Mauricio Kus
FERNANDO DE BARROS....O GLOBETROTER


Por Mauricio Kus, 01/09/2009 às 10:15

FERNANDO DE BARROS....O GLOBETROTERQuando a notícia chegou aos escritórios da Cinedistri, o produtor Oswaldo Massaini e o diretor Anselmo Duarte, com um grupo de amigos, aguardavam, ansiosos, o esperado telefonema: "O Pagador De Promessas" ia representar o Brasil na entrega do Oscar, sendo o candidato oficial a melhor filme estrangeiro.

Estouravam champagne, se abraçavam, riam e choravam de alegria, quando, de repente, o desalento tomou conta da dupla: "Quem vai buscar o prêmio?".

Ambos tinham medo de viajar de avião e ainda tinham na lembrança os infindáveis 30 dias que passaram no navio quando foram a Cannes, onde conquistaram a "Palma de Ouro",

Os dois disseram em coro, "eu não vou, vai você". A solução foi convidar um cineasta amigo da dupla, homem do mundo, que representaria com muito garbo o cinema brasileiro.

Não deu outra, ligaram para Fernando de Barros que, dias depois embarcava para Los Angeles.

O convite oficial veio assinado por George Cukor, presidente do "Foreign Language Film Award Committe", e Fernando ficou deslumbrado com o tratamento dispensado aos visitantes estrangeiros.

A programação de três dias incluía vários coquetéis, visita à Disneyland, passeios pelos estúdios, participação no grande banquete de gala e uma limousine Lincoln Continental à disposição, no momento da chegada até a hora da partida na entrada do aeroporto.

Fernando era um homem do mundo, não se deslumbrava por pouco, mas o tratamento do Oscar é algo impressionante, como pudemos, eu e Sarinha, constatar anos depois.

Fomos convidados para assistir ao Oscar através de Tony Navarro, uma notável figura humana, ex-ator, figura super legal que era supervisor de publicidade para a América Latina da Warner Bros., de quem éramos publicistas em São Paulo.

Fernando voltou extasiado com duas mulheres presentes naquela noite do Chandler Pavillion (hoje substituído pela Kodak Theatre). Coisa difícil para um homem que foi casado com as dez mulheres mais bonitas do país,se deslumbrar com duas quarentonas estrangeiras?

Sophia LorenUma, hours concours de beleza em qualquer lugar do mundo, em qualquer época da historia - Sophia Loren. Ela entrou no teatro com o aplomb de uma rainha e um grande silêncio se fez notar na platéia enquanto ela caminhava altiva rumo ao seu lugar na primeira fila, com todo mundo de queixo caído, acompanhando seus passos com um olhar de admiração.

Outra, a maravilhosa atriz irlandesa (uma das preferidas de John Ford), Maureen O’Hara, escalada pelo Comitê para ser recepcionista do convidado. Ela o recebeu na porta da entrada, acompanhou-o até o hall do teatro, entregou o programa do dia e o levou a seu lugar previamente marcado.

Com todos os convidados, a coisa terminava aí. Mas com Fernando foi diferente, ele a acompanhou ao baile de gala e ficaram amigos, trocando cartões postais por muito tempo após sua partida.

Eu e Sarinha tivemos como recepcionista Ricardo Montalban. Fez todo o ritual, nos apresentou a Jack Nicholson, Burgess Meredith, Goldie Hawn e nos levou até nossa poltrona, desejando um bom espetáculo. Ai, tchau. Nunca mais o vimos. Fomos ao baile com Tony Navarro.

"Fernando gostava muito de viajar", escreveu o jornalista Ricardo A Setti, diretor de redação da Playboy, onde Fernando foi editor de moda masculina durante 26 anos, dos 35 que trabalhou na Editora Abril: Fernando de Barros provavelmente viajou mais que toda a redação da Playboy somada.

Viajamos juntos para o exterior, entre Estados Unidos, Panamá e Europa cinco vezes.

Uma vez em Nova York, um fato curioso; ele chegaria à cidade um dia depois da gente e fomos buscá-lo no Drake, o hotel onde se hospedou. Perguntamos por seu nome na portaria e a informação era de que não havia nenhum hospede com aquele nome lá.

Ficamos intrigados, exigimos uma verificação no computador, o funcionário do balcão estava suando em bicas, aí chamou o gerente e novas tentativas falhas: Sr. Barros não estava hospedado no hotel. Me deu um estalo: Tenta De Barros. Para eles, o sobrenome era De Barros, o nome Fernando. Bingo era ele. Nos divertimos muito com o incidente durante o dia todo.

Organizamos uma viagem para 12 jornalistas, a British Caledonian e o BTA-British Travel Auithority, para mostrar Londres e várias cidades do interior da Inglaterra, até o Pais de Gales.

Ao meio dia, Robert Telfer, presidente do BTA no Brasil (que era um inglês da velha guarda, fanático por pontualidade e compromissos respeitados), me telefona indignado dizendo que um dos jornalistas acabara de ligar cancelando a sua participação, por motivos familiares.

Para Telfer, ruiu o Império Britânico. Como ia explicar ao Ministro do Turismo da Grã Bretanha, que doze passageiros viraram onze, tinham que modificar reservas de hotéis, restaurantes, ingressos em museus e teatros?. “Não se preocupe”, eu disse. "V. terá seus doze convidados" E liguei para Fernando de Barros na certeza de que aceitaria a viagem para aquele mesmo dia. Seis horas da tarde, o carro que mandamos buscá-lo na Rua Paim, levou-o para Guarulhos, onde eu já tinha sua passagem na mão.

FERNANDO DE BARROS....O GLOBETROTER

Desde 1975 Fernando não parou de viajar. Correu o mundo assistindo aos mais importantes desfiles do mundo, fez inúmeras palestras sobre moda em Milão, Nova York e Florença, conheceu todos os grandes costureiros do mundo, com especial ênfase para Pierre Cardin, seu amigo particular.

Era amigo de Roberto Rosselini, Ingrid Bergman, Federico Fellini, Pietro Germi, Michelangelo Antonioni e Catherine Deneuve.

Em seu escritório, numa casa de fim de semana que mantinha em Sarapuí, ornamentava sua mesa de trabalho com fotos autografadas destas celebridades, ornando delicados porta-retratos, todos de prata.

Fernando não ditou só moda. Ditou comportamento. Sarapui é uma pequena cidade entre Sorocaba e Vitorantin. Deve ter menos de 1000 habitantes. Fernando comprou uma casa lá, em estilo colonial (devia ter 200 anos), reformou-a com seu bom gosto e fez dela seu refugio.

Foi logo imitado por Ignácio Loyola Brandão, Grazielle Crovi (com suas filhas Alessandra e Moema, do ex marido Alessandro Porro) e mais jornalistas e artistas que transformavam o fim de semana de Sarapuí num acontecimento cultural. Passamos deliciosos momentos lá.

Espero que seu filho, o Fernandinho Valeika de Barros tenha conservado a casa.A lembrança do Fernando merece.

Devo ao Fernando de Barros uma amizade de 40 anos e a felicidade de conhecer uma das mais carinhosas famílias do mundo da moda no Brasil. Convidado pela Air France para assistir ao show de Yves Montand no Teatro Municipal, eu não tinha smocking.

Pedi socorro ao Fernando que me levou para a Vila Romana, ainda na Lapa, antes de mudar para a Via Anhanguera. Não fabricavam smocking naquela época, mas a engenhosidade de Fernando funcionou. Descobriu um paletó de veludo preto, muito elegante e - parecia destinado para mim - acertou no meu corpo sem necessidade de fazer consertos.

Fernando disse: usa este paletó com uma calça preta que V. vai abafar.

Valeu ter conhecido naquela ocasião a família Brett, e uma amizade que se consolida até hoje, com os queridos Luiza, André e Ladislau sempre presentes nos bons e maus momentos de minha vida.

Um dos momentos mais comoventes de minha vida: fui ao Rio de Janeiro para assistir o show de Frank Sinatra no Maracanã. À tarde, no hotel assisti ao jogo de São Paulo na televisão e anunciaram um minuto de silencio em homenagem ao Sr. Estevlão Brett. O patriarca da família Brett - intimo amigo de Fernando de Barros - parou de fabricar ternos, uma das paixões de sua vida.

mkus@uol.com.br

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