Mauricio Kus
"A Dama do Mar" ganha montagem inédita em São Paulo


Por Mauricio Kus, 05/06/2012 às 9:47

"A Dama do Mar" ganha montagem inédita em São Paulo

"A Dama do Mar" ganha montagem inédita em São Paulo
Crédito da foto: Bob Sousa

A negação ou a afirmação do desejo? Esse é um dos grandes embates de “A Dama do Mar”, peça que estréia no dia 30/junho, no Teatro Nair Bello, no Shopping Frei Caneca, em São Paulo. O clássico texto do norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) ganha montagem inédita em São Paulo pelas mãos do premiado diretor Sérgio Ferrara (“Pobre Super-Homem”, “Pororoca”, “O Casamento Suspeitoso”, dentre outros) e tradução de Valderez Cardoso Gomes. Escrito em 1888 e inicialmente intitulado “A Sereia”, “A Dama do Mar” (Fruen fra havet) pertence à fase simbolista de Ibsen e é considerado um de seus textos mais poéticos.

“A Dama do Mar” gira em torno do drama de Élida Wangel, uma mulher que se casou com um médico viúvo, pai de duas filhas e foi morar em uma pequena cidade. Dr. Wangel a ama profundamente, mas ela não sabe como amá-lo porque se atormenta com a lembrança do estrangeiro (um marinheiro) que prometeu vir buscá-la um dia para se casarem. Quando ela ainda era jovem, teve um rápido e intenso romance com este homem, quase um estranho para ela. Ele juntou seu anel ao dela e jogou-os ao mar assumindo que aquilo era um noivado para sempre e que ele voltaria um dia para buscá-la. Sem filhos, ociosa e dependente, teve apenas um filho, morto ao nascer, sua única alegria é mergulhar no mar. A atração de Élida pelo mar é símbolo de sua busca e renúncia de liberdade pessoal. A trama mostra o debate de Élida entre a resignação da vida doméstica, burguesa, ao lado de um obscuro médico de aldeia, e a aventura com um estrangeiro, desconhecido, mas que, talvez, signifique a liberdade.

“A Dama do Mar” fecha a trilogia dessa fase simbolista de Ibsen encenada por Sergio Ferrara. Em 2007, Ferrara dirigiu “O Inimigo do Povo”, em comemoração ao centenário de morte do dramaturgo. Em 2008, montou texto inédito de Ibsen, “O Imperador e Galileu”, e que contou com Caco Ciocler no elenco. “A composição de ‘A Dama do Mar’ agrada-me pela leveza, não apenas no pensamento e na descrição das imagens e das cenas, mas na composição de cada frase. O que mais me chamou a atenção em Elida foi a compreensão de que havia uma necessidade de independência para afirmar a sua escolha livre. Renunciar ao casamento, pedir o divórcio para realmente escolher livremente. Eis a grandeza de Elida. Pouco importa o que ela escolherá”, explica o diretor Sérgio Ferrara.

Para a montagem, Ferrara procurou igualmente fazer escolhas simbólicas. A cenografia e o figurino são de J.C. Serroni. A ênfase está na cor branca. No centro do palco, está um ciclorama inserido numa plataforma de madeira. Ele faz às vezes de uma ponte que leva ao mar, ao infinito. O espaço cênico busca trabalhar a sensação de infinito e imaterialidade que a cor branca sugere, realçando esse drama da fase simbolista de Ibsen. O figurino baseou-se na obra do pintor norueguês Peter Severin Kroyer (1851-1909) e é realista, para se contrapor à poesia da obra.


Sobre Henrik Ibsen:

Apelidado de pai do teatro moderno, criador do chamado "teatro de idéias", a obra do norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) se caracteriza pelo estudo psicológico dos personagens, pela crítica à burguesia e ao capitalismo e pelo encontro do indivíduo com a sociedade. Foi um dos revolucionários do teatro moderno ao colocar em cena não um mundo idealizado, povoado de heróis e heroínas sobre-humanas, mas, sobretudo, as angústias e sentimentos comuns à maioria das pessoas da classe média de seu tempo. Sua obra é dividida em 4 períodos e 25 peças. Em 1863, fez sucesso com "A Matéria de que se Fazem Reis", ambientada na Noruega medieval e apresentada na Itália, onde escreveu outras três peças, entre elas: "Peer Gynt" (1865), uma crítica ao homem moderno através da trajetória de um aventureiro que abandona seus princípios morais em nome da fama; "Casa de Bonecas" (1879), sobre uma mulher que abandona o marido e os filhos para ser independente. Também fazem parte de sua obra "A Comédia do Amor" (1862) e "Os Pilares da Comunidade" (1877).


Sobre Sérgio Ferrara:

Mineiro radicado em São Paulo, Sérgio Ferrara integrou, durante dez anos, o Centro de Pesquisa Teatral (CTP), supervisionado pelo diretor Antunes Filho. Dirigiu espetáculos como “Antígona”, de Sófocles, na jornada Sesc de Teatro, com o ator Paulo Autran; “Tarsila”, de Maria Adelaide Amaral; “Barrela” e “Abajur Lilás”, de Plínio Marcos; “Mãe Coragem e Seus Filhos”, de Brecht, com a atriz Maria Alice Vergueiro. Recebeu o Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor diretor pelo espetáculo “Pobre Super-Homem”, de Brad Fraser. Em 2007, dirigiu “O Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen, em comemoração ao centenário de morte do dramaturgo norueguês. Em 2008, montou texto inédito de Ibsen, “O Imperador e Galileu”, e que contou com Caco Ciocler no elenco. Em 2010, convidado pelo Ministério da Cultura e pelo Festival de Teatro da Língua Portuguesa, viajou para vários países africanos para dar aulas de teatro. Seus trabalhos mais recentes foram na direção de “Pororoca”, texto de Zen Salles, e “O Casamento Suspeitoso”, texto de Ariano Suassuana, peças que ficaram em cartaz no Teatro Popular do Sesi. Em 2012, foi indicado ao Prêmio APCA de Melhor Diretor pelo espetáculo “O Casamento Suspeitoso”.

mkus@uol.com.br






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