Mauricio Kus
HISTÓRIAS DE ELEVADOR


Por Mauricio Kus, 30/03/2011 às 11:26

O elevador hoje faz parte da nossa vida, e, em certos casos, em prédios de alta densidade de escritórios, cerca de 10.000 pessoas entram diariamente neste cubículo que nos leva de andar a andar, para nosso destino.

Quando temos sorte e vamos ver o médico ou o advogado no 29º andar, o elevador vai direto ao seu destino. Às vezes, pára de andar em andar, até chegar ao 29º, o que acontece geralmente quando estamos atrasados. Lei de Murphy.

Existem (poucos e mais no centro velho da cidade) elevadores antigos, lentos, de porta pantográfica, que precisa ser empurrada de lado, geralmente com velhos ascensoristas girando uma manivela para movimentá-lo. Em contrapartida, hoje os elevadores são super velozes e inteligentes, que estão transformando os ascensoristas em profissionais em extinção, já que basta apertar um botão para chegar ao seu destino, que é anunciado por uma voz feminina, muito parecida com aquela que avisa chegadas e partidas de aviões nos aeroportos.

Falar em avião, quando o elevador está repleto de marmanjos e entra um avião, 20 anos, 1,75 de altura, top model, só se vê olhos arregalados e todo mundo olhando para os lados ou para o teto, na base do disfarça, mano.

Querem ficar com raiva nestes elevadores modernos, cujos botões se iluminam a cada toque?

Entrem depois que saiu um garoto com sorriso maroto e descubram que o elevador ficou todo iluminado, com os botões parecendo uma árvore de Natal,. E se seu destino for o último andar, vocês vão parando de andar em andar, como se estivessem viajando num trem leiteiro.

O elevador pode ser base para histórias, aventuras, encontros casuais, e até emoção, muita emoção. Já se imaginou dentro de um elevador, quando falta a luz entre dois andares? A angustia da espera do socorro, principalmente se houver no grupo encalhado, alguém sofrendo claustrofobia? É muito sofrimento até que volte a luz ou chegam os bombeiros. Mas, em minhas andanças pelo mundo, recolhi boas e agradaveis lembranças de histórias de elevador.

Quando Rachel Welch veio ao Brasil, ficou hospedada no Hotel São Paulo Hilton, na Av. Ipiranga. Ocupou a suíte presidencial e foi recebida com toda pompa de hospede VIP. Foi recepcionada pessoalmente pelo gerente, Alexander Braune, por mim, como relações públicas do hotel e pelo gerente de recepção, que se encarregou de preencher a ficha, preservando-a desta formalidade, reservada para os simples mortais.

Quando entramos no elevador, o gerente de recepção, veio correndo, conseguiu segurar a porta e esbaforido, pediu à atriz que assinasse a ficha. Foi tão descuidado e afobado, que pisou no pé dela. Silencio glacial, interrompido pela atriz com um sonoro: CARAJO, para espanto de todo mundo.

Jô Raquel Tejada, codinome artístico Rachel Welch, nasceu em Chicago, Estados Unidos, em 5 de setembro de 1940, mas é latina, de origem boliviana, prima da ex presidente da Bolívia, Lídia Gueller Tejada. No final dos anos 60, eu era relações públicas da Braniff International, uma companhia texana, que infelizmente encerrou suas atividades. Juntamente com a Pan Am, eram as duas companhias americanas que serviam o Brasil e disputavam o nosso mercado, ainda incipiente em viagens para os Estados Unidos.

O Itamarati, em conjunto com a Dora Vasconcelos, consulesa do Brasil em Nova York (uma verdadeira mãe para os brasileiros em apuros na cidade, resolvia todos os problemas de nossos patrícios), resolveu organizar uma festa de boa vontade para com o Brasil Por indicação de Da.Yolanda Costa e Silva, mulher do presidente, foi organizado um desfile de moda brasileira para apresentar o Brasil fashion para os americanos. No Hotel Delmonico's, em Nova York.

Guilherme Guimarães, na época o “darling” das bem vestidas, foi convocado para organizar uma coleção que definisse bem o espírito brasileiro na ótica dos americanos, que já não tinham mais Carmem Miranda como referência de nosso país.

Guilherme Guimarães resolveu usar o Amazonas como tema e criou uma coleção repleta de estilo safári, fazendo com que as modelos (era como se chamavam as top model da época), ´parecessem caçadoras de elefantes no Kenya.

Integravam a comitiva, além de Guilherme Guimarães, uma representante do Itamaraty e algumas modelos, das quais guardei apenas os nomes de Geórgia Quental, Paula e Gilda Medeiros, as rainhas da passarela no Brasil.

O pessoal da Braniff ficou hospedado no St. Regis Hotel, um hotel centenário que rivalizava com o Plaza e o Waldor Astoria, como principais ícones da hotelaria novaiorquina. Ficava na Rua 55, esquina da 5ª Avenida, ao lado do Tiffanys.

Uma manhã, tomei o elevador para um café da manhã com o pessoal dos escritórios da Braniff em Nova York, quando paramos um andar abaixo.

Subiu um senhor baixinho, muito elegante, terno de casimira inglesa, risca de giz, gravata vermelha, de nó largo, lencinho de igual cor, no bolso superior do paletó, uma camisa branca impecavelmente passada, botões trespassados em jaquetão, sapatos preto brilhando de tão rigorosamente engraxados. Se apoiava numa bengala, com cabo de madrepérola e tinha um bigodão espesso, com as duas pontas laterais para cima.



Matei a charada num segundo. Era Salvador Dali, que morava permanentemente no hotel. Não trocamos palavras, ele fez um aceno quando entrou e quando saiu, e eu lhe dei passagem. Corria o ano de 1989, duzentos anos da Revolução Francesa e Paris estava em festa. Era o dia 12 de julho e a cidade fervia em preparativos para a grande gala do dia 14. Estávamos eu e Sarinha hospedados no Paris Hilton, entramos no elevador e deparamos com Bob Hope, grande astro de Hollywood, que foi convidado pelo governo francês para participar das comemorações.

Passado espanto, estendi a mão para ele, confessei minha admiração pelo seu trabalho no cinema e, principalmente pela dedicação às tropas americanas para quem sempre fazia shows, em pleno front durante a II Guerra Mundial.

Perguntou de onde éramos. Brasil, disse eu. Brazil, South América, respondeu. Me deu a mão e um forte e caloroso abraço, muito vigoroso para um “velhinho” de 89 anos. O elevador chegou ao térreo, a porta se abriu e tomamos caminhos diferentes.

Bob Hope faleceu com 100 anos.

Estávamos eu e Sarah, no Hotel Beverly Hilton, onde nos hospedamos em Los Angeles, em plena temporada do Oscar. Entramos no elevador, no térreo, e antes de apertarmos o botão de nosso andar, uma linda jovem veio correndo e pediu: “Vocês podem esperar um instante?”. Segurei a porta com a mão até que chegasse o acompanhante da moça e ela agradeceu em inglês, é obvio. “Muito obrigado, vocês foram muito gentís”. Era Jennifer Jones, ganhadora do Oscar por “A canção de Bernardette” e estrela de grandes filmes, como “Love is many splendored thing”., onde contracenou com William Holden.

Hotel Carlton, Cannes, durante o festival de cinema nos anos 80. Eu, Sarinha e Walter Hugo Khouri esperávamos pelo elevador, para assistir à uma entrevista de imprensa com Robert Altman, o celebrado diretor americano. Estávamos atrasados e com medo de chegar após tudo ter começado e passar vexame.



Eis que ao nosso lado chega um senhor alto, corpulento, que muito afável dá passagem para Sarinha entrar no elevador. Era Robert Altman, que como nós, também estava atrasado para sua entrevista.

mkus@uol.com.br

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