Mauricio Kus
QUANDO OS ASTROS DE HOLLYWOOD VINHAM AO BRASIL


Por Mauricio Kus, 20/09/2009 às 22:36

QUANDO OS ASTROS DE HOLLYWOOD VINHAM AO BRASIL

 

Hoje raramente recebemos a visita de um astro de Hollywood para promover o lançamento de seus filmes.  Os grandes estúdios,  lançam os filmes simultaneamente  em todos os mercados, e preferem concentrar seus artistas num hotel cinco estrelas, convidar um ou dois jornalistas de cada país, com  despesas pagas e concede 10 a 15 minutos para cada um fazer uma exclusiva.  Que no fundo acaba sendo uma coletiva (só muda o formato), pois os atores, diretores e executivos do estúdio sempre dizem a mesma coisa para  os convidados.  Para quem se recorda do filme “Notting Hill!, com Julia Roberts e Hugh Grant, ficou a lembrança desta ferramenta de marketing do cinema americano.

Mas, já houve tempo em que praticamente todo mês recebíamos caravanas de astros que vinham promover seus filmes a serviço de seus estúdios. A Metro, no auge dos musicais, era a mais freqüente em enviar seus contratados para encontros com a imprensa.  Assim, vieram Debbie Reynolds (que abandonou o cinema – ou foi abandonada por ele?), mas que hoje vive muito bem obrigado, é dona de um pequeno cassino em Las Vegas. Com 77 anos, ainda não se recuperou  da corneada que levou de Elizabeth Taylor, que roubou seu marido Eddie Fisher e não consegue uma tregua com a filha desse casamento, Carrie Fisher, a Princesa Leia da primeira trilogia de Star Wars. Ambas vivem às turras até hoje.

A italiana radicada em Hollywood Ana Maria Píer Angeli, uma das mais lindas e graciosas estrelas da Metro (dona, à época, da maior constelação de estrelas e astros do cinema americano), acabou se suicidando anos após sua visita ao Brasil. Carleton Carpenter, ator e bailarino de fugaz carreira veio na onda, que contou com Howard Keel e Kathryn Graison.   Em 1962 vieram promover o filme “Kiss me Kate”, adaptação livre e musical da uma obra de William Shakeaspere.

Ava Gardner deu vexame.  Abusou do álcool e numa violenta crise nervosa, quebrou todos os móveis da suíte onde estava hospedada.  Foi “gentilmente “convidada” a fazer as malas e se retirar, mudando-se para outro hotel do centro de São Paulo.

Ficavam hospedados no Hotel Lord, na Av,São João há três quarteirões do Cine Metro, Ali havia uma coletiva para a imprensa, no último andar do hotel, na simpática boate que apresentava pocket shows com artistas brasileiras e, às vezes, uma atração internacional. O hotel continua  administrado pela família Jafet, que mudou seu nome para San Raphael e o Cine Metro, o mais bonito e mais confortável do Brasil (introduziu o ar condicionado nos cinemas, em nosso país) hoje é uma igreja evangélica.

Diversos atores chegavam ao Brasil por conta própria, em férias ou em visita a amigos,  Até hoje ninguém sabe porque o avião particular de Tyrone Power baixou no Rio de Janeiro. Veio em companhia de sua esposa, Anabelle, uma francesinha que fazia filmes no cinema americano e César Romero.   Comentava-se que era um trio, mas em verdade se suspeitava que o casamento de  Tyrone Power era de mentirinha, para aplacar a ira dos chefões do estúdio com relação ao seu romance com César Romero.

Tudo começou com Orson Welles, que veio ao Brasil em 1942, onde pretendia filmar o famoso carnaval carioca para acrescentar no segmento de My Friend Bonito, do documentário It’ All True, e terminou com Jorginho Guinle, o mais famoso play boy brasileiro, que se orgulhava de não ter trabalhado um só dia de sua vida. Era considerado o embaixador brasileiro de Hollywood, e recheva os camarotes da Sapucaí de beldades do cinema americano.

Na turbulente passagem pelo Brasil, Orson Welles ficou amigo de Grande Otelo, bebeu todas e comeu todas.  Integrou-se à paisagem carioca, passou a gostar de futebol, torcia pelo Botafogo e vestiu a camisa do clube da Estrela Solitária numa entrevista coletiva à imprensa.

O doumentário não foi terminado, Orson foi despedido pela RKO e voltou a Nova York para recomeçar uma das mais conturbadas e complicadas carreira de qualquer diretor, produtor,ator e montador.      Atingiu o ápice em Hollywood e declinou a carreira na Europa, morrendo de ataque cardíaco,  quase no ostracismo em outubro de 1985, aos 70 anos.

Jorginho Guinle, que utilizava a piscina do Copacabana Palace para namorar e expor suas conquistas hollywoodianas, contabilizou uma imensa lista de romances com celebridades da tela.

A lista é fantástica: Kim Novak, Marlene Dietrich, Romy Schnaider, Rita Hayworth (chegou a ser considerada a mulher mais bonita do mundo.  Era norte-americana, de ascendência hispano-irlândesa e no seu passaporte constava o nome de Margarita Carmen Cansino.  Foi casada cinco vezes, mas contava neste quesito com dois nomes imbativeis: Orson Welles e o Príncipe Ali Khan).

Eu e Sarinha estávamos em Cannes quando Rita faleceu, em 1987, do Mal de Alzheimer. Ela, que já fora o padrão de beleza mundial, teve sua fotografia final publicada pelos tablóides americanos e ingleses, uma maldade sem perdão. Estava desfigurada, devastada e parecia ter mais de 100 anos, vitima da degeneração da moléstia.  Depois de “Gilda, o bordão, “Nunca houve mulher como Gilda”, colou nela.    Rita  se queixava aos amigos: É dificil o relacionamento com os homens. Eles se apaixonam por Gilda, mas acordam comigo.

Outros amores de Jorginho Guinle, romances que duravam a passagem de um carnaval carioca:Janet Leigh, Jayne Mansfield, Katy Jurado,

Quando convidou Rock Hudson para vir ao Brasil, combinou com a Universal uma forma de tapar o sol com a peneira, para abafar os rumores de que o másculo ator era gay.

A Revista o Cruzeiro, maior veículo de circulação nacional do país, à convite de Jorge Guinle fotografou Rock Hudson e a atriz brasileira Ilka Soares numa paradisiaca ilha do litoral fluminense, publicando dez páginas do “tórrido” romance entre os dois.

Os convites de Jorginho Guinle eram coordenados por Harry Stone, conhecido como o embaixador do cinema americano no Brasil (era do corpo diplomático, funcionando na Embaixada dos Estados Unidos), defendendo os interesses da indústria de Hollywood em nosso país, razão pela qual era odiado pelos cineastas brasileiros.  Em contrapartida, adorava o Brasil, ficou aqui até sua morte aos 74 anos.    Era casado com uma socialite brasileira, Lucia Burlamaqui, e se integrou na vida do país.   Juscelino Kubitschek foi seu padrinho de casamento.  Glauber Rocha chegou a acusá-lo de agente da CIA, enquanto Luiz Carlos Barreto, de quem se aproximou, acabou reconhecendo que ele era um grande lobista, mas uma pessoa leal.  No 7 de setembro, ele que havia lutado nas forças americanas durante II Guerra Mundial, fazia questão de desfilar com os pracinhas brasileiros, como ex combatente do Eixo.

·         ·  Harry Stone viajava mais de dez vezes por ano aos Estados Unidos, e sempre pela Braniff, companhia aérea da qual eu era gerente de relações públicas. Ficamos amigos e me orgulho muito de sua amizade.  Era um cavalheiro, gentil, educado e nunca respondeu às criticas infundadas e ofensas que recebia nas rodinhas do cinema carioca, no famoso boteco Alvadia, na Rua Álvaro Alvim, na cinelândia do Rio de Janeiro. Quando eu ia Rio de Janeiro, uma vez por semana, a servido da Braniff, passava no Alvadia para “medir a pressão” do cinema brasileiro, encontrar o pessoal e comer o melhor prato feito que já experimentei em toda minha vida.

Houve visitas esporádicas, de caráter pessoal, como Kirk Douglas, Tab Hunter, John Wayne, William Wyller e esposa, em viagem de férias, Charlise Theron, encantou o mundo gay da Cidade Maravilhosa  e Gene Hackman, que veio a São Paulo, só para assistir a um Grande Prêmio de Fórmula I.

Nem Walt Disney escapou da atração pelo Brasil, se bem que a serviço do Departamento de Estado, No esforço de guerra dos Estados Unidos, Hollywood foi mobilizada para conquistar os amigos ao Sul do Rio Grande e Disney colocou seu estúdio à disposição.  Percorreu vários paises da América Latina e produziu “The Three Cablalleros”, que aqui ganhou o nome de “Você já foi à Bahia?”. Disney colocou o Pato Donald e dois personagens locais que criou, o Zé Carioca e o Panchito, um brasileiro, outro mexicano.

Pela primeira vez, Disney utilizou um personagem humano contracenando com os desenhos, num número musical (que justifica o titulo do filme). Aurora Miranda, irmã de Carmem, que já estava em Hollywood, rebolou um samba meio americanizado, que acabou atingindo os objetivos da política de boa vizinhança.

Deu a Disney duas indicações para o Oscar, como melhor som e melhor trilha sonora de filme musical.  Seu patriotismo saiu no lucro.

 

mkus@uol.com.br

 

 






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