Mauricio Kus
O PRIMEIRO CINEMA A GENTE NUNCA ESQUECE


Por Mauricio Kus, 04/11/2009 às 12:24

O PRIMEIRO CINEMA A GENTE NUNCA ESQUECE

 

Duas matérias publicadas no Estadão de sábado, 31 de outubro chamaram minha atenção para a presente crônica.  Todos lembram dos cinemas que fecham, deploram que os shoppings absorveram os cinemas de rua, reclamam da falta de apoio de empresários culturais, mas quantos lembram qual foi o primeiro cinema de sua vida, qual o momento onde travaram conhecimento com este maravilhoso mundo de luz e sombra que é o cinema?

A primeira nota vem de Campinas, anunciando o fechamento (depois de 26 anos) do cine Paradiso, no centro da cidade.  Os proprietários alegam perdas com pirataria, falta de dinheiro e de público, concorrência e inexistência de patrocinadores, que os levaram a dividas e o fechamento do cinema.

Tentaram uma cartada cultural para não encerrar as atividades :exibir filmes nacionais, gratuitamente, fora do circuito comercial, mas não houve patrocinadores que se interessaram em bancar a iniciativa. Baixou as portas.

Outra noticia vem do Rio de Janeiro, onde o cine Iria, o mais antigo cinema da cidade está completando 100 anos de atividades.  Carioca adora festa e fizeram um bolo de 15 metros em plena rua, no centro da cidade. O cinema é dirigido hoje pela neta do fundador e no prédio, bem de família,funciona nos andares de cima, uma escola de ballet.  Marilia Pêra prestigiou o evento, justificando que sua avó Dinorah Marzulo Pêra era assídua freqüentadora do velho Íris.

O cinema abriu como Cinematographo Soberano, e personalidades como Ruy Barbosa, tinham cadeira cativa em sua platéia. A atual proprietária tentou tudo para manter o cinema funcionando sem grandes prejuízos: desamparada pelos grandes circuitos, exibia filmes de kung fu e nos últimos tempos exibe filmes pornô, mesclados com exibição ao vivo de 9 bailarinas.Recusou ofertas milionárias da Igreja Universal e de vários supermercados.Não agüentaria ver cem anos de tradição, reduzidos a tão triste fim.  Por isto, está batalhando para encontrar um parceiro ou investidores para restaurar o prédio e transformá-lo em um centro cultural.

Estas notas do jornal me fizeram lembrar de como, aos 12 anos, convenci meu pai a me deixar ir sozinho ao cinema, ao primeiro cinema, aquele que a gente nunca esquece.  Chamava-se  Cine Lux e ficava no primeiro quarteirão à direita da Rua Jose Paulino, demolido anos depois para a construção de um shopping center, onde coreanos e judeus vendem engenhocas eletrônicas e confecções, no atacado e no varejo até hoje.

Pouca gente tinha carro naquele tempo e por isto, freqüentávam cinemas de bairro, a única diversão disponível, principalmente nos tempos em que a televisão ainda engatinhava e não era tão acessível como é hoje.  Poucas famílias dispunham de verba para aquele “acessório de luxo”.

O Cine Lux era o típico cinema de bairro.  Praticamente todos os bairros de São Paulo tinham um ou mais cinemas, dependendo do número de habitantes de seu entorno.

Os cinemas mais chics ficavam no centro da cidade, na chamada Cinelândia paulistana,como era chamado o trecho da Av. São João,  do Largo Paisandu até a Av.Ipiranga, onde se destacavam o Ipiranga e o Marabá.



Os cinemas não tinham estas verdadeiras lanchonetes de hoje, nem se praticava a pipocamania com Coca Cola.  Havia um pequeno balcão de vidro com pequenas barras de chocolate e bombom Sonho de  Valsa, pomposamente chamadas de bombonière. No interior da sala, uma jovem com um tabuleiro sobre a cintura,apoiado com uma cordinha sobre o pescoço, apregoava, balas, bombom, chocolate e atendia o pessoal sentado na fila de sua poltrona. Eram as chamadas baleiras.

Os cinemas de bairro tinham programa duplo e funcionavam só à noite. Geralmente a sessão se iniciava às 19 horas com o primeiro filme exibia a seguir o filme principal e, depois repetia o primeiro filme.  Os filmes eram exibidos de segunda a quarta-feira. De quinta a domingo entrava nova programção.  No domingo tinha matinèe, com exibição do filme em série, a alegria da garotada.

A característica principal dos filmes em série, que eram exibidos em 12 episódios, era o final, quando o mocinho ou a mocinha corriam perigo e risco de serem mortos pelos facinorosos bandidos. No episódios seguinte, uma semana depois, repetiam-se dos 2 ou 3 minutos finais, mas aparecia um milagre salvador e os heróis se safavam.  Buck Rogers e o Planeta Mongo foi um dos mais famosos e se antecipou aos filmes de ficção cientifica, que viriam muitos anos depois.

As poltronas eram de madeira e o piso, também de madeira, sem carpete, o que fazia a garotada bater o pé com força no chão, quando o mocinho estava ameaçado pelos bandidos, fazendo um barulho ensurdecedor.

Os cinemas não tinham a enxurrada de comerciais que temos hoje e somente um ou dois trailers eram exibidos antes de começar o filme.  Mas os donos de cinema sabiam como ganhar um dinheirinho extra: Os cinemas tinham um telão gigantesco, que como uma cortina, cobriam todo o palco. Eram chamados pano de boca e tinham dezenas de quadrados anunciando a loja da esquina, o armazém do Seu Manuel e produtos de consumo, toscamente pintados à mão.

Cada cinema tinha um guarda-civil, com uniforme azul de gala, polainas e luvas brancas, uma espadinha pendurada num cinturão branco, que lhe dava um ar de fuzileiro naval americana em porta de embaixada do país de Tio Sam. Não havia violência na cidade e a Radio Patrulha (assim se chamava a corporação policial que antecedeu a Policia Militar), podia dispensar seus homens do patrulhamento ostensivo para ficar nos cinemas.

Os cinemas do centro eram mais sofisticados, estreavam os filmes, que depois iam para os cinemas de bairro.  O esquema de exibição era vertical, Quando saiam de cartaz do cinema de lançamento,  os filmes iam passando para outros cinemas de acordo com sua importância, localização ou conveniência dos circuitos exibidores. Só depois é que iam para o interior.

Ali existiam o Ufa-Palacio, que começou passando filmes alemães da Ufa (a amior produtora alemã de antes da guerra) e mais tarde foi cooptado pela Cia.Cinemtográfica Serrador, que lhe deu o nome de Art Palácio. Tinha 1.200 lugares quando abria o balcão; o Ritz, que Paulo Sá Pinto reformou e transformou no Rivoli, com apresentação de orquestra de 100 figuras antes do filme e introduziu, pela primeira vez no país, lugares numerados; tinha o Ipiranga, com elevador para o balcão e um show de órgão, como se fora um Radio City tupiniquim; tinha o Marabá que já foi o mais luxuoso cinema de São Paulo, sofreu período de decadência e foi inteiramente reformado (mantidas as exigências de ser um patrimônio tombado) e, juntamente com o vizinho Brahma Bar, representam a modernidade do lugar e um possível ponto de partida para a reurbanização e revitalização da cinelandia, como foi feito, com êxito, em Nova York; o cine Bandeirantes também sofreu grande reforma, foi modernizado, mas não agüentou a decadência do centro novo, e havia também o Broadway, que não tinha programação definida. Teve fase de exibir exclusivamente filmes mexicanos e “inventou” o cinema cientifico. Numa época em que São Paulo era provinciano, importou vários documentários sobre doenças venéreas, que no fundo eram educativos, mas tinha mulher nua sendo examinadas pelos médicos,, explicações de como o sexo devia ser seguro e com esta mensagem, lotava todas as sessões por semanas seguidas. Um filme chamado “Veneno branco” ficou seis meses em exibição, com casa lotadas.

Uma terceira vertente foram os chamados cinema poeira, localizados no centro velho da Cidade de São Paulo, partindo da Praça da Sé e atravessando o chamado triângulo do Largo São Bento.



São Paulo que já teve aproximadamente 1000 cinemas de rua, tem hoje 260 salas, maioria absoluta em shoppings.  Falaremos disto depois, na próxima crônica.

 



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