Mauricio Kus
HÁ QUASE SEIS DÉCADAS UM GRUPO DE JOVENS BRASILEIROS COLOCOU NOSSO PAÍS NO TOPO DO RANKING MUNDIAL DE HQ COM A 1ª EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE HISTORIAS EM QUADRINHOS


Por Mauricio Kus, 13/01/2010 às 12:36

HÁ QUASE SEIS DÉCADAS UM GRUPO DE JOVENS BRASILEIROS COLOCOU NOSSO PAÍS NO TOPO DO RANKING MUNDIAL DE HQ COM A 1ª EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE HISTORIAS EM QUADRINHOS

No inicio do ano de 1951, surgiu a entre um grupo de jovens amantes do cinema e história em quadrinhos, a idéia de organizar uma exposição de histórias em quadrinhos. Nunca antes (ops) houve uma iniciativa igual no mundo e organizar a referida exposição não foi fácil, mas sua realização foi um fato e deu repercussão mundial. Editores e quadrinistas do mundo inteiro reconheceram o pioneirismo do Brasil.

Os jovens eram Álvaro de Moya (o líder do grupo, que mantinha correspondência com os grandes desenhistas do mundo e conseguiu inúmeros desenhos originais, em sua maioria. Syllas Roberg, Jayme Cortez, Miguel Pentedo, Reinaldo de Oliveira, Liba Frydman, Jacó Guinsburg, Luiz Israel Fedbrot e eu.

A exposição foi inaugurada com muita dificuldade em 18 de junho de 1951, num clube judaico chamado Centro Cultura e Progresso, no Bom Retiro.

Todos os poucos museus e espaço de cultura da época rejeitaram abrigar a exposição, alegando que história em quadrinhos era anti-educativo, afastava as crianças da leitura e não podia ser considerado arte.

Pietro Maria Bardi
, curador do MASP-Museu de Arte de São Paulo, recusou o espaço, mas no último dia da exposição – talvez em função da forte presença da mídia no espaço – telefonou marcando uma visita e compareceu em companhia de sua esposa Lina Bo Bardi, que não cansava de tecer elogios à iniciativa.

Os grandes desenhistas da´época – Alex Raymond, Al Capp, Harold R.Foster, Milton Caniff, Charles M.Schulz, Will Eisner, entre outros, mandaram originais.

Em 2011 será comemorado o 60º aniversário deste feito único no Brasil. Já combinamos com Álvaro de Moya, uma série de comemorações para que a data não seja esquecida.

Infelizmente do grupo inicial, Syllas Roberg, Jayme Cortez, Miguel Penteado, Reinaldo de Olveira e Liba Frydman já se foram, mas merecem nosso tributo à sua memória, idealismo e perseverança.

Na esteira do sucesso da exposição, começaram a aparecer trabalhos de novos desenhistas brasileiros, entre eles Mauricio de Sousa, Ziraldo e Jaguar.

Os fãs de histórias em quadrinhos acompanhavam jornais especializados, como A Gazetinha, Suplemento Juvenil, Gibi e Globinho.

Os 50 anos daquela exposição memorável foram comemorados com um livro (ja esgotado), intitulado” 50 anos – Edição comemorativa da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos”, da Editora Opera Graphica.

Neste livro, escrevi o capitulo abaixo, que reproduzo agora, 9 anos depois:


INCRIVEL – 50 ANOS SE PASSARAM DEPOIS DAQUELA MEMORÁVEL INAUGURAÇÃO

Um grupo de jovens entusiastas de histórias em quadrinhos e cinema resolveu – incentivado pelo entusiasmo e perseverança de Álvaro de Moya – realizar o que viria a ser a 1ª Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos do mundo.

O grupo veio de várias partes. Um ano antes poucos se conheciam, mas à medida que foram se comunicando, um elo comum apareceu: todos gostavam de histórias em quadrinhos e, principalmente de cinema.

Minha turma, eu, o hoje editor de um jornal da comunidade judaica, Oscar Nimitz, e os falecidos Henrique Szafran, Remo Rocco Rinaldi e outros amigos cujos nomes se perderam no tempo, nos encontrávamos diariamente por volta de 20 horas na Av. São João com Ipiranga, em frente à banca de jornais La Selva.

Uma passada pela Livraria Monteiro Lobato na Av. São João, num prédio antigo ao lado do extinto Cine Ritz, uma rápida passagem pelos livros em exposição, era a nossa rotina de toda a noite, quebrada quando o próprio Monteiro Lobato visitava a livraria (da qual não era dono, só emprestava o nome) e ficava nos fundos disputando uma partida de xadrês com seus amigos, que nós apreciávamos, embevecidos.

Dali, ritual obrigatório – cinema. Como os filmes não eram exibidos mais do que uma semana em cada cinema, íamos uma noite em cada sala, dando preferência ao Art Palácio, na segunda-feira, que estreava os filmes de de John Ford, John Wayne e Humphey Bogarf, nossos favoritos.

Aí conhecemos Ruben Biafora, então crítico de cinema de O Estado de São Paulo e José Julio Spiewak, verdadeira enciclopédia de cinema, que recitava de cor a ficha técnica de todos os filmes realizados em qualquer época.

Com os dois descobri o Clube de Cinema, que funcionava anexo ao MASP,no segundo andar do edifício dos Diários Associados na Rua 7 de Abril. Ali aprendi a amar Orson Welles,Billy Wilderl, William Wyller e outros grandes cineastas da época.

Ao contrário da política brasileira,quando tudo acaba em pizza, a 1ª Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhosl, nasceu com pizza.

A família La Selva, parentes dos La Selva que têm lojas em todos os aeroportos do país, todo sábado se reunia sob as ordens do chefão Vito La Selva, amante da pizza, dos bons vinhos e do bel cantol. Construiu um forno em sua casa na Rua Pedro de Toledo e ali reunia os amigos na pizzada que ele mesmo assava.

Os La Selva tinham uma editora, foram um grande sucesso editorial com “O Terrrer Negro”, criação de Jayme Cortez, e editavam várias revistas de cinema nas quais eu colaborava.

Foi quando encontramos outras turmas com os quais ganhamos rápida empatía.

Álvaro de Moya foi a ligação de todas as tribus, como diriam os jovens hoje em dia. Seu grupo tinha gente de rádio e era formado por Lima Duarte ( então sonoplasta),Walter George Durst, Dionísio Azevedo,Sillas Roberg, Geraldo Blota, e outros que acabaram aderindo à televisão, então gatinhando naquela época.

No rádio marcaram época com o programa “Cinema em Casa”,radiofonizações de grandes filmes em cartaz, que utilizavam até a própria trilha sonora do filme, para marcar passagens mais dramáticas. O falecido Cassiano Gabus Mendes era o diretor do programa TV de Vanguarda e responsável por inúmeras inovações da dramaturgia do rádio brasileiro. Na passagem do radio para a TV, foi o diretor artístico da TV Tupi.

Álvaro de Moya era desenhista, foi cartunista de “O Tempo” e”O Estado de São Paulo” (prática que o centenário jornal aboliu), e mantinha correspondência com os grandes autores de histórias em quadrinhos da época, Alex Raymiond, Al Capp, Milton Caniff e muitos outros.

Foi depois diretor artístico da TV Excelsior, levando para a televisão Bibi Ferreira e Manoel Carlos, só para citar dois grandes nomes da televisão brasileira.

Na Rua Pedro de Toledo, entre alguns goles de um delicioso vinho italiano (raridade na época imediata pós- guerra) no qual se colocava uma fatia de pêssego, Moya externou seu velho sonho “Vamos fazer uma exposição de histórias em quadrinhos? Será a primeira e única no mundo”.

Já tínhamos algo mais a compartilhar, além de não perder nenhum filme de John Ford ou acompanhar atentamente toda a programação da Metro para assistir o quanto antes os musicais de Arthur Freed ou os filmes de Vincente Minelli.

Álvaro de Moya trocou correspondência com todos os grandes e obteve total apoio.

Numa época sem fax, e-mail, xerox, computadores e telefones que funcionavam mal com ligações internacionais que levavam horas para se completar, Moya conseguiu o feito de organizar o material, o obter cartas, depoimentos, desenhos originais e todo o acervo para montar uma exposição modesta, porém muito didática.

Aonde? Batemos em todas as portas. Ninguém levava história em quadrinhos a sério e todos os museus e galerias de São Paulo fecharam as portas àquela insólita idéia. As histórias em quadrinhos daquela época diferem muito das de hoje e não são apenas tiras cômicas de jornais diários. Eram ingênuas, algumas críticas, mas de um valor artístico que hoje, 50 anos depois, são reconhecidas com respeito. Hollywood foi beber na imaginação das histórias em quadrinhos e transformou em filmes rentáveis as aventuras de Flash Gordon, Super Homem, Fantasma ,Dick Tracy, O Sombra, Principe Valente, Batman.

As histórias em quadrinhos tinham personagens fixos, começo, meio e fim. Seu enquadramento, cortes, luz e sombras obedecem às regras do roteiro cinematográfico, uma técnica que os desenhistas de produção utilizam em cinema até hoje.

Finalmente, um estalo. Eu e Liba Frydman( excelente jornalista que trabalhou na Revista Radiolandial e Amiga) esposa do prematuramente falecido Syllas Roberg (que se revelou um excelente produtor e diretor de TV na Record e na Tupi), frequentávamos um clube na Rua José Paulino, chamado Centro Cultura e Progresso.

Sua diretoria era formada por empresários de meia idade.,imigrantes judeus foragidos da Europa antes da guerra, que eram fascinados pelos feitos heróicos de Stalin na luta contra o nazismo e praticavam o idiche como a tradicional língua judaica, numa´época em que o milenar hebraico ia se impondo no proclamado Estado de Israel.

Como convencer estes homens? Foi uma batalha que durou semanas em reuniões que se prolongavam até alta madrugada, E somente quando resolveram pedir a opinião de dois dos mais cultos associados, o jornalista e advogado Israel Fedbrot e o escritor e editor Jacó Ginsburg, acabaram cedendo.

Ambos acreditavam que havia arte na história em quadrinhos e era um meio de expressão válido quando bem empregado.

Então foi só partir para a luta, organizar o precário material nas modestas instalações existentes, partir para a divulgação, convocar os amigos, inaugurar e entrar para a história.

mkus@uol.com.br


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