Mauricio Kus
MARLENE SYLVIA BANDEIRA DIETRICH: AS PERNAS DO SÉCULO


Por Mauricio Kus, 25/04/2012 às 12:37

MARLENE DIETRICH

MARLENE SYLVIA BANDEIRA DIETRICH: AS PERNAS DO SÉCULO

A semelhança física, o mesmo porte elegante de duas mulheres bem nascidas, duas divas, figuras públicas e amada pelos fãs em duas época diferentes, tiveram um encontro no pequeno Teatro Nair Belo, fundindo suas carreiras em episódios semi biográficos da grande Marlene Dietrich, revividos pelo talento e graça da atriz Sylvia Bandeira.

O espetáculo Marlene Dietrich - as pernas do século, traz à tona uma figura que merecia um espetáculo dramático e musical, com informações sobre sua vida e carreira, para conhecimento dos jovens de hoje, já que Marlene Dietrich se retirou do cenário da vida em 6 de Maio de 1992, quando faleceu em seu exílio voluntário em Paris.

E Sylvia Bandeira resgatou esta biografia e nos brinda com um espetáculo comovente e delicado em que mostra os mais importantes lances da carreira de La Dietrich, sua coragem em desafiar o temível ditador Hitler, ao renunciar a cidadania alemã, para se tornar cidadã americana e ao recusar-se a voltar para Berlim para ser a “maior atriz do moderno cinema alemão do Terceiro Reich”, conforme insistentes apelos enviados por portadores do todo poderoso chefe de propaganda nazista, Joseph Goebels.

Sylvia Bandeira, nascida em Genebra, filha de um diplomata brasileiro foi modelo antes de se tornar atriz e participou de várias novelas de Globo e duas novelas na TV Record.

Sylvia Bandeira, como Marlene Dietrich nos palcos brasileiros.
MARLENE SYLVIA BANDEIRA DIETRICH

Há tempos vinha acalentando o sonho de interpretar nos palcos a legendária figura de Marlene Dietrich, uma das mais marcantes mulheres do século XX, a primeira a usar em público calças compridas, e uma das poucas pessoas na Alemanha que teve a coragem de afrontar a vontade do pintor de paredes austríaco, que se tornou o mais cruel e despótico ditador da história da humanidade, conduzindo o mundo à uma guerra que ceifou mais de dez milhões de vidas em cinco anos de conflagração mundial.

Realizou o sonho com a ajuda competente de uma união feliz de colaboradores de respeito: Aimar Labaki no texto;William Pereira na direção;nos arranjos e direção musical, Roberto Bahal, no cenário William Pereira;Marcelo Marques no figurino; Paulo Cesar Medeiros na iluminação; Beto Carramanhos no visagismo e Paulo Mazzoni na coreografia do tango.

E o elenco primoroso, encabeçado por Sylvia Bandeira, traz os atores José Mauro Brant, Marciah Luna Cabral e Silvio Ferrari.

Ouvimos alguns comentários de pessoas do público, lamentando que – por ser um musical – deveria ser mais luxuoso e com um elenco maior, inclusive corpo de baile. Discordei, pois o grande trunfo do espetáculo – além da comovente interpretação de Sylvia Bandeira “encarnando” Marlene, é o clima de cabaré (pequenos salões, com um palco de pequenas dimensões, onde se apresentavam os artistas da época em canções solo). Na Berlim dos anos 30, o cabaré era o grande ponto de encontro das pessoas e seu clima e ambientes intimistas proporcionavam o entretenimento entristecido pela visão próxima de uma hecatombe que se aproximava à medida que o Partido Nazista ganhava corpo e coro junto ao povo alemão.

Marlene Dietrich foi uma das grandes mulheres do século XX e morreu aos 92 anos. Foi cantora, sex symbol, sofisticada, sensual, livre no amor e no carinho tanto para os homens quando para as mulheres. Começou por baixo, foi violinista no fosso da orquestra dos cinemas de Berlim, trabalhou no vaudeville, circo, ballet e cabaré. Foi a grande estrela do cinema alemã nos anos 20, foi rainha em Hollywood nos anos 30 e 40, participou ativamente da II Grande Guerra, cantando e entretendo os soldados no front, com espetáculos debaixo do bombardeiro inimigo, além de ser campeã da venda de bônus de guerra contra seu país de nascença, a Alemanha.

Amou a vida intensamente e entre as pessoas que privavam de sua intimidade, conta-se com Jean Gabin,Gary Cooper, Edith Piaf, Jean Gabin, Jean Cocteau, Ernest Hemingway e Billy Wilder, além de sua única filha Maria Riva, a única a ser recebida em seu apartamento em Paris, já que – muito vaidosa – Marlene Dietrich não queria ser vista como uma velha nonagenária.

Como velho fã de Marlene Dietrich (não vi todos os filmes dela por indisponibilidade no mercado,mas assisti mais de 20)

Porque a Cinemateca não aproveita este momento de sucesso no palco para programar um tributo a Marlene, exibindo grande parte de seus filmes?

Ela esteve no Brasil, como parte de uma turnê internacional, atuando como cantora para a TV Record. Lembro que a entrevistei pessoalmente numa coletiva para a imprensa organizada no Buffet Sears, onde hoje é o Shopping Paulista. Ali havia uma loja da Sears Roebuck, que tinha uma boite, onde foi realizada a coletiva, à meia luz.

Marlene recebeu a imprensa, sentada em cima de um piano de cauda e com um longo brilhante, com uma fenda lateral. Cruzou as pernas e mostrou à imprensa com este gesto como eram as pernas do século.

Mas a coletiva foi inteligente, falou-se de política, da reconstrução da Alemanha, de democracia e da desnazificação da Alemanha. Uma Alemanha que a recebeu mal quando visitou o país para localizar sua mãe, logo após o fim da guerra. Alguns nazistas ressentidos ainda a julgavam uma traidora da Pátria.

Obrigado Sylvia Bandeira, por sua singela e comovida interpretação e também (eu não sabia) por sua bela voz como cantora. Obrigado por trazer à baila um mito que marcou o século passado e cuja história era só conhecida pelos cinéfilos mais antigos, que aos poucos vão saindo de cena e graças à sua pertinácia em montar este espetáculo ficaram conhecendo um pouco mais da história do cinema, e de um de seus maiores ídolos em todos os tempos.

mks@uol.com.br



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