Mauricio Kus
OSWALDO DE OLIVEIRA O GALANTE "CARCAÇA" DO CINEMA BRASILEIRO DA BOCA DO LIXO.


Por Mauricio Kus, 13/03/2013 às 11:15

Leio os jornais de hoje e fico impressionado com o número de reportagens e matérias elogiando Oswaldo de Oliveira e seu grande feito de ontem (10/03/) no Engenhão, no Rio de Janeiro.

Derrotando o Vasco da Gama, Oswaldo de Oliveira levou o Botafogo FC ao titulo da Taça Guanabara.

Confesso que gosto muito de futebol, sou corinthiano e lembro do tempo que Oswaldo de Oliveira foi técnico do clube do Parque São Jorge (Itaquerão, em breve). Homem calmo, galante, ponderado, culto e atencioso com os fãs e a imprensa.

Mas como sou cinéfilo e adoro cinema, tinha como referência de Oswaldo de Oliveira a figura de Carcaça, apelido de uma das figuras mais ativas e mais folclóricas do cinema brasileiro, um faz tudo no mundo da sétima arte. Foi carregador de câmera e refletores, diretor, assistente de diretor, autor, iluminador, fotografo, decorador e até varria o chão do estúdio, quando necessário.

Deixou sua marca em 54 filmes, nas mais variadas categorias. Participou de dramas, comédias (todas com pitadas de erotismo, marca registrada do cinema paulista da época), policiais, cangaço, westerns caboclos (uma resposta aos spaguetti westerns italianos, muito popular nos anos 70/80),sertanejos, terror e uma tendência que ele inaugurou e teve vários seguidores: prisão de mulheres, que dava ensejo a cenas eróticas, estupros e maus tratos às pobres sentenciadas que estavam alí para incentivar a libido dos espectadores.

Destes 54 filmes, dirigiu 21. Em 22 acionou a câmera ou foi diretor de fotografia, em 19 foi autor do script, segundo diretor ou assistente de direção em cinco, em 3 foi ator, como gerente de produção e como decorador de cenário, uma vez cada.

Acompanhou a aventura pioneira do diretor/produtor Ary Fernandes que produziu e dirigiu "O vigilante rodoviário", série para TV, fotografado por Oswaldo de Oliveira., que participou de 38 episódios.

A série fez muito sucesso e repercutiu tanto na sociedade, que seu personagem titulo, o ator Carlos Miranda recebeu um convite para se integrar à Policia Militar do Estado de São Paulo, fez curso para oficiais e se tornou capitão, muitas vezes comandando blitzes nas estradas e orientando os soldados a coordenar o trafego. Hoje o Capitão Miranda está aposentado e mora em Itanhaem, no litoral sul paulista, gozando de uma merecida e tranqüila aposentadoria

Oswaldo de Oliveira era integro, honesto, batalhador, não tinha horário para filmar e teve sua vida inteiramente dedicada ao cinema.

Morreu jovem, com 58 anos. Nascido em 1931, faleceu em 1990, deixando como legado uma extensa obra cinematográfica, dentro do período que ficou conhecido como o "Cinema da boca do lixo".

Por que Boca do Lixo? Nos anos 30, as companhias cinematográficas americanas tinham seus escritórios junto às estações de estrada de ferro (Sorocabana e São Paulo Railway), pois os filmes eram transportados em grandes latas para o interior do estado,.

Era comum ver nas ruas, carregadores levando latas de filmes, para despacho, rumo às estações.

Na ausência dos atuais modos de comunicação, como e-mail, telefonia rápida, celulares e outras engenhocas da vida moderna, a marcação tinha que ser feita pessoalmente e os proprietários de cinemas do interior vinham de trem para visitar as distribuidoras. Não havia as grandes redes que fazem a marcação da programação de uma só tacada para centenas de cinemas, como hoje.

E com a vinda de exibidores, havia também os forasteiros que chegavam a São Paulo de trem.

Com isto, vieram as prostitutas de baixo clero que distraiam os visitantes e ganhavam seu sustento, em hotelecos espalhados pela proximidade das estações, batendo sua bolsinha pelas imediações dos escritórios das distribuidoras.

Como o a prostituição mais chic era na zona do centro conhecida como a Boca do Luxo, o quadrilátero da produção de filmes, Ruas Vitória,Triunfo, Gusmões e Aurora ganharam a alcunha de Boca Lixo.

E ali, na Rua do Triunfo, havia um restaurante chamado Soberano, onde todos almoçavam, se reuniam para troca de idéias e levavam seus scripts na esperança de que algum produtor se interessasse em filmar sua história. Artistas iam em busca de contratos e o local virou um banco de empregos, onde os mais sortudos ganhavam propostas de Apolo Galante, o maior produtor do pedaço, conhecido como o Rei da Boca, que chegou a produzir quase 90 filmes nos período de 2 anos. Entre uma garfada e outra ou um cafésinho, o negócio era fechado e bastava atravessar a rua para chegar ao escritório da Galante Produções e assinar a papelada.

A Boca do Lixo, apesar de produzir filmes de baixo orçamento e alguns de qualidade duvidosa, foi uma das mais bem sucedidas experiências de fazer o cinema indústria brasileiro, filmando sem parar e abastecendo os cinemas de produções populares de sucesso, que faziam frente às bilheterias dos blockbusters americanos. Inclusive,abriu caminho para a presença brasileira nas telas, pois os americanos alegavam que não cumpriam a lei de obrigatoriedade de exibição de filmes brasileiros por falta de produto. E este produto vinha da Rua do Triunfo e dava lucro, o que alegrava os exibidores.

A história da galinha dos ovos de ouro...

Acabou quando alguns produtores extrapolaram e partiram para o cinema "verdade", com cenas de pornografia e sexo explicito, que não era a praia dos cineastas de verdade. O cinema brasileiro definhou e as produções foram se asilar nos poeiras destinados a demonstrações onanisticas de uma minúscula platéia., enquanto o cinema novo dava mais qualidade à produção brasileira, mas não encontrava no público a aceitação que recebia da critica.

Oswaldo de Oliveira, assim como a maioria dos profissionais do cinema da boca do lixo, fizeram filmes de alto calibre e tiveram ali produções com Carlos Manga, Carlos Coimbra, Carlos Reichembach, Luiz Sergio Person, David Cardoso, Claudio Cunha, Aníbal Massaini Neto, Silvio de Abreu, e atores de peso como Tarcisio Meira, Gloria Menezes, Jofre Oliveira, John Herbert, Mauricio do Valle, Herson Capri, além das musas Neide Ribeiro, Helena Ramos, Nicole Puzzi, Sandra Brea, Patrícia Scalvi, Zilda Mayo, Aldine Miler (uma das atrizes favoritas de Walter Hugo Khouri e hoje em atividade como produtora e atriz de teatro, com a peça em cartaz Virgem aos 40) e até Cristiane Torloni e Carla Camuratti, de gloriosa carreira na televisão, esta última ativa na política de relacionamento da classe artística, e precurssora do ressurgimento do cinema brasileiro.



Romancistas como Marcos Rey e Hernani Donato se renderam aos encantos do cinema da Boca do Lixo e tiveram suas histórias levadas à tela.

A Boca do Lixo revelou a atriz Vera Fischer, que de Miss Brasil virou estrela de cinema, televisão e teatro após o estrondoso sucesso de "A Superfemea" foi contratada pelo Globo e hoje é um dos ícones da televisão brasileira... Silvio de Abreu dirigiu Helena Ramos em “Mulher objeto” e foi para a TV Globo, onde é hoje um dos mais respeitados e conceituados autores de novela no Brasil.

Citamos todos estes fatos, que de certa forma faziam parte do mundo de Oswaldo de Oliveira que estamos tratando de mostrar nesta crônica, mas já deve ter gente pensando: “Este cara veio aqui para escrever sobre o Carcaça ou da Rua do Triunfo?” Em verdade, ambos se entrelaçam, e se completam.



Em 1998 Oswaldo de Oliveira fotografou o filme de mistério., "A presença de Marisa", de John Doo, seu último trabalho.

Em 1990 faleceu e saiu de cena.

Mas seus amigos e fãs reconhecem a sua importância no cinema brasileiro..

Em 2007 a cidade de Itú deu o seu nome ao cineclube fundado para apresentação de filmes de alto nível, com preferência para a produção nacional.

Mauricio Kus – mkus@uol.com.br

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