Mauricio Kus
JEAN-LOUIS TRINTIGNANT, O AMOR DO ATOR POR UMA OBRA DE ARTE E A FALTA DE CRITÉRIO DE UMA APRESENTADORA BRASILEIRA DE TV


Por Mauricio Kus, 03/11/2011 às 11:54

Pouco depois do fim dos governos militares no Brasil, começávamos a respirar um ar de liberdade e a permissão para exibição de quase uma centena de filmes que foram proibidos de ser mostrados em nosso país.  Dentre eles, a obra prima de Costa-Gavras, “Z”, produzida em 1969, e na geladeira por mais de 20 anos.

Estas duas décadas não impediram que o filme continuasse atual e refletisse – passados 20 anos – uma realidade presente em grande maioria dos países totalitários, ainda existentes naqueles anos. Felizmente, aos poucos, ditaduras e tiranos estão caindo como um bloco de cartas. (Vide a Primavera Árabe).

Gabriel Albicoco, representante da Gaumont no Brasil – a distribuidora de “Z” – estava tão entusiasmado com sua exibição que exigiu de Paris a vinda de um ator do filme para ajudar na divulgação.  Todos estavam comprometidos com outros trabalhos, inclusive Jean-Louis Trintignant, que se dispôs a uma maratona (quase um sacrifício) para atravessar o Atlântico e falar com a imprensa, para dar mais visibilidade ao filme político, uma forma de arte que os jovens, pelos menos, os mais moços - ainda não conheciam.

Jean-Louis tomou um avião da Air France numa quarta-feira à noite, dormiu no avião, desembarcou quinta-feira pela manhã, divulgou o filme e tomou outro Air France nesta mesma noite, atravessou o Atlântico, dormiu no avião,  e desembarcou em Paris na sexta-feira.  Sem cachê ou recompensa, (tudo por amor ao filme, e amizade a Costa Gavras e Albicoco), Jean-Louis Trintignant, tido como um dos mais intelectuais atores do cinema europeu, trabalhou em uma centena de filmes, atuando com diretores de prestigio, como Claude Lelouch, Costa Gavras, Roger Vadim, Abel Gance, Valério Zurlini, Dino Risi, Henri-Georges Clouzot, Claude Chabrol, Bernardo Berrtolucci, e até sua própria esposa Nadine Trintignant em “Le Voleur de crimes”, no qual sua filha Marie Trintignant estava no elenco.

Iniciou sua carreira em 1956, com Ralph Habib em “La loi des rues”, e parou de filmar em 2005, próximo dos 80 anos.

Sarah e Mauricio Kus e o ator francês Jean Louis Trintignant
Jean Louis Trintignant

Contracenou com as mais belas mulheres do cinema europeu, como Brigitte Bardot, Jeanne Moreau, Annette Vadim, Martine Carol, Claudia Cardinale, Michele Morgan, Catherine Spaak, Romy Schneider, Monica Vitti, Stefania Sandrelli, Charlotte Rampling e a própria filha Marie Trintignant. Seus maiores sucessos de público foram “Um homem e uma mulher” e “Um homem, uma mulher 20 anos depois”, ambos dirigidos por Claude Lelouch, contracenando com Anouk Aimeé.

Avisados em cima da hora, de sua chegada, não foi possível organizar uma pré estréia para apresentá-lo ao público, portanto confiamos (eu e Sarinha, responsáveis pela divulgação do filme) numa mini coletiva com os mais importantes críticos de cinema de São Paulo e Rio de Janeiro, com ênfase para a revista Veja (cobertura nacional), que produziu uma bela entrevista conduzida pelo saudoso critico e repórter Casimiro de Mendonça.

Organizamos um almoço no Restaurante Rodeio, para dar chance a que Jean-Louis, depois, tomasse um banho e uma soneca numa suíte de hotel, mas Albicoco queria mais,  e pressionou por um programa de televisão.

Por exigüidade de tempo não foi possível conseguir gravação ou entrevista ao vivo em nenhuma estação de TV e Albicoco achou pouco, alguns segundos de filmagem para o jornal noticioso do dia. Arriscamos uma decisão – um pouco temerária – mas com muita chance de dar certo.  Telefonamos para Clarice Amaral, então dona de horário da tarde, pedindo que cancelasse uma entrevista para encaixar Jean-Louis Trintignant.

Perdemos alguns minutos preciosos tentando explicar quem era ele e ela topou.
Nos comprometemos a levar o ator diretamente da TV Gazeta para o aeroporto, afim de tomar o avião de volta a Paris, imediatamente após o fim da entrevista.

Quando chegamos na TV Gazeta, Clarice havia sido informada pelo seu produtor, que ele fora namorado de Brigitte Bardot. Prevendo que ela pudesse perguntar uma besteira deste quilate, levamos por escrito todas as perguntas que ela deveria fazer.

Na conversa preliminar, ela citou o caso Brigitte e o ator foi enfático: “Peço que não toque neste assunto ou qualquer outro de minha vida particular. Vim aqui para promover o filme “Z”, obra de arte política de um dos mais renomados diretores da cinematografia mundial e não podemos perder tempo com fofocas e comentários da vida pessoal.

Deixamos isto por acertado com a Clarice Amaral. Mas, acho que ela não agüentou o impulso e sua primeira pergunta foi “Como está o seu caso com Brigitte Bardot?”. Jean-Louis olhou fundo nos olhos dela, mirou a câmera, fez uma expressão de desagrado, levantou-se e foi embora.

Era um programa transmitido ao vivo, não havia como a direção corrigir o tape gravado. Foi ar como aconteceu, e graças à pouca audiência do programa, a repercussão não foi muito grande.

Alguns meses mais tarde, o programa de Clarice Amaral foi retirado do ar e Jean-Louis Trintignant continuou filmando até quase 20 anos depois.

Mauricio Kus

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