Mauricio Kus
FIGURINOS, MAQUIAGEM, PRODUÇÃO DE TEATRO, DIRETOR DE CINEMA, ELEGÂNCIA E ESTILO, PRODUÇÃO DE MODA, JORNALISMO DE MODA,ESCREVER LIVROS, CASAR, ERA COM ELE MESMO...FERNANDO DE BARROS


Por Mauricio Kus, 14/08/2009 às 13:12

FIGURINOS, MAQUIAGEM, PRODUÇÃO DE TEATRO, DIRETOR DE CINEMA, ELEGÂNCIA E ESTILO, PRODUÇÃO DE MODA, JORNALISMO DE MODA,ESCREVER LIVROS, CASAR, ERA COM ELE MESMO...FERNANDO DE BARROS

O maior susto que Fernando de Barros pregou a todos nós, não foi o anúncio de sua morte, em 11 de setembro de 2002. Foi a descoberta de um dos segredos mais bem guardados de sua vida e o espanto dos amigos, ao se certificarem que ele se foi com 87 anos. Numa bolsa de apostas, dez por dez. diriam que ele não aparentava mais que 75 anos.

Sua jovialidade, generosidade, apego aos amigos leais, elegância e gentileza o conservavam sempre jovem, dinâmico e presente. Tinha o dom da ubiqüidade, parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, com sua verve, ar de bom vivant e um papo delicioso e inteligente. E era muito otimista e bem humorado.

Conheci Fernando de Barros em 1949, quando ele veio a São Paulo com uma companhia teatral que apresentou três peças no Teatro Cultura Artística, com Tonia Carrero, Paulo Autran, Vera Nunes e Armando Couto. "Um Deus dormiu lá em casa" foi o ápice daquela temporada e uma lufada de bom gosto no teatro paulista. que estava se profissionalizando com a próxima chegada do TBC, o divisor das águas do teatro brasileiro.

Esta amizade durou pouco mais de meio século e ele esteve sempre em minha vida. Nunca recusou um convite ou deixou de prestigiar efemérides dos amigos.

Amigo intimo da família Massaini estava presente a todas as festas de reveillon que o produtor de "O pagador de promessas" oferecia em sua mansão da Rua São Salvador e não falhava no dia 6 de janeiro, aniversário de casamento de Iracema e Osvaldo Massaini, que coincidia com os aniversário de Anselmo Duarte e Dionizio Azevedo.

Era festa e sopro de velinhas em bolo triplo.

Fernando de Barros
acompanhou toda a trajetória de minha vida. Esteve presente no meu casamento, acompanhou o nascimento de meu dois filhos, foi à festa de dez anos de casado, à festa de 13 anos de casado, no bar mitzva do meu filho Paulo e no bat mitzva de minha filha Joyce.Teve uma carreira fulgurante no teatro, cinema, jornalismo, moda e publicou livros..

Foi, por vários anos, crítico de cinema do jornal "Ultima Hora", de Samuel Vainer, escreveu "Elegância" (1977) e "O Homem Casual"(1998), trabalhou por 35 anos na Editora Abril, 26 como editor de moda da revista Playboy.

Durante 16 anos trabalhou juntamente com Constanza Paschollato,, fazendo a grande dupla da moda, ele como ícone da moda masculina, ela como ícone da moda feminina. Ditaram comportamento e costumes na arte de bem vestir.

Os repórteres que escreveram sobre sua morte, falavam no bairro de Higienópolis,onde morou muitos anos num apartamento em que vive hoje Fernandinho Valeika, seu filho. Poucos conheceram o agradável pequeno apartamento da Rua Paim, ao lado do Teatro Maria Della Costa. Entre estes felizardos, estavam Ignácio de Loyola Brandão, Alessandro Porro, Tonia Carrero, Maria Della Costa e Sandro Polônio, que moravam na cobertura do prédio onde foi construído o Teatro Maria Della Costa.

Fernando foi casado com Maria Della Costa, mas os três sempre foram amigos e ele deu grande apoio a ela quando Sandro Pollonio faleceu. Hoje Maria vive reclusa, mas trabalha ativamente em sua pousada Coxixo, em Parati.
Fernando foi casado 8 ou 10 vezes (o número é impreciso em suas várias biografias), mas basta falar em Tonia Carrero, Maria Della Costa e Odete Lara para ver que conviveu com as mulheres mais bonitas de sua época.
Na Rua Paim tinha um carro antigo, um Jaguar cabriolé, raridade e sonho de consumo de todos os playboys e garotões do país, quiçá do mundo..

E Fernando o dirigia com a dignidade de um lord que estivesse passeando na Regent Street, em Londres.
Na Vera Cruz dirigiu, produziu e participou da produção de mais de 20 filmes, na década de 50. Era eclético, dirigiu desde um musical como "Tico Tico no Fubá", um drama como "Apassionata", "Chanchada com Dercy Gonçalves" (Uma certa Lucrecia) até uma pornochanchada (suave) Lua de Mel e Amendoim. Ingressou até no gênero cangaço, tão em voga na década de 60.

Para os puristas do cinema nacional teve um pecadilho em sua vida. Fundou e dirigiu por algum tempo, uma empresa distribuidora de filmes americanos ou europeus,, a Wallfilmes, da família Simonsen, proprietários da TV Excelsior e da Panair do Brasil.

Dentre os filmes que distribuiu, destacamos "O mafioso", com Norma Bengell e Alberto Sordi, o que deu ensejo a que repatriasse Norma para ajudar na promoção do filme. Norma fez sucesso: imaginem, uma atriz brasileira que conquistou a Europa, diziam os jornais da época. Ela trouxe Gabrielle Tinti a tiracolo e casou com ele num cinematográfico cenário dentro dos estúdios da Vera Cruz e o apresentou a Walter Hugo Khouri, que o incluiu no elenco do filme "Noite vazia".

Fomos a Porto Alegre,Fernando, eu, minha esposa Sarinha, Norma e Tinti para promover o filme. Foi uma loucura. Num excesso de comparação, um exibidor dizia que era sorte para o Internacional e o Grêmio não haver um Gre-Nal naqueles dias, pois a população estava toda na porta do cinema e o estádio do Beira Rio ficaria vazio. A pré estréia foi no cine Vitória, um cinema com 1.000 lugares. totalmente lotado. Uma pequena multidão ficou do lado de fora aguardando a chegada dos artistas.

Fernando Policarpo de Barros
(sim, nunca usou o Policarpo, a não ser no passaporte) que usou - e muito - porque gostava de viajar, conhecer o mundo, visitar lojas, fábricas, museus, pesquisar tendências de moda e assistir desfiles dos grandes costureiros do mundo inteiro.

Fui gerente de relações públicas para o Brasil das empresas aéreas Braniff e depois British Caledonian, por duas décadas. Neste período, convidava jornalistas para visitar os destinos servidos pela companhia e com isto, desenvolver espaço na mídia para promoções destas do turismo em seus países..

Num determinado momento fui também publicista freelancer da Columbia Pictures e convenci as duas empresas a fazer uma parceria. Convidamos Fernando de Barros e Ruben Ewald Filho para uma viagem ao Marrocos, onde assistiram às filmagens de "The Young Winston" filme sobre a juventude de Winston Churchill, na África do Sul. Mas, para fugir aos problemas do apartheid, o diretor Richard Attenborough preferiu fazer as locações no Marrocos.

Fernando viajou conosco para Londres, onde visitamos museus, fomos ao teatro e conhecemos o interior da Inglaterra, viajando de carro até Straford-upon-Avon, terra de Shakespeare, Balmoral (castelo da família Churchill), Ascot (Palácio de Verão da Família Real) e Oxford, uma das mais conceituadas universidades do mundo.
Foi ali, na Trafalgar Square, num domingo de sol (coisa difícil em Londres), que Fernando, telefonando para um amigo no Brasil, soube da queda do avião de Leila Diniz na Índia, e comunicou a nós a triste noticia.

Fomos junto ao norte da Escocia, no Highland, numa visita à destilaria da Grant’s Whisky, onde vimos como é fabricado, envelhecido em tonéis e engarrafado o precioso liquido. Vimos também o companheiro de viagem Jaguar se gabar de sua capacidade etílica, ao tomar whisky puro com 62º de graduação alcoólica. Entrou em coma e foi socorrido pelo serviço médico da destilaria.

Fomos também a San Antonio, para a inauguração de uma feira internacional. E visitamos o Alamo, a entrada do forte preservada como um monumento público em frente à uma praça gigantesca, (como tudo no Texas), onde entramos numa lojinha para comprar dois robôs movidos a pilha (uma raridade no Brasil atrasado quase 50 anos pela idiota proibição de artigos importados), um para meu filho Paulo, outro para o Fernandinho. Que festa quando chegamos ao Brasil...

Como Fernando de Barros se tornou jornalista de moda?

Quando estava preparando a produção de "Riacho de sangue" - imaginem Fernando dirigindo um filme de cangaceiro no sertão do Ceará - visitou várias fábricas em busca de figurinos e roupas que pudesse utilizar nas filmagens.

Ficou horrorizado com a pobreza de imaginação dos designers de roupas da época e prometeu que - quando voltasse iria escrever sobre moda para ensinar os confeccionistas a obterem melhores resultados com seus produtos.
E Fernando conseguiu o que ninguém esperava. Fez um filme de cangaço com toda ação, aventura e violência do gênero, mas com bom gosto, figurinos bem ajustados, sobriedade e sexo (afinal, de mulher ele entendia muito). Um filme à la Howard Hawks.

Voltou, entrou para o jornalismo de moda e revolucionou o setor.

Nota do editor: esta crônica será escrita em duas parte e isto é muito pouco para falar de Fernando de Barros e o que ele representou no cinema,teatro,televisão, jornalismo brasileiro.

Não é uma biografia, não somos biógrafos, são apenas lembranças e apontamentos de 50 anos de feliz convívio e amizade, sem ordem cronológica dos acontecimentos. Portanto, voltaremos ao assunto.




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