.


Aniversário de Mauricio Kus no Restaurante Galipoli, em São Roque, ao lado de Maria Della Costa

Eu e minha família privamos da amizade de Sandro e Maria e íamos freqüentemente à pousada em Paraty, onde éramos recepcionados por eles e sua fiel escudeira Joaquina, que administrava o local.

Fomos testemunha do carinho que Maria nutria pelo teatro. Montou um pequeno teatro de 100 lugares na pousada, mantém lá um arquivo de todas as publicações que acompanharam sua carreira e guarda com especial cuidado, os figurinos de suas peças principais.

Ocasionalmente hospeda velhos companheiros, artistas e mesmo antigos frequentadores de teatro, com quem bate longos papos sobre a trajetória de sua vida, que se confunde com a vida do teatro brasileiro dos últimos cinqüenta anos.

Maria Della Costa poderia estar em plena atividade artística, quem sabe até no elenco de “Passione”. Por isto não perdoamos seu auto-exílio nas paradisíacas praias de Paraty... Uma lágrima para Sandro PolloniUma lembrança carinhosa do sobrinho da grande Ítala Fausta que decidiu abandonar a carreira de ator para ser mentor, marido, companheiro e orientador da carreira de Maria Della Costa.

Bom amigo, pessoa de bom caráter e coração de ouro, um empreendedor que faz falta ao teatro brasileiro...

mkus@uol.com.br

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