Mauricio Kus
MARLENE DIETRICH - A ATRIZ ALEMÃ QUE DESAFIOU HITLER


Por Mauricio Kus, 13/12/2010 às 11:36



Agora, no dia 27 de Dezembro, se viva, uma das maiores divas de todos os tempos, Marie Magdelene Dietrich von Losch, estaria completando 99 anos.

Conhecida como Marlene Dietrich fez teatro, televisão, cinema e foi cantora de grande sucesso, tendo feito várias tournês internacionais, numa das quais, em 1959, passou pelo Brasil e fez um estrondoso sucesso no show do Copacabana Palace, levando a platéia ao delírio, quando cantou “Luar do sertão”, com aquela voz rouca e sotaque alemão. Tinha 60 anos, mas quando aparecia no palco, com um vestido negro colado ao corpo (delineando suas formas perfeitas), tinha o entusiasmo de uma jovem e parecia provocantemente sexy.

Nascida na Alemanha, em Schoneberg, distrito de Berlim, a 27 de dezembro de 1901, faleceu em Paris em 6 de maio de 1992, naturalizada estadunidense.

Era a mais nova de duas filhas de Louis Erich Otto Dietrich e Wilhelmina Elisabeth Josephine Dietrich. A mãe de Marlene era de uma família abastada de Berlim, que tinha uma fábrica de relógios e seu pai era um tenente de policia, morto em 1911. Seu melhor amigo, Eduard von Losch, um aristocrata, primeiro tenente dos Granadeiros, cortejou Wilhelmina e mais tarde se casou com ela em 1916,mas morreu logo depois, como resultado de ferimentos sofridos durante a Primeira Guerra Mundial.

Desde cedo inclinada para as artes, Marlene fez escola de arte cênicas e participou de filmes mudos até 1930. Em 1921 casou-se com um assistente de diretor chamado Rudolf Sieber, e teve uma única filha, Maria, nascida em 1924.

Estreou no teatro aos 23 anos de idade, fazendo cinco anos de carreira no palco, até ser descoberta pelo diretor austríaco Josef von Sterenberg, que a convidou para estrelar o filme “Anjo Azul”, em 1930. Baseado no romance de Heinrich Mann “Professor Unrat”, “Anjo Azul” foi o filme que marcou a trajetória de Marlene Dietrich e assim foi chamada e reconhecida por muitos anos.

Fizeram sete filmes juntos. Além do “Anjo Azul”,”Marrocos (1930),”Desonrada” (1931), “O Expresso de Shangai” (1932), “A Vênus Loira” (1932), “A Imperatriz Galante” (1934) e “Mulher Satânica” (1935).

Chamada por Hollywood foi para os Estados Unidos, onde se tornou um dos maiores mitos do cinema, realizando 28 filmes americanos, ao lado dos maiores nomes da tela em sua época: Tyrone Power, Spencer Tracy, Orson Welles, David Niven, Charlton Heston, James Stewart, e Charles Boyer. Em seu último filme “Just a gigolô”, contracenou com David Bowie, em 1978, quando abandonou o cinema, para se refugiar em Paris, onde veio a morrer em 1992.

Vendo o sucesso daquela jovem alemã nos Estados Unidos, Hitler a convidou para protagonizar filmes pró-nazistas, mas ela recusou o convite e se tornou cidadã estadunidense, o que o ditador alemão tomou como um desrespeito para a pátria mães (mutter land), e chamou Dietrich de traidora.

Ativista anti-nazista, ela deu o troco. Durante a Segunda Guerra Mundial, Marlene foi ao encontro das tropas aliadas, onde cantava para divertir e aliviar a dor dos soldados. Condecorada com medalha após a guerra, Marlene descobriu um dom que poderia explorar: a voz. Assim, começou a cantar além de atuar, A partir de 1951, começa a se apresentar em espetáculos em Las Vegas, no Sahara Hotel.

Em 1961 Marlene participou em um filme que quebraria barreiras e chocaria o mundo com um assunto que ainda assustava. O filme “Julgamento de Nuremberg”, tratava do holocausto, do nazismo e do tumultuado julgamento que condenou os grandes lideres nazistas.

Em turnês mundiais, ela visitou inúmeros paises. Voltou para sua pátria, a Alemanha, apenas em 1962 num retorno não agradou a todos alemães. Os nazistas remanescentes a chamavam de traidora em pleno aeroporto. Marlene tinha em Berlim uma de suas melhores amigas, a também talentosa e atriz Hildegard Knef, que chegou a fazer alguns filmes nos Estados Unidos.

Ficou reclusa em seu apartamento em Paris, até morrer aos 90 anos de idade, de causas naturais. Porém, comentários da época davam conta de que ela se suicidou com calmantes, pois não suportava o fato de envelhecer. Outros diziam que ela tinha Mal de Alzheimer e, por isso, se matou, mas não há fatos que comprovem esses comentários.

Entrevistei Marlene Dietrich no antigo espaço da Sears, local que hoje é o Shopping Paulista, na praça Oswaldo Cruz. Até hoje quando passo naquele local, lembro com saudade de Marlene Dietrich e de outro ícone que lá entrevistei: Nat King Colle, dedilhando ao piano, enquanto falava com os repórteres.

Descontraída, sentada ao lado de um piano, enfrentou meia dúzia de jornalistas e contou fatos de sua carreira, mostrou-se surpresa com um Brasil, inteiramente diferente do que os filmes de Carmem Miranda ( disse ter assistido todos) aparentavam fossem os brasileiros. Politizada, mostrou-se favorável à redemocratização da Alemanha, apoiando os esforços de reconstrução do país pelos aliados. Indagada se voltaria a fazer filmes na Alemanha, respondeu: “Nunca mais”.

Em 2001 foi realizado um filme biográfico sobre Marlene, dirigida pelo seu neto e com comentários de várias pessoas que conviveram com ela, como sua filha Maria Riva, seu sobrinho, Hildegard Knef (sua melhor amiga), Burt Bacharach, o filho de Von Sternberg e vários outros depoimentos.

Foi indicada para o Oscar de 1931, na categoria de melhor atriz,pela atuação em “Marrocos”. Em 1958 foi indicada ao Globo de Ouro, na categoria de melhor atriz de cinema-drama, por “Testemunha de acusação” (1957). No mesmo ano recebeu o Golden Laurel, como segunda colocada na categoria de melhor atriz por “Testemunha de acusação”.

Maria Riva escreve um livro sobre sua mãe, no qual a declarava uma pessoa fria e autoritária.

Era uma mulher à frente de seu tempo. Além da coragem de desafiar Hitler (apesar de ser alemã de nascimento), foi a primeira mulher a usar calças compridas, publicamente, anos 1920. 

mkus@uol.com.br

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