Mauricio Kus
O MISTERIOSO DESAPARECIMENTO DE JACQUELINE MYRNA


Por Mauricio Kus, 16/09/2009 às 04:40

O MISTERIOSO DESAPARECIMENTO DE JACQUELINE MYRNA

Loirinha com jeitinho de adolescente coquete, carinha de anjo e corpo de mulher, Jacqueline Myrna apareceu na vida artística brasileira e desapareceu mais misteriosamente ainda.

Sua biografia aponta que nasceu em Bucarest, na Romênia, no dia 4 dezembro de 1944 e não há registro nenhum da data de sua chegada ao Brasil.

Jacqueline Myrna radicou-se no Brasil na adolescência, em companhia da mãe e desenvolveu sua carreira artística na televisão, onde participava de programas e novelas, mais tarde, no teatro e no cinema.



Tornou-se famosa por um sotaque que encantava o público da televisão na década de 60: pronunciar Araraquara carregando nos erres Arrrarrraquarrra.

Criou um bordão, que soltava com sotaque francês: "Brasileiro é tão bonzinho", imitado anos depois por Kate Lyra, desta vez com sotaque inglês, eis que era americana.

Estreou nas telas pelas mãos do fotógrafo, produtor e cineasta ucraniano radicado no Brasil, Konstantin Tkaczenko, com quem atuou em três filmes, "Isto é Strip Tease", “Superbeldades” e “Amor na Selva” - esse último co-dirigido por Ruy Santos.

Ela pode ser considerada a precursora do gênero pornô-chanchada, já que estrelou o filme “Superbeldades”, de 1962, produzido por Primo Carbonari.

Depois vieram os cineastas da Boca do Lixo que inundaram as telas com as famosas pornô-chanchadas, cujas cenas de sexo mais pareciam ginástica sexual do que ações eróticas.

“Superbeldades” mantém o recorde de ter sido o filme de exibição mais curta na história do cinema brasileiro: estreou nas telas do velho Cine Republica na sessão das 14 horas e foi apreendido pela censura às 16 horas. Nunca mais voltou às telas.

O grande trunfo de Carbonari era mostrar Jacqueline de monoquíni, posteriormente relançado como topless. Na Europa, foi um sucesso estrondoso; todos queriam ver aquela adolescente com corpo de mulher, carinha inocente, expressão maliciosa e brejeira, com os seios de fora. Fez sucesso nos cinemas da França.

Era um espetáculo para os cines pornô, numa época em que a Europa ainda tinha um lado pudico, mesmo após a liberalização do pós-guerra.

Walter Hugo Khouri, o diretor brasileiro que - depois de Fernando de Barros - mais entendia de mulher, colocou-a na galeria de suas musas. Dirigiu Myrna em um episódio de “As Cariocas”, pelo qual ela recebeu o prêmio Governador do Estado e em “As Amorosas”, ao lado de Paulo José.

Na televisão, além de participar de vários programas, Jacqueline Myrna atuou na novela “A Indomável”, de Ivani Ribeiro em 1965.

Trabalhou com diretores de renome no cinema brasileiro, como Fernando de Barros, Carlos Coimbra, Pedro Carlos Rovai e Braz Chediak, além de ter atuado no único filme brasileiro do cineasta e produtor egípcio Gino Palmisano.

No filme “As Confissões de Frei Abóbora( 1971), uma comédia com direção de Braz Chediak, baseado em livro de José Mauro de Vasconcelos, atuou ao lado de Tarcisio Meira e Norma Bengell.

Era considerada o “tesão” do Brasil, mas ninguém a viu acompanhada de namorado, não se comentou algum caso que tivesse tido e só era vista em público ao lado da mãe, ferrenha cão de guarda que não deixava a menina a solta.

Os paparazzi viviam no seu calcanhar, mas nunca conseguiram uma foto numa situação mais constrangedora.

Há uma lenda curiosa que corria nas redações nos anos 60. Jean Mellé, jornalista romeno se radicou no Brasil e fundou um jornal chamado “Notícias Populares”, do qual o povo dizia: “Se espremer sai sangue”.

A verdade é que Jean Mellé, homem inteligentíssimo, jornalista super antenado, sabia o que o povo queria: sangue e sexo. Com isto, editou o jornal mais vendido em banca, ameaçando a circulação dos lideres Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo e o mais popular Diário da Noite.

Todos queriam comprar o jornal e talvez fechá-lo, por isto Mellé impôs condições para a venda.

Otavio Frias de Oliveira fez a melhor oferta para a compra do jornal, mas Mellé só fechou negócio com a condição de continuar dirigindo o diário como diretor de redação, função que manteve até a morte, vitimado por um câncer ósseo, que lhe causava dores e sofrimentos profundos.

Mellé pregou uma peça a Jacqueline. Um dia, encontraram-se num coquetel, ambos romenos, e ela se mostrou antipática, arrogante e superior. Dizem mesmo que ela o destratou em público, alegando uma pretensa cantada.

Mellé engoliu em seco e a partir daquele dia, todos os dias em sua coluna, criticava Jacqueline, falava de sua má atuação no palco, na TV ou no cinema.

Tomava todo cuidado para não tocar na vida pessoal, deixando o calvário para o lado artístico na carreira da moça. Isto durou meses.

Até que um belo dia, sem mais nem menos, Mellé falou bem dela e a partir daí, todos os dias a elogiava em sua coluna. Os leitores assíduos não entenderam o que estava acontecendo.

Mas Mellé mostrou o caminho das pedras: incumbiu alguns amigos mais chegados a espalhar um boato: “Ele conseguiu comer a moça, agora está falando bem...”. Foi a vingança de Mellé, pois quanto mais Jacqueline tentasse desmentir, mais se complicava.

Nos anos 70 Jacqueline Myrna sumiu de circulação, misteriosamente, abandonando a carreira sem avisar ninguém. Alguns diziam que ela casou com um milionário e mudou-se para a Europa. Outros que foi aos Estados Unidos onde trabalhou em alguns musicais da Broadway.

Nunca mais se ouviu falar em Jacqueline Myrna, a Arrrarrraquarrra da televisão.

Ninguém sabe seu paradeiro até hoje.

mkus@uol.com.br




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