Mauricio Kus
PASSAMOS UMA SEMANA DE VIDA DE ONASSIS SEM POR A MÃO NO BOLSO


Por Mauricio Kus, 31/07/2009 às 12:00

A frase é do irônico e brilhante jornalista, cronista, repórter e colunista social Gilberto Di Piero, o conhecido Giba Um.

Definiu a semana que passamos juntos, eu, minha mulher Sarinha, Giba, o falecido Paulo Perdigão (escrevia sobre cinema na Manchete e foi programador dos filmes da Globo muitos anos) e Miguel Ângelo, um jornalista da revista O Cruzeiro, do qual nunca mais ouvi falar.

Juntos aonde? Fazendo o que?

Era o ano de 1969 e a Warner –cliente que eu atendia como divulgador de seus filmes – me chamou e pediu que eu indicasse três jornalistas para serem convidados para um festival de cinema na ilha de Freeport, nas Bahamas.Eu e minha mulher iríamos como representantes da Warner, comandando o grupo.Informaram também que os convidados teriam todos as despesas (inclusive transporte) pagas e que 500 jornalistas do mundo todo estavam convidados para o festival, que devia durar uma semana e exibir cinco filmes.

Era um festival promocional, sem premiação ou competição, apenas tinha o intuito de reunir os jornalistas, mostrar os filmes, colocá-los tete a tete com os diretores e elenco, para entrevistas e fazer a maior promoção cinematográfica já realizada em Hollywood até aquela época.

Freeport era uma ilha paradisíaca, pouco visitada ( naquele tempo,para os turistas Bahamas era Nassau, deixavam Freeport em paz).Soube que hoje Freeport virou quase uma metrópole. com dezenas de hotéis dos mais variados preços e estrelas, inundada por turistas, praticamente uma mini Cancun.Além de tudo, é um paraíso fiscal.

Fica situado a 160 kms a noroeste de Fort Laudardale, na Florida e os americanos vão à ilha da Grande Bahama, como nós vamos ao Guarujá.

Era o I Festival Internacional de Cinema da Warner Bros e foi realizado num hotel horizontal de beira de praia, com toda a ocupação à cargo do estúdio, como os anfitriões chamavam a Warner.

Após um longo corredor na entrada, o hotel se abria de forma circular com três piscinas centrais unidas por pontes e centenas de cadeiras de praia com todo o conforto de serviço de drinks, canapés e cervejotas à disposição, servidos por lindas garçonetes com carinha e corpo de manequim.

Em volta da piscina ficavam os chalés para os hospedes, com porta de vidro e grossas cortinas (para manter a privacidade dos ocupantes). Ao acordar, bastava abrir a porta de vidro e já estávamos na piscina com vista para o mar do outro lado das pontes.

O hotel tinha coffee shop, cinco restaurantes e alguns bares, todos franqueados para os hospedes, barbearia, balcão do American Express, balcão da Federal Express, balcão de agencia de viagens.Era proibido pagar conta ou dar gorjeta.

“Desculpe, senhor, o estúdio já se ocupou de tudo”, diziam os funcionários do hotel.
Não é mesmo uma semana de vida de Onassis sem por a mão no bolso?

Mas ai vem o melhor. Como o estúdio organizou um festival promocional, trouxe de Hollywood diretores e atores dos filmes apresentados e eles se despiram do olimpo de astros e estrelas para se misturar com os pobres mortais jornalistas convidados. A ordem era: “sejam gentis, vamos cultivar esta gente e ganhar publicidade mundial para seus filmes”. Quando entramos no restaurante para almoçar, eu e Sarinha, não havia lugar vago e William Holden, que estava numa mesa para quatro ao lado de uma jornalista inglesa, se levantou e convidou: Vocês não querem fazer companhia para a gente?

Imaginem, William Holden, o meu ídolo de Sunset Boulevard...

Havia uma rotina (rotina?) a seguir:

Todas as tardes, por volta de 19 horas um séqüito de limousines apanhava os convidados e os levava para um cinema na cidade, onde assistíamos a um dos cinco filmes selecionados.

Terminado o filme, voltávamos para o hotel e....surpresa... havia uma festa temática prontinha, montada por técnicos e cenógrafos dos estúdios, com música e decoração remontando ao enredo do filme, baile e comidas típicas, frutas tropicais, e na falta de lugares marcados poderia acontecer da gente jantar com Kim Novak e Francis Ford Coppola e sua primeira esposa Eleanor Neil, na mesma mesa.

No dia seguinte, às 10 horas da manhã, entrevista coletiva com o pessoal do filme enfrentando uma platéia de 500 entrevistadores.

Finda a coletiva, tempo livre até as 19 horas para piscina, entrevistas pessoais e passeios pela ilha. Com toda liberdade de ação, bastava passar na secretaria do festival e perguntar se Kim Novak, ou qualquer outro astro ou estrela estavam livre para uma entrevista.Eles marcavam e acontecia. Se fosse reporter de televisão – em 1969 usava-se câmara de 16 mms – eles montavam a câmera, iluminavam o ambiente e depois....mandavam o filme pela Federal Express para a estação do repórter, em qualquer lugar do mundo. Sem nenhum custo.

Os tempos não eram jurássicos, mas não havia ainda laptop, vídeo tape, envio por satélite, nem este monte de garotos chatos tirando fotos com celulares, que não dão mais folga a nenhuma celebridade e acabam de vez com a vida privada das pessoas.

Kim NovakOs filmes apresentados foram: “The Rain People”, um dos primeiros filmes de Francis Ford Coppola, com Shirley Knight e dois jovens atores iniciantes, Robert Duvall e James Caan: “O grande assalto ao banco” com Clint Walker, Kim Novak e Zero Mostel; “Os deuses malditos” de Lucchino Visconti, com Helmut Berger, Dick Bogarde, Ingrid Tullin, Charlotte Rampling; “Meu ódio será sua herança”, de Sam Peckinpah, com William Holden,Robert Ryan, Ernest Borgnine, Ben Johnson, Warren Oates e “A louca de Chaillot”, com Katherine Hepburn, Yul Bryner, Danny Kaye, Charles Boyer, Richard Chamberlain,John Gavin e Nannete Newman.

Toda esta gente circulava livremente pelo hotel, tomava banho de sol e piscina com a gente, e batíamos longos papos falando de cinema, filhos, casamento, trabalho, como se fossemos hospedes do Grande Hotel de Campos de Jordão, travando amizade e procurando conhecer a vida, uns dos outros.

É verdade que todos foram “escalados” pelo estúdio para serem gentis, solícitos e se aproximarem dos jornalistas, o que representava para os filmes, um investimento em 500 veículos pelo mundo afora.

Esta pseudo intimidade nos deu chance de observar vários fatos interessantes: Num fim de tarde Yul Brynner e Danny Kanye (que chegou pilotando seu avião particular) ficaram várias horas bebendo e petiscando, falando alto, contando piadas e causos em russo. Danny Kaye, nascido David Daniel Kamminsky falava um russo fluente: Yul Brynner, por exemplo, foi pego em flagrante implorando a um dos chefões do estúdio, um vale adiantamento de US$10.000, que ele tinha várias contas para pagar; Clint Walker, como eu e Sarah acordava cedo e tomávamos café da manhã juntos no coffee shop.Ele, ator do seriado “Cheyenne”, do alto de seu 1.93 de altura, ombros de armário, quebrava o jejum com uma tijela de meio litro de leite, duas bananas cortadas em fatias fininhas e um pacote de sucrilhos; era comum ver Lucchino Visconti passeando de mãos dadas com Helmut Berger, seu namorado.

No dia da despedida, eu, Sarah e Giba, enquanto aguardávamos a chegada da limousine que nos levaria ao aeroporto, batemos um longo papo com duas personalidades: uma que chegava à indústria do cinema, outra que se despedia das telas.

O famoso costureiro Oscar de la Renta (charmoso, inteligente e elegante) contava como gostou de fazer os figurinos de “A louca de Chaillot” e a emoção de vestir a diva Katherine Hepburn e prometeu continuar fazendo roupas para os grandes filmes de Hollyood. Já John Gavin, nome real John Antony Golenor, estava se despedindo do cinema para entrar na vida diplomática.A convite do amigo, presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, assumiu o cargo de embaixador americano no México, e depois dedicou todo tempo de sua vida, até hoje, a projetos cívicos e ajuda social apaises da América Latina. Sua mãe era mexicana.

A limousine chegou e fomos para casa.Não sem antes passarmos três dias em New Orleans, que ninguém é de ferro.

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