Mauricio Kus
CÔNEGO DOMÊNICO RANGONI, A FIGURA MAIS ILUSTRE DO GUARUJÁ COMPLETARIA 99 ANOS NO DIA 1º DE MARÇO


Por Mauricio Kus, 27/02/2014 às 12:6

Nascido há 99 anos na Italia, em Medina, província de Bologna, no dia 1º de março de 1915, o padre Cônego Domênico Rangoni, filho de Ettore Rangoni e de Rosa Sarmenghi Rangoni, tornou-se sacerdote em 29 de Junho de 1938, na Catedral de Turim.

Nomeado para vigário da Paróquia Nossa Senhora de Fátima e Santo Amaro, chegou à cidade em 14 de março de 1954 ao Guarujá, onde ficou até 5 de janeiro de 1976.

CÔNEGO DOMÊNICO RANGONI

Guarujá, então era um local praticamente deserto, com apenas Pitangueiras formado por prédios de alto padrão construídos por paulistas endinheirados que esperavam encontrar na chamada Ilha de Santo Amaro um lugar tranquilo para passar seus fins de semana e férias com a família. O local era quase inacessível, ligado por uma balsa que saia da Ponta da Praia em Santos. Apesar do pouco número de carros existentes na época, o tempo de espera para conseguir um lugar na bolsa era de 3 a 4 horas, o que garantia a privacidade dos turistas e proprietários de apartamentos. Falava-se muito em uma estrada que acabaria ligando Guarujá por terra, e efetivamente alguns anos depois, foi inaugurada a Estrada de Piaçaguera, hoje rebatizada com o nome de Cônego Dômenico Rangoni, como é conhecida pelos motoristas mais jovens que seguem seu rumo logo após o término da Estrada dos Imigrantes e chegam ao Guarujá, sem os inconvenientes e demora causados pela travessia de balsa.

A estrada tem 30 km de extensão e um túnel e em dias de pouco movimento pode ser percorrida em menos de meia hora. Alguns trechos estão sendo ampliados para 3 pistas.

Mas, porque o Cônego Domênico Rangoni mereceu esta honraria e tem seu nome nas placas das mais importantes obras sociais de Guarujá, inclusive um hospital que - fundado com o nome de Santo Amaro - teve seu nome modificado por perpetuar a memória do ilustre clérigo?.

Porque revolucionou a cidade e, com a cooperação de vários prefeitos que passaram pelo período em que estava à frente da paróquia de Nossa Senhora de Fátima e Santo Amaro, construiu inúmeras obras de alcance social, procurando melhorar a vida dos caiçaras. Guarujá, então frequentados aos fins de semana, feriados e temporada, vivia uma fase de grande desigualdade social, com uma pequena parte da cidade frequentada pela elite paulistana e, nas demais áreas encontravam-se moradores de rua e pessoas doentes.

Enviado pelo bispo diocesiano de Santos, Dom Idilio José Soares, o padre Don Domênico foi encarregado de cuidar da paróquia de Nossa Senhora de Fátima e Santo Amaro, tendo como primeira missão coordenar a conclusão da construção da Igreja Matriz, algo que conseguiu realizar em menos de um ano.

Dedicou-se inicialmente aos trabalhos pastorais e atuou em toda a região da Ilha de Santo Amaro, orientando e conscientizando a população no cumprimento aos ensinamentos dos evangelhos , pregando com bastante ênfase o ato da caridade.

Ele participou também da construção da capela São Paulo, na Enseada; capela do Cristo Rei, em Pernambuco; e executou melhorias na capela do distrito de Vicente de Carvalho, construindo acomodações para a moradia do novo vigário, que ele mesmo conseguiu junto à Congregação de São Carlos.

Após cuidar das estruturas das ações paroquiais, Don Domênico dedicou-se ao trabalho social em prol dos habitantes cidade, os chamados caiçaras. Na desigualdade social existente, as mulheres grávidas dependiam de parteiras para dar a luz nos barracos de madeira ou tinham que se deslocar para Santos.

Em parceria com o prefeito Domingos de Souza, construiu o primeiro pronto-socorro da cidade, posteriormente transformado em maternidade. Don Domênico foi mais além e construiu um hospital geral com capacidade para 400 leitos que batizou com o nome de Santo Amaro, padroeiro da cidade. Posteriormente foi rebatizado como Hospital Don Domênico Rangoni, como é conhecido hoje. Construiu um posto médico na praia de Pernambuco para atender à população carente da área.

Construiu também uma creche “Ninho Maternal”, com compacidade para assistir 300 menores, pioneira no atendimento a criança do município. Construiu o centro educacional “Don Domênico”, com uma biblioteca, uma escola de educação infantil, fundamental e médio, centro comunitário e a “faculdade de educação de ciências letras”.

Era um homem extrovertido, sempre alegre com jeito de bom vivant, um grande político que sabia como lidar com os empresários ricos que frequentavam as mansões e apartamentos luxuosos, arrancando doações generosas com que construía suas obras. Ele arrecadava dinheiro até dentro do cassino, enquanto as pessoas jogavam.

Desde que chegou à cidade, percebeu a necessidade de atender aos problemas do município, cumprindo o papel das sempre deficitária administrações municipais. Com o dinheiro das doações, as obras administradas por ele, eram idealizadas para manter o equilíbrio social na ilha.

Bonachão e sempre com um sorriso nos lábios, passeava pela cidade de calça social e camisa, deixando a batina para os atos litúrgicos ou solenidades especiais.

A cidade reconheceu seu trabalho e dedicação a seus pobres. Em 1962, quando da inauguração da maternidade, recebeu o título de Cidadão Guarujaense pela Prefeitura e Câmara Municipal de Guarujá.

Em outubro de 1963, recebeu do Papa João Paulo II elogios e uma benção pelo trabalho social desenvolvido na cidade.

CÔNEGO DOMÊNICO RANGONIConheci pessoalmente o Conêgo Domênico nos anos 50, quando por iniciativa de Herbert Richers, com o apoio de Oswaldo Massaini (um dos primeiros frequentadores de Guarujá, na praia de Pitangueiras) foi organizado o I Festival de Cinema Brasileiro de Guarujá, no antigo Hotal Guarujá, formado por um complexo de salão de eventos, piscina e cassino, hoje demolido e ocupado por prédios de apartamentos de veraneio.

A memória é pouco falha, 65 anos após a realização do evento, mas lá estavam, Renata Fronzi e seu marido o locutor Cesar Ladeira, Jardel Filho, Odete Lara, Maria Della Costa, Oswaldo Massaini, Renato Restier, várias starlets das chanchadas da Atlantida, então famosas na época. Alguns filmes foram exibidos e não havia competição, o importante era mostrar que interesse por cinema existia fora das fronteiras do Rio de Janeiro e chamar a atenção para a cinematografia paulistana, que se preparava para entrar na era industrial, via Companhia Cinematografica Vera Cruz.

Don Domênico Rangôni acompanhou o festival durante os três dias de sua duração e levou para as realizações programadas os mais influentes proprietários de apartamentos e mansões do Guarujá, conseguindo com isto, apoio para várias obras assistenciais programadas em beneficio da população local.

Muito descontraído não hesitou em atender o pedido dos fotógrafos presentes e tirou uma foto ao lado de Odete Lara, de bikini, ganhando com isto primeiras páginas de jornais, chamando a atenção do Brasil para o festival e para o município de Guarujá, que muitos ainda chamavam de Ilha de Santo Amaro.

Sua memória e lembranças perduram até hoje, mercê das obras realizadas e do trabalho pastoral e social exercido por ele na cidade.

O Cônego Domênico Rangoni faleceu no Hospital Sirio Libanês, em São Paulo, em 1987.

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