Mauricio Kus
COMO APRENDI A GOSTAR DE CINEMA ANTES DE IR AO CINEMA


Por Mauricio Kus, 11/11/2009 às 22:2

COMO APRENDI A GOSTAR DE CINEMA ANTES DE IR AO CINEMA

Eu praticamente nasci e fui criado não no cinema, mas na cinematografia. Morei na Rua General Couto de Magalhães até os 14 anos de idade. Esta rua fica no que hoje é chamado a cracolândia e seu entorno era rodeado pelas Ruas Vitória e Triunfo. Estas ruas abrigavam quase todas as companhias distribuidoras de filmes da cidade de São Paulo, justamente por estarem localizadas perto das estações de trem, Luz e Sorocabana. Como não havia as grandes redes, como hoje, as marcações de filmes eram feitas pessoalmente pelos proprietários de cinemas do interior, que vinham a São Paulo de trem, para realizar suas contratações com as distribuidoras. Paradoxalmente, as ruas tinham os nomes do que exatamente os filmes necessitavam para fazer sucesso: vitória e triunfo. Em morava num sobradão, cujo andar de baixo abrigava a loja do meu pai, um negócio popular de roupas, para atender o consumidor mais modesto, que vinha de trem para São Paulo fazer compras. No andar de cima, morávamos eu e minhas quatro irmãs, com meus pais. Como não tinha muito lazer, minha distração após as aulas era percorrer os quarteirões ao lado de casa e parar nas agencias distribuidores de filmes para apreciar seus lançamentos. Sem nunca ter ido a um cinema. Tinha 10 anos.

Todas as principais distribuidoras americanas estavam lá, as chamadas majors: Fox, United, Columbia, Warner ,Paramont, Universal e RKO (que pertencia ao milionário Howard Hughes). Mas afastado, fora do eixo dos grandes estúdios, na Rua dos Gusmões, a extinta Republic e algumas européias, inclusive a Art Filmes.

As distribuidoras mantinham grandes lojas.para guardar as imensas latas de filmes e aproveitavam o espaço da frente para encher as paredes com cartazes dos filmes e pequenas vitrines com fotos dos próximos lançamentos, para serem estudados pelos eventuais clientes, que depois subiam aos escritórios para fazer as marcações.

Eu na minha inocência de pré-adolescente, sonhava com a ação resultante daquelas fotos e me familiarizei com os astros da época, e inventava enredos que se associavam aos nomes dos filmes.

Eu era muito modesto. Nunca era mais do que capitão, nas minhas guerras imaginárias dos americanos derrotando os diabólicos nazistas.

Antes de ir ao primeiro cinema, aos 12 anos de idade, eu já sabia de cor os nomes, elenco e enredo de dezenas de filmes, que eu só iria assistir mais tarde, alguns na Cinemateca, outros até em VHS,hoje em DVD.

Tenho na memória, decorridos mais de meio século, todos os desenhos de Walt Disney e lembro como ele, à exemplo de Cecil B.de Mille, fazia uma pequena aparição, explicando o filme antes que os letreiros de apresentação aparecessem na tela.

Branca de Neve e os 7 anões, Dumbo, Bambi, Pinocchio, Fantasia, são desenhos imortais que nem a tecnologia com seus longas (maravilhosos, é verdade) em computação gráfica, podem superar.



A Disney costumava relançar os filmes de 7 em 7 anos. Diziam que era o prazo para formar uma nova geração. Agora, porém, cancelaram esta política, para dar lugar aos Nemos, Era do Gelo, Carros, Transformers, que não sei se agüentam uma reprise a cada 7 anos..

Filmes marcantes que fui assistir depois de vasculhar os cartazes e fotos em suas distribuidoras:

Cidadão Kane, Casablanca, Em cada coração um pecado, Pacto de sangue, Soberba, A felicidade não se compra, Vinhas da ira, Consciências mortas,Ratos e homens, Do mundo nada se leva, Os melhores anos de nossas vidas, Rebecca, O grande ditador, Como era verde meu vale, A mulher faz o homem, Sargento York, e muitos, muitos outros.Filmes que contavam uma história humana, com lances de dramaticidade e humanismo, onde os atores eram preponderantes, o diretor deixava sua marca e não haviam efeitos sonoros ou visuais feitos por computador, nem carros voando, explosões e violência ou sexo, na maioria das vezes, gratuitos e até algumas vezes, fora do contexto da trama.



O público era fiel a seus heróis e se não haviam Homem Aranha I,II,III e assim por diante, eu era fã de um detetive chinês chamado Charlie Chan, que durou de 1931 a 1949. Teve três atores, Warner Oland, de 1931 a 1938; Sidney Toler, de 1938 a 1947 e Roland Winter, que estrelou os seis filmes finais da franquia. Nenhum era chinês na vida real.

Grandes nomes de minha iniciação no escurtinho do cinema: Clark Gable, Humphrey Bogart, William Powel, Melvin Douglas, Henry Fonda, Gary Cooper,Douglas Fairbanks Jr, Jphn Wayne, Orson Welles, Cary Grant,, James Stewart,Nelson Eddy e Jeanete McDonald (me ensinaram a gostar de música no cinema), Ray Milland, Preston Foster, Victor McLaglen, Don Ameche, Paul Muni, Spencer Tracy, Mickey Rooney, Tyrone Power, e muitos, muitos mais.

As mulheres eram maravilhosas naquele tempo. Apesar de que elegeria hors concours Katherine Hepvburn e a divina Greta Garbo, Ingrid Bergman é a minha favorita de todos os tempos.



E olhe que haviam Ginger Rogers, Joan Crawford, Rita Hayworth, Bárbara Stanwick, Maureen O’Hara, Linda Darnell, Alice Faye Hedy Lamarr, Carole Lombard, Merle Oberon, Claudete Colbert, Judy Garland, Lana Turner, Ida Lupino, Gene Tierney, Carmem Miranda (que enchia as platéias brasileiras de orgulho ao ver a patrícia que venceu em Hollywood),.

Ingrid Bergman nasceu em 1915 em Estockolmo e faleceu em Londres em1982.
Nasceu e morreu num dia 29 de agosto.

Quando filmou Casablanca tinha 27 anos e estava linda como nunca, Quando tinha que parecer mais velha, ou sofrida, como em Por quem os sinos dobram, era o terror dos maquiadores dos estúdios. Foi uma mulher corajosa. Abandonou um casamento sólido com um medico sueco e filhos, para se aventurar com Roberto Rosselini em Stromboli. A moralista Hollywood, virou as costas à sua atitude e ela se radicou na Europa por alguns anos. Voltou por cima, desfilando no tapete vermelho para buscar o Oscar por Anastásia, aplaudida de pé e ovacionada por mais de três minutos, por uma platéia de 2.500 representantes de todas as áreas da indústria do cinema americano. Conquistou mais dois Oscar, um por Luz de Gás e outro, como coadjuvante em O Assassinato no Expresso Oriente.

Ninguém mais do que ela poderia representar uma das mais poderosas mulheres do século 20, a Primeira Ministra de Israel, Golda Meir, pelo qual ganhou o Premio Emmy, um ano antes de sua morte.

Ingrid Bergman continua à espera de uma substituta. É um páreo difícil...

mkus@uol.com.br




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