Mauricio Kus
DEPOIS DE MILTON NASCIMENTO É A VEZ DE LUPICINIO RODRIGUES TER UM ESPETÁCULO MUSICAL EM CARTAZ EM SÃO PAULO


Por Mauricio Kus, 29/04/2013 às 14:25

Recentemente tivemos uma temporada vitoriosa retratando a vida e a música de Tim Maia. No momento está em cartaz em São Paulo um espetáculo dedicado a Milton Nascimento e agora, graças à iniciativa de duas empreendedoras batalhadoras do teatro brasileiro, temos em cartaz o espetáculo “Vingança, que retrata episódios da vida e da música de Lupicínio Rodrigues, o gaucho que criou a música “dor de cotovelo” e fez chorar milhares de apaixonados pelo Brasil afora. A produção é assinada por Selma Morente e Célia Forte, titulares da empresa Morente Forte Comunicações, responsáveis pela divulgação e promoção de quase 8 entre 10 espetáculos apresentados em São Paulo. Ambas partem agora para a Morente & Forte Produções, o braço empresarial de sua empresa de comunicações e certamente, após “Vingança” devem produzir outros bons espetáculos, noticia alvissareira para quem gosta de teatro. “Vingança” está em cartaz até o próximo dia 4 de julho, às 3ªs,4ªs. e 5ªs feira, às 20 horas. Para quem trabalha no Triângulo no Velho Centro é uma ótima pedida. Melhor que um happy hour no boteco e muito mais barato, além de oferecer a oportunidade de conhecer um dos centros culturais mais bonitos de São Paulo, o Centro Cultural Banco do Brasil e seu teatro.



Lupicínio Rodrigues era um paisagista dos sentimentos. Seu universo era feito da noite, de paixões impossíveis, da boemia alegre e dos desencontros amorosos – e os personagens mais assíduos de suas canções eram “os homens infiéis e as mulheres más”. Lupicínio Rodrigues foi o inventor da expressão “dor-de-cotovelo”. Foi numa de suas crônicas no jornal Ultima Hora que a expressão surgiu pela primeira vez, usada para descrever a dor da solidão, provocada pelo tempo em que o sujeito solitário passava com o queixo apoiado sobre o cotovelo no balcão do bar.

Fã confessa da obra e escritos de Lupicínio, a atriz, cantora - e agora dramaturga - Anna Toledo mergulhou nesse mundo, idealizou e criou VINGANÇA, o musical que recria, através da música, do drama, da ironia e do sarcasmo, o universo de paixões descrito em Vingança, Volta, Esses moços, Maria Rosa, Nunca, Cadeira vazia, Ela disse-me assim, Foi assim, Nervos de aço, Quem há de dizer, Felicidade, Se acaso você chegasse, clássicos do cancioneiro brasileiro e paisagens riquíssimas da alma humana.

Na montagem, o diretor André Dias recria a atmosfera do Sul do Brasil dos anos 50, reforçada nos figurinos de Fábio Namatame.

Vingança narra a história de três triângulos amorosos, tendo como pano de fundo a efervescência passional do "samba-canção". A música, a boemia e a paixão são o fio condutor de uma trama onde os papéis de traído e traidor alternam-se numa intrincada ironia do destino.

No vértice dos triângulos está a dançarina Maria Rosa (Ana Carolina Machado), uma mulher envolvente e sedutora. Ela vive sob a proteção de Alves (Luciano Andrey), um perigoso contraventor, homem possessivo e violento.

Maria Rosa trabalha como dançarina no cabaré de Orlando (Sérgio Rufino), e é lá que conhece Liduíno (Jonathas Joba), um respeitável homem de família e boêmio notório, com quem inicia um tórrido caso de amor. Liduíno é casado com Luzita (Anna Toledo), mulher vitimizada e reprimida, que carrega a amargura da traição. Luzita tem segredos no seu passado e aos poucos descobre que a paixão que Orlando, o melhor amigo de seu marido, nutre por ela pode ser usada a seu favor.

Mas ainda há mais um vértice neste polígono amoroso: Linda (Andrea Marquee), uma mulher humilde, mas ambiciosa, que trabalha de dia na casa de Luzita e Liduíno, como empregada doméstica, e à noite como cantora no cabaré de Orlando. Linda é apaixonada por Alves, seu antigo amante, e fará de tudo para afastá-lo da fatal Maria Rosa, sem medir as conseqüências de seus atos.

As canções de Lupicínio são executadas ao vivo, em novos arranjos criados por Guilherme Terra especialmente para o espetáculo, na formação instrumental de piano, violão e percussão e arranjos vocais para o elenco

O gênero musical que consagrou Lupicínio Rodrigues foi, sem dúvida, o samba-canção – gênero disseminado a partir do final dos anos 30, popularizado pela rádio, por seu caráter romântico, que carrega influências de outros ritmos latinos, como o bolero. Nenhum outro autor brasileiro compôs tantos sucessos dentro deste estilo – o ritmo dançante, as melodias carregadas de drama e as letras altamente inflamáveis de canções como Ela Disse-Me Assim, Volta e Vingança, marcaram os anos 40 e 50. Ainda assim, o compositor gaúcho também escreveu sambas, marchinhas de carnaval, valsas, xotes (e o Hino do Grêmio Futebol Clube, para o qual torcia). A produção musical de Lupicínio Rodrigues é prolífica, representativa de uma época (pré-Bossa Nova) incrivelmente fértil e com uma identidade dramática acentuada.

A música Vingança foi o maior sucesso comercial de Lupicínio Rodrigues. Composta por Lupicínio como um desabafo diante da traição de Mercedes, uma de suas muitas namoradas, a música foi gravada por Linda Batista em 1951 e fez sucesso até no Japão. Com o dinheiro que ganhou naquele ano, Lupicínio comprou um carro e batizou-o de “Vingança”.

"Toda vez que uma mulher me trai, eu ganho dinheiro", costumava dizer Lupicínio Rodrigues, afirmando que só escrevia sobre experiências vividas por ele ou por seus amigos. “As mulheres boazinhas nunca me deram dinheiro, só as que me traíram”.

Apesar de tantas aventuras amorosas narradas em suas canções – supostamente autobiográficas – Lupicínio Rodrigues era pai de família e marido dedicado de Dona Cerenita, com quem viveu até o ano de sua morte, 1974. Para ela, Lupicínio compôs a canção Exemplo, sucesso na voz do cantor Jamelão, que diz: “é melhor brigar juntos do que chorar separados”.

VINGANÇA - Musical Lupicínio Rodrigues

O COMPOSITOR
Lupicínio Rodrigues (1914 - 1974) foi um dos mais populares compositores brasileiros. Quarto filho numa família de 21 irmãos, Lupe, como era chamado desde pequeno, nasceu numa vila pobre instalada no bairro da Cidade Baixa, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Nunca saiu da capital gaúcha, a não ser por uns meses em 1939, para conhecer o ambiente musical carioca. Porto Alegre era seu berço querido e todo o seu universo. Mas isto nunca limitou o alcance de sua obra.

Em 1932, já havia lançado o sucesso “Felicidade”. Trabalhou como bedel da Faculdade de Direito da UFRGS, até aposentar-se precocemente por motivos de saúde, em 1947. A esta altura, já era um compositor consagrado nacionalmente, tendo suas músicas gravadas por estrelas do rádio como Francisco Alves, Ciro Monteiro e Linda Batista. Boêmio, foi proprietário de diversos bares, que seguidamente ia abrindo e fechando, tudo apenas para ter, antes do lucro, um local para encontro com os amigos.

Lupicínio buscou em sua própria vida a inspiração para suas canções, onde a traição e o amor andavam sempre juntos. Famoso pela franqueza com que expressava seus sentimentos na música, e apesar de viver casado desde a juventude com a mesma mulher, acreditava que um homem devia ter uma esposa dentro de casa e várias mulheres na boemia. Constantemente abandonado pelas amantes, Lupicínio brincava dizendo: “cada vez que sou traído, escrevo uma música e compro um carro novo”.

Nos anos 70 sua música foi redescoberta pela geração Tropicalista e MPB: Caetano Veloso gravou “Felicidade”, Gal Costa gravou “Cadeira Vazia” e “Volta”, Gilberto Gil gravou “Quem Há de Dizer”, Elis Regina gravou “Maria Rosa” e Paulinho da Viola fez sucesso com “Nervos de Aço”. Nas décadas seguintes foi regravado por Fábio Jr, Arnaldo Antunes, Ivete Sangalo, Elza Soares, Paulinho da Viola e tantos outros.

Deixou cerca de uma centena e meia de canções editadas; outras centenas que compôs foram perdidas, esquecidas ou estão à espera de quem as resgate. Torcedor do Grêmio, compôs o hino do tricolor em 1953. Seu retrato está na Galeria dos Gremistas Imortais, no salão nobre do clube. Na ocasião da sua morte, em agosto de 1973, uma multidão acompanhou o cortejo fúnebre pelas ruas, cantando “Se Acaso Você Chegasse”. Neste dia, os bares de Porto Alegre permaneceram fechados em homenagem ao seu boêmio mais ilustre.

Em Vingança, o musical
Dança

As canções que fizeram a fama de Lupicínio também eram sucesso estrondoso nos salões de baile. Combinando estas informações – a dança de salão, o conteúdo emocional das canções – chegou-se à coreografia do espetáculo que pontua, de forma orgânica, as cenas de sedução, amor e disputa.

O conceito coreográfico do espetáculo é o de incorporar a linguagem da dança de salão para a partitura corporal dos personagens, de forma que eles estejam sempre se comunicando através de uma dança, sendo mais adequado o termo Direção de Movimento dos atores em cena.

Cenário
A ação acontece em três ambientes: o Cabaré Melodrama (domínio de Linda e Orlando), o quarto da pensão dos amantes (domínio de Maria Rosa e Alves) e a sala da família (domínio de Luzita e Liduíno). O palco também se transforma em cenário de shows para Linda e Maria Rosa, as vedetes do cabaré. As transições são leves e dinâmicas e a ação muitas vezes ocorre em mais de um plano.

Figurino
Os figurinos do espetáculo recriam a atmosfera romântica dos cabarés dos anos 50 no Sul do Brasil. É uma região mais fria, subtropical, que recebeu a maior parte da imigração européia (principalmente italianos e alemães) no início do século XX.

As influências refletem-se em cores masculinas sóbrias, na elegância e corte sofisticado para ambos os gêneros. Homens usam chapéus, camisas, ternos de cores variadas. Para as mulheres, em geral: saltos altos e vestidos. Há certa “gravidade” e sobriedade nos vestidos de Luzita, a esposa, em contraste com a sensualidade dos vestidos de Maria Rosa, a dançarina, e da alegre exuberância de Linda, a cantora.

mkus@uol.com.br

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