Mauricio Kus
O ENCONTRO DE DOIS MONSTROS SAGRADOS DO TEATRO; PAULO AUTRAN E JANET SUZMAN


Por Mauricio Kus, 14/05/2010 às 19:05

O ENCONTRO DE DOIS MONSTROS SAGRADOS DO TEATRO; PAULO AUTRAN E JANET SUZMAN

 

Aconteceu em 1972 durante o lançamento no Brasil do filme inglês distribuído pela Columbia  Pictures, “Nicholas e Alexandra”, dirigido por Franklin J. Schafnner (de Patton – Rebelde ou herói)  e um elenco magistral comandado por Michael Jayston e a primeira dama do teatro inglês, Janet Suzman.

Em 3 horas  de filme, relatava a saga da Família Romanov e o trágico fim do despótico governo do Czar da Rússia, friamente  assassinado, juntamente com toda sua família, pelos revolucionários comunistas, os bolcheviques  que acabavam de tomar o poder, para implantar a União Soviética.

O filme foi indicado para seis Oscars e conquistou dois: melhor direção artística e melhor guarda-roupa.

O produtor Sam Spiegel convidou Janet Suzman, a Czarina Alexandra do elenco,  considerada a primeira dama do teatro inglês, para uma visita ao Brasil por ocasião do lançamento do filme, pois a intenção dos produtores era dar o tom de um épico histórico biográfico ao espetáculo,  e a presença da atriz em mercados importantes para a Columbia reforçaria esta imagem.

Janet Suzman veio ao Brasil, onde era praticamente desconhecida, mas tinha carreira consagrada no Reino Unido.  Não era inglesa, nasceu em Johannesburg, na África do Sul, de família judaica. Seu pai era um importante importador de tabaco e seu avô membro do Parlamento.  Sua tia era uma das principais ativistas anti-apartheid.

Em 1959 mudou-se para Londres, depois de cursar em seu país, a Universidade de Witwatersrand, onde se aprimorou em inglês e francês.

Estreou no teatro inglês, em “Billy the liar”, em 1962.   Daí partiu para a Royal Shakespeare Company em 1963, estreando como Joana D’Arc em “The War of the Roses”.  Especializou-se em papéis shakesperianos, atuando em Hamlet, O mercador de Veneza, Titus Andronicus, aclamada pela critica inglêsa como a melhor interpretação de Shakespeare jamais vista nos palcos londrinos.

Paralelamente, atuava nos clássicos, como Tchecov, Gorki, Brecht, Racine, Albee e outros.

Atuou com destaque em cinema e televisão, interpretando seriados dramáticos e versões para a TV de grandes obras, como Macbeth, Hedda Gabler,

Nicholas e Alexandra foi seu primeiro filme.  Indicada para o Oscar, como melhor atriz, ganhou o Premio BAFTA (o Oscar inglês) e o Globo de Ouro, outorgado pelos correspondentes estrangeiros em Hollywood.

Quando chegou ao Brasil,  pediu a Elza Veiga e a mim, para que a apresentássemos a um grande ator brasileiro, pois gostaria de saber como anda o teatro do país.  Elza Veiga (esposa de Alex Viany, viveu vários anos em Hollywood, onde ele era correspondente da revista O Cruzeiro) era diretora de publicidade da Columbia no Brasil e eu era contratado como publicista da distribuidora em São Paulo.

Pensamos. Quem podia ser? Para a primeira dama do teatro inglês, tinha que ser um ator do porte, inteligência, carisma e cultura de um Paulo Autran. Não deu outra. Como bom amigo da gente e por amor ao teatro, topou nos receber,  na hora.

Agora um pequeno intervalo para falar de Paulo Autran para as gerações mais jovens que não tiveram a ventura de vê-lo no palco, onde fez drama, comédia musical, com destaque para Antígone, Othelo, My Fair Lady, Liberdade Liberdade, O Homem de La Mancha, A Morte do Caixeiro Viajante, Rei Lear, O avarento, Um Deus dormiu lá em casa, Depois da Queda e mais, muito mais.

No cinema, Uma pulga na balança, Terra em transe, O País dos Tenentes e O ano em que meus pais saíram de férias.

Na televisão, gênero que não apreciava muito, fez Pai Herói e Guerra dos Sexos, além de Os imigrantes.
Nasceu no Rio de Janeiro, mas construiu sua carreira artística em São Paulo, para onde  veio  muito cedo. Formou-se em direito por insistência do pai que era delegado de policia, mas descobriu sua vocação para o teatro, trocando a banca pelo tablado, estreando profissionalmente em “Um Deu dormiu lá em casa” ao lado de Tonia Carrero.

Faleceu em 12 de outubro de 2007, em meio às representações da peça “O avarento”, de Molière, sempre com casa cheia.

Fim de intervalo. Segundo ato. O encontro de Dois monstros sagrados do teatro: Paulo Autran e Janet Suzman.

Fomos, eu, Elza e Janet Suzman ao apartamento de Paulo Autran, na Av. 9 de Julho,..  Chegamos às 21 horas em ponto, como convém para uma visitante que mora na terra do Big Ben.  Ficamos logo à vontade, a química rolou entre os dois, teatro era a paixão que os unia.  O apartamento era pequeno, mesmo para quem morasse sozinho como Paulo. 

Livros raros e atuais, obras de arte, fotos de grandes espetáculos por ele interpretados, discos, muitos discos de música erudita, dezenas de roteiros que lhe enviavam para ler, centenas de programas de peças teatrais faziam  com que o apartamento virasse um depósito de cultura.

Paulo explicou para ela como era o teatro brasileiro, florescente naquele tempo, relembrou com saudades o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) e a alta qualidade do repertório daquele teatro, falou da época da Cia. Tonia/Celi/Autran, que montava espetáculos ligeiros, comédia descartáveis, que davam boa bilheteria, para poder financiar projetos culturais mais importantes como Shakespeare, Molière e outros clássicos.

Quando o assunto era Shakespeare rememoravam peças que ambos havia interpretado, trocavam diálogos como se estivessem em cena, para deslumbramento meu e de Elza, espectadores privilegiados e pasmos ante aquele espetáculo inédito e exclusivo, inacessível a qualquer freqüentador assíduo de teatro, aqui ou no West End, em Londres.

Depois Paulo mostrou sua coleção de livros raros de teatro, que ambos folheavam com compaixão e troca de sentimentos.

Assim o tempo foi passando, sem que percebêssemos, até que Elza olhou o relógio e exclamou, espantada:  “Nossa, são seis horas da manhã”.  Era a hora de uma calorosa despedida, troca de abraços e o fim de uma noite de encantamento, poesia e amor, muito amor ao teatro.

Saímos do prédio, na 9 de Julho,   Vímos os últimos notívagos tomando o caminho de casa e os primeiros trabalhadores do dia, se dirigindo a seus escritórios ou locais de trabalho.


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Uma lágrima para Lena Horne:

Nesta semana faleceu em Nova York, aos 92 anos, a estrela de musicais e cantora Lena Horne, um dos grandes nomes do cinema da época áurea dos musicais da Metro.  Foi destaque no teatro e em clubes de jazz, muito famosos nos anos 40 e 50.  Seu maior sucesso “Stormy Weather”, já foi interpretado por dezenas de cantoras, mas nunca com o brilho impactante de sua voz. Era linda, muito linda, mas infelizmente a cor de sua pele num período de racismo em vários estados americanos, fez com que suas oportunidades de trabalho fossem reduzidas.  Foi uma das celebridades mais ativas nos movimentos contra a segregação racial.

 



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