Mauricio Kus
PAÍS SEM MEMÓRIA: "O CANGACEIRO" DE LIMA BARRETO COMPLETA 60 ANOS E PASSA DESPERCEBIDO.


Por Mauricio Kus, 21/02/2013 às 16:44



Vanja Orico - "O Cangaceiro"

Há 60 anos atrás a Cinemtografica Vera Cruz, o primeiro movimento industrial do cinema brasileiro, apresentava "O Cangaceiro", seu filme mais importante, que conquistou as telas do mundo e o primeiro a trazer um prêmio do Festival Internacional de Cannes, o mais prestigiado festival do mundo, em contraposição ao Oscar, que só premiava produções norte-americanas no período.

Inspirado na figura lendária do Lampião, foi dirigido por Lima Barreto, que morreu pobre e esquecido e teve diálogos criados por Rachel de Queiroz, que morreu num acidente aéreo ao lado do Marechal Castello Branco, o primeiro presidente da ditadura dos militares.

“O Cangaceiro” foi rodado em Vargem Grande do Sul, interior do estado de São Paulo. Lima Barreto dizia que a paisagem se parecia muito com a nordestina.

Vanja Orico - 'O CANGACEIRO' - 60 anos

Milton Ribeiro marcou tanto o papel de cangaceiro, que realizou mais alguns filmes de cangaço, mas não conseguiu nenhum outro tipo no cinema. Morreu jovem, com problemas cardíacos.

O filme foi vendido para a Columbia Pictures, que cuidou de sua distribuição mundial. Só na França ficou cinco anos em cartaz.

Em Cannes, “O Cangaceiro” ganhou o prêmio de melhor filme de aventura e de melhor trilha sonora, à cargo do Maestro Gabriel Migliori.

Vanja Orico, considerada a musa do cangaço, cantou dois sucessos que enlouqueciam os europeus durante a exibição do filme. Acompanhada pelos Demônios da Garoa, Vanja cantou Olé Muié Rendeira e Sodade,meu bem sodade.

Vanja Orico, nome de batismo Evangelina Orico, nasceu no Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1931.

Filha do diplomata e escritor da Academia Brasileira de Letras, Osvaldo Orico, é muito mais do que a musa do cangaço.

Além de atriz, cantora, compositora, cineasta, ativista política, foi autora de um ato de coragem que comoveu o país, no dia 7 de novembro de 1968, durante o enterro do estudante Édson Luiz, morto pelas forças de repressão numa passeata no Rio de Janeiro. O enterro foi seguido por milhares de populares, em sua maioria jovens, estudantes e artistas, quando a policia chegou ameaçando dissolver a passeata de forma violenta. Vanja então ficou de joelhos, entre os carros do exército e a população, lencinho branco na mão, e no espaço aberto, suplicou aos gritos: “Não atirem, somos todos brasileiros”. Foi presa, mas conseguiu conter os soldados.



Gesto idêntico viria se repetir anos depois, quando um jovem chinês se interpôs aos tanques na Praça Celestial da Paz, para tentar conter a fúria repressora dos forças policiais. Ambos fatos foram documentados e as fotos espalhadas pelo mundo todo.

Vanja Orico começou a carreira cinematográfica da forma mais nobre possível. Com apenas 16 anos de idade, estudante em Roma, foi convidada por Federico Fellini e Alberto Lattuada para cantar “Meu limão, meu limoeiro” num filme que ambos dirigiram, em conjunto. Até hoje, lembra com orgulho,o grito de “Ação” ou “Corta”, que ouvia dos dois cineastas naquele set da Cineccitá.

“Imaginem. Eu garotinha, trabalhando sob as ordens de dois gênios do cinema. Me dá arrepios até hoje”, confessa.

Ainda na Europa compôs “Copias”, canção inspirada em refrão de Garcia Lorca.

Quando voltou ao Brasil, Lima Barreto a convidou para viver na tela a companheira de Lampião, que no filme teve o nome de Maria Clódia, ao invés de Maria Bonita.

Realizou uma carreira cinematográfica internacional, participando de várias co-produções com países europeus. Foi índia carajás em “Flor das Selvas”, produção ítalo-brasileira rodada em Roma e no Rio Araguaia, atuando como cantora e dançarina.

Falando cinco idiomas foi fácil para ela trabalhar em qualquer país. Entre 1956 e 1957 fez “Rosa dos Ventos”, filme premiado no Festival de Cinema de Karlovy Vary na Checoslováquia. O filme tinha cinco episódios, sendo o brasileiro baseado numa história de Jorge Amado, dirigido por Alex Viana.

Em 1964 participou de uma comédia do cinema novo, “Os mendigos”, com Fabio Sabbag e Eduardo Coutinho, ano em que veio a São Paulo, a convite de Osvaldo Massaini para estrelar “Lampião, Rei do Cangaço”, dirigido por Carlos Coimbra, especialista no gênero. Voltaria a trabalhar com os dois em “Independência ou morte”, o épico de Massaini para comemorar o sesquicentenário da independência do Brasil.

Ao todo participou de quase 20 filmes e se aventurou como produtora em “Ele o boto”, filme dirigido por Walter Lima.

No período de filmagens em São Paulo, tivemos grandes contatos e uma larga amizade com Vanja, uma figura simpática, muito falante, animada e alegre. Talvez por nossa ascendência judaica (Vanja é viúva do judeu Arthur Rosenthal, falecido em 1999)..

Vanja vai, Vanja vem, ela não descansa nunca. Está engajada na questão de preservação da língua portuguesa, para tentar evitar a entrada de termos ingleses no Brasil, e em outros movimentos da preservação da cultura e identidade nacional.

Foi criadora do projeto Rio Boa Praça, espetáculos de musica que aconteciam nas praças do Rio, com apresentações quinzenais, que contava com o apoio da Petrobrás. João do Valle e Zé Kéti se apresentaram lá. Com o corte do patrocínio, o projeto foi descontinuado.

Mas Vanja Orico continua. A qualquer hora pode surgir com um novo empreendimento....

Mas não é só “O cangaceiro” e sua musa Vanja Orico que ficaram esquecidos neste país sem memória. Tônia Carrero, Odete Lara, Maria Della Costa, e outras grandes divas do cinema vivem no ostracismo, enquanto os posts das redes sociais vivem publicando fotos de Greta Garbo, Marilyn Monroe, Marlene Dietrich, Ava Gardner e outras grandes estrelas,num culto à personalidade, saudade e lembrança que não dedicam às grandes atrizes do passado do cinema brasileiro.

mkus@uol.com.br

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