Mauricio Kus
O PRIMEIRO OSCAR A GENTE NUNCA ESQUECE


Por Mauricio Kus, 19/02/2010 às 13:15

O PRIMEIRO OSCAR A GENTE NUNCA ESQUECE

 

Sem ter o brilho intelectual dos festivais europeus, o Prêmio Oscar é,  reconhecidamente, o mais famoso, disputado e desejado do planeta..

 

Provoca uma corrida de troca de DVDs no mês de dezembro, quando todos os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas têm que assistir os filmes concorrentes para mandar seu voto.

 

É um premio que visa divulgar, difundir e espalhar pelo mundo a indústria do cinema americano, seus ícones, astros e estrelas, diretores e produtores, técnicos e autores, compositores e músicos.

A estatueta dourada do Oscar, que dá premiação aos melhores do cinema, o fetiche de Hollywood nos últimos 81 anos, é ferozmente disputada antes da entrega, mas quando a recebem, muitos premiados a esnobam.

 

Ainda esta semana no programa “Inside the Actor’s Studio, apresentado no Brasil pela “Film & Arts”, da TVA, Angelina Jolie diz que deu a estatueta para sua mãe, ao invés de conservá-la em casa em lugar de destaque.

 

Muitos premiados não se dão ao luxo de mandar gravar o nome, já que a estatueta é entregue sem esta providencia, uma vez que o vencedor é segredo até o momento da entrega.


O Oscar foi apresentado pela primeira vez em 1927,  para promover os filmes das empresas ligadas à Academia de Arte e Ciências Cinematográficas, integrada por 36 membros, presididos pelo ator Douglas Fairnbanks.

 

No início os prêmios iam somente para o melhor desempenho dos principais atores, atrizes e diretores da indústria e com o passar do tempo, foram  incorporadas novas categorias.

 

Para desenhar a estatueta foi escolhido o diretor de arte do estúdio Metro Goldwyn Mayer, Cedric Gibbons.  É uma figura dourada de um cavaleiro nú e corpulento, de braços cruzados, segurando uma espada e parado sobre um rolo de filmagem.

 

A primeira cerimônia teve lugar em um jantar simples, em 16 de maio de 1929 no Hotel Roosevelt de Hollywood, coincidentalmente a poucos metros de onde hoje é realizado o Oscar, o Teatro Kodak, para onde se mudou há poucos anos, depois de ficar décadas no famoso Chandler Pavillion.

 

Numa das viagens a Los Angeles,eu e Sarinha visitamos o Hotel Roosevelt, já com ar decadente e, apesar de não ter o glamour e carisma do famoso vizinho Chinese Theatre, respirava o Oscar por suas paredes já mal cuidada e com visíveis sinais de que precisava de uma pintura nova.

Sarah Kus na calçada da fama de Hollywood.

 

Mas, o Roosevelt respirava Oscar, as pessoas sentem que paira no ar o fetiche do prêmio mais disputado do mundo.

 

Centenas de fotos em suas paredes, várias vitrines com a estatueta de celebridades que as doaram ao hotel, diplomas e objetos entregues pelos primeiros vencedores.

 

Na entrada do hotel, uma estatua de bronze.  Charles Chaplin, travestido de Carlitos, o Vagabundo, sentado num banco de jardim (a mesma homenagem que o Rio de Janeiro prestou ao poeta Carlos Drumond no calçadão de Ipanema).   Ninguém resiste sentar ao lado de Carlitos para um foto de lembrança.

 

Resolvemos almoçar no hotel para “relembrar o clima”.  Puro engano. Serviço desleixado, comida ruim, atendimento moroso, toalhas esgarçadas, sinais visíveis de decadência.  Estivemos lá há 10 anos, não sei se o Roosevelt foi fechado, reformado, demolido ou substituído por um arranha-céu.  Deveria ser restaurado e ficar como um monumento a este ícone americano que é o Prêmio Oscar.

 

Aproximadamente 3.000 estatuetas já foram entregues e uma das grandes honrarias em Hollywood é ser o apresentador da grande festa.

 

Bob Hope foi o apresentador que mais vezes conduziu a premiação, ao mesmo tempo em que  - durante a II Guerra Mundial – percorreu vários paises da Europa e da Ásia para apresentar shows e divertir os soldados americanos no front de guerra.

 

Encontrei-o em Paris, em 1989, no elevador do Hotel Paris Hilton.  Bob Hope, já com 94 anos, foi convidado pelo governo francês para participar das comemorações dos 200 anos da Revolução Francesa, e assim como nós, estava lá hospedado.  Emocionado, estendi a mão e o cumprimentei pela carreira e pelos trabalhos filantrópicos e sociais   realizados durante sua infindável carreira. Agradeceu sinceramente e disse que apreciava muito o Brasil, país de grande futuro.  Estava forte, rijo e bem disposto, para sua idade.

O troféu tem 34 cms de altura e pesa 3,85 quilos e só depois de alguns anos ganhou o nome Oscar, cuja origem tem várias versões, mas a mais plausível é que a encarregada da livraria da Academia e a eventual diretora executiva Margaret Herrick, a achava muito parecida com seu tio Oscar, E o nome pegou.

Em 1934, Sidney Skolsky, jornalista de Hollywood usou o nome Oscar para comentar o prêmio de melhor atriz recebido por Katharine Hepburn, mas a Academia só passou a utilizar o nome Oscar, oficialmente, em 1939.

 

A primeira cerimônia de entrega do prêmio durou só 15 minutos.  Hoje são mais de 60 troféus e a cada anos mais alguns são acrescidos, à medida que a tecnologia invade a cinematografia e novas formas de expressão aão acrescentados à indústria do cinema, inclusive prêmio excepcionais para corrigir falhas passadas e premiar quem sempre fez por merecer e não ganhou.

 

Vários anos a premiação foi transmitida pelo rádio e, quando a televisão chegou, a cerimônia ganhou ares de grande show e virou um imenso programa de televisão transmitido ao vivo para quase todos os paises do mundo, com bilhões de espectadores.

 

No Brasil, virou moda a festa do Oscar, em que alguém convidava amigos e jornalistas para um jantar ou coquetel e à meia noite todos se reuniam na sala – muitos sentados no chão – para assistir ao show da transmissão pela televisão. Faziam apostas e havia torcida organizada para alguns atores.

 

Inicialmente eram festas particulares e nesta badalação despontavam dois grandes organizadores de festas e eventos, saudosos e queridos Carlos

 

Armando Forino Rodrigues e Gilberto Pacheco, que abriam seus apartamentos para a noite do Oscar.

Eram vistos por lá, Mary Boccalato, Sidney Pereira, Nicete Bruno e Paulo Goulart, Maria Aparecida Saad, Etty Frazer, Consuelo Leandro, Silvio Caldas, cabelereiros, artistas plásticos, designers, arquitetos, costureiros e cirurgiões plásticos, amigos, muitos amigos.

 

O Oscar cresceu e festas mais públicas começaram a aparecer.

 

A empresa Playarte organizou um coquetel e projetou na tela do cine Playarte Iguatemi a imagem da Globo.

No ano seguinte, transferiu a festa para o Maksoud Plaza, ocupando o salão principal do hotel.

 

A Turner organizou um jantar com telões da transmissão no Hotel Meliá, com a presença de muitos atores globais.

 

Mas, a longa duração do espetáculo, a falta de concentração em meio à uma festa para assistir ao que parecia um interminável programa de TV, fez com que o Oscar fosse se desidratando entre nós, a ponto da Globo pensar seriamente em não apresentá-lo na integra, colocando no ar apenas flashes dos prêmios principais.

 

Em 1976 eu e Sarinha fomos convidados por Tony Navarro para assistir à entrega do Prêmio Oscar, a 48ª apresentação anual da academia, agora chamada de Academia Cinematográficas, Arte e Ciências. Seriam entregues os prêmios para os filmes produzidos em 1975. A festa foi no dia 29 de março de 1976.

 

Tony Navarro, um ex ator de Hollywood, cubano de nascimento, era supervisor de publicidade da Warner Bros na América do Sul e eu  era publicista da Warner no Brasil,

 

Fazia parte do Comitê de Premiação do Melhor Filme de Língua Estrangeira, e tinha como companheiros, entre outros, Ricardo Montalban, King Vidor, George Cukor, Nina Foch, Marge Champion, Bronislau Kapper.

Ser convidado da Academia é uma glória.  Fomos recepcionados no aeroporto de Los Angeles por uma limousine que nos levou ao Hotel Beverly Hilton, com a recomendação (no programa) de que o carro e o chauffer estavam à disposição para atender a toda a programação da Academia, com número do telefone e a pessoa encarregada de nos atender.

 

Tudo começou com uma entrevista coletiva à imprensa no Champaign Room do Beverly Wilshire Hotel.

À tarde, Tony Navarro nos convidou para um eoquetel informal na suíte de seu hotel. Como eram muitos convidados, os móveis foram retirados, foi montado um bar num dos cantos e todos sentaram no chão.  Já por isto mesmo, o convite dizia “informal.”.

 

Sentamos no chão e batemos papo com Jane Russell, Goldie Hawn, Telly Savalas, Joel Grey, Marisa Berenson, Richard Widmark, Angie Dickinson, Burt Bachara, George Segal, Jacqueline Bisset.e outros, muitos outros.

 

Ambiente descontraído, alegre, todos à vontade, sem pedidos de autografo ou pedido de fotos (praga que a facilidade dos celures com foto está disseminando e hoje é tão detestado pelas celebridades quantos os paparazzi, que não respeitam a individualidade e privacidade das pessoas).

 

Ainda fizemos um passeio a Disneylandia, e no dia seguinte, após manhã livre nos reunimos as 16 horas no apartamento de Tony Navarro para seguirmos juntos para a festa. Por questões de fuso horário com os paises para onde o show de TV é transmitido, a festa começa as 18 horas e em Los Angeles, nesta espoca do ano, escurece por volta de 21 horas.  Foi muito divertido no meio da tarde, sol a pino, os homens de black-tye a as mulhres elegantérrimas, de longo, muita jóia e maquiagem,  saindo para a festa mais formal do ano.

 

Quando chegamos fomos recebidos pessoalmente por Ricardo Montalban,que era nosso anfitrião oficial. Nos entregou o programa, os tickets com lugares marcados e circulou conosco pelo salão principal antes de nos encaminhar para nossos lugares.  De passagem fomos apresentados para Jack Nicholson, Charlote Rampling, Charles Bronson, Burgess Meredith, com um simples protocolar aperto de mão e “ muito prazer”, de ambos os lados.

 

Acabado o show formos para uma grande festa (mais de 20 são realizadas nesta noite), já exaustos e com sono, mas o sonho não acabou.  Há 4 mesas de distancia de nossa mesa, estava Elizabeth Taylor, divina e maravilhosa,desafiando o tempo e as doenças com uma beleza fulgurante, que provocou torcicolos na metade dos homens do salão.

 

Mas, com todo este brilho e charme, nada superou o meu primeiro Oscar.

 

Morávamos no Bom Retiro, na Rua Julio Conceição, nosso primeiro apartamento de casado.

 

Era o ano de 1969 e o Oscar ia ser apresentado pela televisão, com Bibi Ferreira conduzindo o programa em português.  Não tenho certeza, mas acho que foi a primeira vez que era transmitido ao vivo para o Brasil.

Convidamos o jovem Rubens Ewald Filho para nos fazer companhia e os três assistimos embasbacados aquele mundo de gente que admirávamos desfilando pela telinha. Vibramos com Robert  Redford e Paul Newman andando de bicicleta ao som da música Raindrops keep falling on my head.

 

De madrugada, após o término do programa Rubinho foi embora e nõs três curtimos ver de uma só vez, centenas de astros e estrelas que há muito povoavam o nosso ideário de tarados por cinema.

 

É, mesmo para quem depois foi a Hollywood acompanhar o Oscar (e  Rubinho, ao lado de Jorge Guinle, deve ser o brasileiro que mais vezes freqüentou a platéia do prêmio), o primeiro Oscar – na telinha – a gente nunca esquece....

 

 

mkus@uol.com.br

 



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