Mauricio Kus
HÁ 65 ANOS NASCIA A ESTRELA ELIANA PITTMAN. HÁ DEZ ANOS OPHÉLIA PITTMAN FOI SER ESTRELA EM OUTRA DIMENSÃO


Por Mauricio Kus, 13/08/2010 às 19:1

HÁ 65 ANOS NASCIA A ESTRELA ELIANA PITTMAN.  HÁ DEZ ANOS OPHÉLIA PITTMAN FOI SER ESTRELA EM OUTRA DIMENSÃO

 

A vida nos prega peças inusitadas, as quais não podemos controlar.  Em 14 de agosto de 2000,Eliana, com amigos e sua mãe querida, Ophélia, festejava seu aniversário.

No dia seguinte, Ophélia se despediu de sua vida terrena e deixou Eliana órfã.

Os mesmos amigos que visitaram Eliana ou telefonaram para cumprimentá-la receberam por telefone a triste noticia “Mammy – como Eliana chamava Ophélia – faleceu.

Em um depoimento sobre sua carreira, Eliana declarou que “dedico todo meu trabalho e minha carreira à minha grande amiga e mãe Ophélia que acompanha todos meus trabalhos com muita espiritualidade, pois desde que ela se foi em 15 de agosto de 2000 não parei mais de criar músicas, arranjos, shows, tudo baseado no que ela me ensinou, ao lado de  meu maior mentor e professor, o grande saxofonista americano Booker Pittman”.

Eliana Pittman carrega em seu DNA a experiência, dedicação e apoio profissional de Ophélia e o legado do grande músico americano, seu pai, o orientador de sua carreira.  Quando perguntam sobre Booker Pittman para Eliana, ela responde, de pronto “Buca(como ela o chamava), foi experiência de vida, cheio de bom humor que não tem igual...”

Booker morreu aos 60 anos, em 1969, por causa de um câncer na laringe. E desde então, como legitima herdeira do talento dele, Eliana, como seu legado, inclui em seu repertório as canções que se tornaram um clássico, na interpretação no sax alto e soprano do músico.


Infelizmente não ficaram muitos registros musicais de seus trabalhos.  Em função de incêndios e da falta de dinheiro das TVs Tupi e Excelsior, e sem a tecnologia de conservação avançada dos dias de hoje, as raras imagens de Booker Pittman desapareceram.

Eliana Pittman fez uma representação em homenagem à memória de Booker Pittman, para o qual teve que reconstituir passagens de sua carreira e montar o roteiro por meio de fotografias e gravações antigas de shows.

Quando Ophélia casou com Booker Pittman, Eliana descobriu um mundo novo, sendo apresentada – em discos  às deusas do jazz  blue Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, embaladas pela sonoridade do sax de Pittman.

  


Descobriu, então sua vocação, e cantou pela primeira vez ao lado de Booker Pittman num programa da TV Rio aos 15 anos de idade.  Depois vieram os programas de César de Alencar na Radio Nacional, shows em casas noturnas, a estréia internacional, um show na Argentina, com apresentações no célebre Teatro Maipu, em Buenos Aires e em Mar Del Plata, com o mesmo sucesso.

Neste mundo novo, Booker a levou para os Estados Unidos onde conheceu de perto Louis Armstrong e Count Basie e assistiu a shows de suas musas Sarah Vaughan  e Ella Fitzgerald.

Nesta viagem, ao lado de Booker  com quem sempre se apresentou  -iniciou carreira solo só após sua morte – fez apresentações coast to coast, cursos com mestres do show business como Fred Steal, aulas de danças com Sammy Davis Jr, apresentações na televisão com Jack Parr, um dos maiores apresentadores da rede televisão ABC.

Sua estrela estava brilhando e a chegada da bossa nova foi o grande impulso de sua carreira nos States. Ela já tinha gravado no Brasil um dos primeiros discos do gênero “New Sound Brazil Bossa Nova”.  Através de Jack Parr foi contratada pela agência artística William Morris e pelo Playboy Club.  Reconhecida pela crítica e pelo público norte-americano, depois de shows individuais em vinte e oito estados americanos, retornou ao Brasil, transformando-se numa das maiores surpresas da MPB, além de um tipo de intérprete única, no país, da música americana.


Em uma temporada européia, no inicio dos anos 70, atuou em Paris,  Alemanha, Suécia, Espanha, Itália, Portugal, além bem sucedida incursão pela Argentina, México, Venezuela e Estados Unidos, onde se apresentou em shows e programas de TV, que tinham a participação de astros como Sacha Distel, Marcelo Mastroianni, Claudia Cardinale, Sammy Davis Jr.  e Jerry Lewis, entre muitos outros.

Voltou ao Brasil e com misto de surpresa e orgulho foi escolhida como a cantora para se apresentar perante a Rainha Elizabeth II, da Inglaterra, em sua visita ao nosso país.

No Rio de Janeiro, onde atuou em vários shows de televisão e lançou muitas músicas inéditas, sucessos até hoje, como “Viola enluarada” de Marcos e Paulo Sérgio Valle e “Tristeza”, samba de Haroldo e Tristinho,  inaugurou o Hotel Nacional do Rio de Janeiro com o show Brazilian Follies.


Quando o Teatro Hilton, do Hotel São Paulo Hilton foi inaugurado, seu gerente geral Alexander Braune convidou Eliana Pittman para o show inaugural, deixando para estudos posteriores propostas de várias companhias teatrais interessadas naquela moderna sala de espetáculos, a melhor daquela época, nos anos 80.  Vera Fischer que estava interessada em inaugurar o teatro com a peça “Negócios de estado” fez o espetáculo seguinte, numa temporada que durou dois anos.

Foi ali no Hilton que conhecemos Eliana e ficamos amigos até hoje, decorridos mais de 20 anos de pouca freqüência, mas de muito carinho, principalmente com Sarinha, minha esposa, por quem ela nutria grande afeição.  Varias vezes estivemos em sua cobertura no Rio de Janeiro, gozando da hospitalidade de Ophélia, que tinha sempre no colo, Zé Roberto, um pintcher arretado., nas palavras de Eliana.

Por um lapso de tempo não nos vimos e foi o amigo comum Ovadia Saadia que nos reaproximou, portador de um convite para uma feijoada-almoço em comemoração do aniversário de Eliana, num restaurante da Av. Ibirapuera.

Por coincidência, nós três, Eliana, Ovadia e eu somos de agosto.

Foi o último encontro de Eliana com Sarinha, que nos deixou em 2007.

Já são 50 anos de carreira, desde que aquela adolescente se apresentou ao lado de Booker, que fazem de Eliana uma vencedora – “Ser mulher, artista, negra e brasileira não é fácil. É muita coisa para uma só pessoa”. Sempre falou.

 Mesmo assim, consolidou-se como um dos grandes nomes da música no Brasil e ousou, fazendo incursões em peças de teatro e novelas na TV Globo.

Ela mesma se define: “Sou pura energia”. E quem convive com Eliana sabe que ela tem razão.

 

e-mail: mkus@uol.com.br

 



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