Mauricio Kus
ANTONIO FAGUNDES E SEU FILHO BRUNO FAGUNDES SOB A DIREÇÃO DE JORGE TAKLA


Por Mauricio Kus, 11/04/2012 às 17:27



Em seu ateliê em Nova York, em 1958 o já consagrado artista Mark Rothko recebe pela primeira vez seu novo assistente, Ken. “O que você vê?”, pergunta, apontando para uma das pinturas em que trabalhava. A partir daí, uma bela relação desenvolve-se diante da platéia; um encontro cheio de nuances, em que ambos se permitem indagar e refletir, questionar e ouvir. É esse o ponto de partida do espetáculo Vermelho, dirigido por Jorge Takla, e estrelado por Antonio Fagundes, como Rothko, ao lado de seu filho Bruno Fagundes, que interpreta o jovem aspirante a artista.

Premiadíssimo na Broadway (seis Tonys na temporada 2010), Vermelho é uma co-produção de Antonio Fagundes e Jorge Takla, e estréia no dia 30 de março, inaugurando o Teatro GEO (Rua Coropés, 88 - próximo ao metro Faria Lima).

 

Escrita pelo dramaturgo e roteirista John Logan e traduzida por Rachel Ripani, com figurinos de Fabio Namatame, a peça se passa no período entre 1958-1959, quando o pintor russo naturalizado norte-americano – que ganhou notoriedade ao encabeçar o Expressionismo Abstrato -, trabalha em uma série de murais para o sofisticado restaurante Four Seasons, no Edifício Seagram, na Park Avenue, encomendados a ele por uma quantia recorde à época.

 

Vermelho é um olhar carinhoso sobre um grande artista consagrado passando o bastão para uma nova geração de novos artistas inquietos, provocadores e talentosos a peça é também um panorama da arte moderna da New York dos anos 50, quando mestres consagrados como Rothko, de Kooning e Pollock conviviam com artistas jovens e arrogantes (que não eram muito levados a serio) como Andy Warhol e Liechtenstein.

Um dos pontos primordiais do texto é a sua universalidade, como aponta o diretor Jorge Takla: “enquanto acompanhamos o processo de criação desse grande artista, percebemos um conflito comum a todos nós, criadores: o dilema entre o artístico e o comercial. A relação que existe no palco entre Rothko e Ken observa, de forma carinhosa, a troca entre um artista consagrado que passa o bastão a uma nova geração provocadora que está por vir. Vermelho é uma obra exigente que, como Rothko, nos leva a criar um clima de luzes delicadas, um ambiente suave para valorizar as obras e deixá-las pulsantes e vivas. Aliás, a luz foi um dos desafios da montagem, pois Rothko dizia que uma obra vive por simbiose, ela precisa do olhar empático do observador, e por isso ele tinha que protegê-la, controlando a luz, a altura em que ela está exposta, a distância do observador; senão a obra poderia morrer desprotegida.”

 

O texto vai muito além de uma biografia de Rothko. “Se deixarmos o artista falar de sua necessidade de comunicação com a platéia e de sua vontade de descobrir a pureza de sua arte, conseguimos ampliar o alcance do texto mais do que se nos limitássemos a imitar o Rothko”, comenta Fagundes. Bruno completa: “É interessante como as discussões podem ser lidas de vários pontos de vista, e tocam em outros âmbitos; é uma troca constante e quase inevitável, como se fosse uma necessidade deles, e isso vai revelando as diversas camadas dos personagens aos poucos.”

 

A troca de conhecimentos, no entanto, não se dá apenas na ficção. Pela primeira vez, Antonio Fagundes contracena com seu filho, Bruno. No palco, os atores mostram, também, a intimidade construída no processo de criação de um artista. Preparam e misturam a tinta, esticam a tela, debatem a iluminação ideal para, nas palavras do artista, proteger sua obra de arte. Com muita segurança, Rothko conduz Ken - e a platéia - por um caminho teórico cheio de referências e, ao mesmo tempo, extremamente sensível.

 

Para aproveitar o rico material que o espetáculo apresenta, uma exposição será montada no lobby do teatro GEO, com a intenção de mostrar ao público o trabalho de Mark Rothko. Além das reproduções de pinturas do artista, também estarão expostas obras e informações sobre as personalidades e as correntes artísticas citadas no palco.

 

Sobre o artista Mark Rothko

 

Nascido no ano de 1903 em Dvinsk, na Rússia, Mark Rothko transferiu-se com sua família para Portland, nos Estados Unidos, com apenas dez anos. Apesar de sua má condição financeira, recebeu ótima educação, ingressando na seleta e tradicional Universidade de Yale, em 1921, e vislumbrando uma carreira política que contivesse seu grande engajamento social. No entanto, dois anos depois abandonou os estudos e partiu para um rumo menos acadêmico, estabelecendo-se em Nova York em 1925, quando começou a pintar de forma autodidata.

 

Mais tarde, estudou a técnica sob a tutela do artista Max Weber, partindo de um estilo realista – como sua série Subways, de 1930 -, para gradualmente desenvolver seu estilo, passeando pelas formas abstratas da década de 1940, até chegar em figuras abstratas que enfatizavam a cor e a forma. Nos anos 1950, distanciou-se do Surrealismo para se tornar um dos principais artistas do movimento Expressionismo Abstrato, ao lado de Jackson Pollock e Willem de Kooning. Sempre com a preocupação de comunicar e de produzir emoção através de suas grandes telas, Rothko evoluiu seu estilo ao simplificá-lo – priorizando a cor e suas sobreposições, desenvolveu em sua obra a noção de “campos de cor”, bastante característica daquele momento.

 

Mesmo tendo abandonado os estudos na Universidade, Rothko considerava fundamental o conhecimento formal: foi profundo conhecedor de filosofia e arte, sendo muito influenciado pela obra de Friedrich Nietzsche. No período entre 1958-59, retratado no espetáculo Vermelho, Rothko trabalhava na série de murais Seagram, obra encomendada para o sofisticado restaurante Four Seasons, em Nova York. A crise vivida por ele naquele momento culminou na desistência e devolução do dinheiro adiantado pelo trabalho, que hoje encontra-se exposto na Tate Modern, em Londres, na National Gallery of Art, em Washington, e no Kawamura Memorial Museum, no Japão. Além de muito influente como artista, Rothko dedicou-se por décadas ao ensino da arte, lecionando em diversas instituições. Ele suicidou-se em 1970, em Nova York.

 

Sobre o dramaturgo John Logan

 

John Logan iniciou sua carreira de dramaturgo em 1985, quando escreveu sua primeira peça, Never the Sinner, em sua cidade natal Chicago (EUA); cinco anos depois, ela foi montada no West End londrino e, em 1998, em Nova York. Após escrever outros textos para o teatro, como Hauptmann e Riverview, um melodrama musical, migrou para o roteiro audiovisual em 1996.

 

Com uma carreira muito bem-sucedida no cinema, foi responsável por roteiros de filmes como Um Domingo Qualquer, dirigido por Oliver Stone, O Gladiador, de Ridley Scott, O Último Samurai, de Edward Zwick, Sweeney Todd, de Tim Burton, e O Aviador, de Martin Scorsese, parceria que se repetiu com A Invenção de Hugo Cabret, que lhe rendeu sua terceira indicação ao Oscar de melhor roteiro. Em Londres para as filmagens de Sweeney Todd, do qual foi também produtor, conheceu os famosos murais Seagram, de Mark Rothko.

 

Fascinado pela pequena explicação que acompanhava as obras, pesquisou por um ano a vida, as referências e o legado de Mark Rothko. Foi assim que voltou às suas origens no teatro e criou Vermelho, estreando em dezembro de 2009 no teatro The Donmar Warehouse, em Londres, com Alfred Molina no papel de Mark Rothko e Eddie Redmayne, como Ken. Em março de 2010, a peça foi montada com o mesmo elenco na Broadway, em Nova York, com maravilhosa repercussão, ganhando cinco prêmios Tony, inclusive o de melhor espetáculo. Talentoso e versátil, Logan escreveu, recentemente, o roteiro do próximo longa-metragem da série 007, Skyfall, que será dirigido por Sam Mendes.

 

 

VERMELHO – SERVIÇO

 

Estréia: 30 de março, às 21h30

 

Local: Teatro GEO - Rua Coropés, 88 – tel. 3728.4930 - (próximo ao metro Faria Lima) – www.teatrogeo.com.br






Leia também:

KING KONG, QUEM DIRIA?ACABOU NO PLAYCENTER
15/05/2011 - 22:55
O filme 'King Kong', foi o primeiro a furar a barreira de um milhão de dólares no Brasil, em 1977, quando foi exibido com distribuição da Paris Filmes. Po...


O DIA EM QUE SILVIO SANTOS ENTROU ESCONDIDO NO HOTEL SÃO PAULO HILTON
26/07/2009 - 22:18
Homem casado entrando escondido em hotel cinco estrelas dá o que falar. Principalmente se este homem é Silvio Santos. Foi o que aconteceu numa bela tarde...


O DIA EM QUE A DEUSA DO SEXO INVADIU O CONGRESSO NACIONAL EM BRASILIA
14/09/2009 - 05:47
Quando esteve no Brasil, em 1977, para promover um filme estrelado por ela, Sylvia Kristel, conhecida como “A Deusa do Sexo”, por suas atuações e situações...


PARA A DUPLA TELECO E TECO, PALHAÇADA É UM BOM NEGÓCIO E CHEGA AO LICENCIAMENTO
07/11/2011 - 15:21
Resgatando a magia da inocência das crianças e seus momentos de lazer e divertimento, a empresa Planeta Alegria criou a dupla de palhaços Teleco e Teco, qu...


MEU NOME É TAUFIK JACOB. MAS PODEM ME CHAMAR DIONISIO AZEVEDO
13/01/2011 - 15:0
Em 6 de outubro de 1973, a população de Israel se preparava para as orações do Yon Kipur, a data religiosa sagrada das hebreus, quando jejuavam e ficavam ...


A EXECUTIVA BEM SUCEDIDA
17/07/2014 - 11:16
A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imen...


ZIPPO cresce e novas linhas exclusivas serão lançadas no Brasil
20/01/2015 - 10:24
A Zippo cresceu 19% em vendas em 2014 comparado com 2013. Como resultado os diretores de seu representante e distribuidor exclusivo no país, Masterbrands B...


HISTERIA - De Terry Johnson. Tradução e direção Jô Soares - NOVA TEMPORADA - Teatro Shop. Frei Caneca
25/09/2016 - 15:49
Escrita em 1993, comédia teatral do autor britânico Terry Johnson ganhou direção de John Malkovich e sua montagem foi aclamada por diversos países da Europ...


Evento Experimente nascer de Novo - Em Prol das Vítimas da Guerra na Síria na Arena Corinthians
15/09/16 - 10:11
No dia 08 de outubro, a partir das 17h, a Arena Corinthians receberá um evento em prol das crianças vítimas da Guerra na Síria. Promovido pela Associação J...